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O retorno de Rodolfo, emprestado ao Oeste pelo Fluminense, e a luta diária contra a cocaína

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Exclusivo: Goleiro Rodolfo conta como venceu a cocaína e sobre retorno ao futebol após mais de um ano suspenso por doping (10:09)

De volta ao Oeste, jogador relembrou como se envolveu com drogas e quase colocou tudo a perder quando vivia boa fase no Fluminense (10:09)

O goleiro Rodolfo surgiu para o futebol em berço de ouro. Começou a longa trajetória com Neymar, ainda no futsal em Santos, pelo Gremetal. Dessa época guarda lembranças ternas e curiosas, como disse com exclusividade à nossa reportagem.

“Neymar jogava bem, mas não era tudo isso no Gremetal. Tinha garotos melhores do que ele. Neymar só foi mostrar que era mesmo diferente quando foi para a base da Portuguesa Santista [de 1998 até 2003]. Ali ele começou a voar”, disse o goleiro.

Rodolfo também tinha um céu de brigadeiro pela frente no futebol. Era diferenciado, determinado, maluco, como todo goleiro precisa ser.

Não fossem o álcool, o cigarro e a cocaína na vida dele, certamente poderia ter alcançado o nível de Alisson e Weverton, os nomes da seleção brasileira do técnico Tite, e provavelmente estaria jogando novamente com Neymar.

Mas quis o destino que o goleiro tomasse outro rumo, o dá má influência e das más companhias que o levaram para o lado mais obscuro e temido da sociedade.

O primeiro vício foi álcool, que surgiu aos 15 anos, ainda nas divisões de base do Paraná. Um ano depois, Rodolfo cheirou cocaína pela primeira vez. Foi o início de um novo e ainda mais perigoso vício.

A carreira no futebol até decolou. Com voos meio turbulentos, mas decolou. Ele se destacava no Athletico-PR quando, em 2014, pela primeira vez um exame antidoping acusou uso de cocaína. Estava com 23 anos, e a história dele no futebol poderia ter acabado ali.

Rodolfo pegou um ano de suspensão, foi ajudado pelo clube paranaense. Aceitou o tratamento, pois sabia que já era um dependente químico. Ficou dois meses internado em Curitiba e saiu de lá disposto a reconstruir não só a vida como a história no futebol.

E conseguiu.

Passou por vários times, como o Osasco Audax, a Ferroviária e o Oeste, onde brilhou na Série B do Campeonato Brasileiro, terminando o torneio no sexto lugar e como o melhor arqueiro da disputa, em 2017.

A excelente campanha foi o passaporte que ele precisa para conseguir novamente chegar a um clube da elite do futebol nacional. O Fluminense não perdeu tempo e contratou o “novo e promissor” Rodolfo.

A ótima fase conflitava com a vida fora de campo.

Com a dependência química batendo na porta, mais uma vez o goleiro perdeu o controle. Nos treinos, segundo ele, chegava virado. Rodolfo diz que nunca usou a cocaína para jogar, mas que depois de cada partida corria em busca da droga.

Assim, ele perdeu as contas de quantas vezes foi direto dos estádios para as "bocas". Não pensava nos riscos. Sua preocupação era mesmo o exame antidoping. Aquele era o fantasma que o perseguia.

“Cara, hoje eu consigo ir tranquilo pro antidoping, mas na época turbulenta era complicado”, disse à reportagem.

Rodolfo foi pego no antidoping pela segunda vez em 2019. Teve todo o apoio do Fluminense para reduzir a pena de dois anos de suspensão. Conseguiu uma redução para um ano, sete meses e 20 dias, tempo capaz de abalar qualquer atleta no alto rendimento.

O goleiro disse que o afastamento não foi só do futebol profissional, mas sim dos amigos da bola, do clube, dos treinos e até da academia pelo qual ele trabalhava. E o julgamento da sociedade praticamente enterra o indivíduo vivo e decreta de vez o fim da carreira.

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Preparador de goleiros do Fluminense relembra trabalho com Rodolfo, hoje no Oeste e recuperado das drogas

André de Carvalho treinou Rodolfo em 2018 e 2019, antes do goleiro ser pego no doping e suspenso por 1 ano, 7 meses e 20 dias

Frente a frente com Rodolfo

Não é nem um pouco fácil convencer um atleta pego no exame antidoping a falar abertamente e conceder uma entrevista.

No caso de Rodolfo, o primeiro contato começou há pouco mais de um ano. Foram várias mensagens até que ele informou que não poderia nos atender porque qualquer coisa que ele falasse poderia prejudicá-lo na volta aos gramados, pós-punição.

Nessas horas - e em outras também - é sempre muito bom contar com o respeito e o carinho de quem sabe como o trabalho jornalístico pode ajudar o indivíduo e, mais do que isso, alertar o risco para outras pessoas. Afinal, são muitas as armadilhas das drogas.

Em momentos assim aparecem os amigos de profissão, como o repórter Cícero Mello, que “abriu a porteira” e fez a ponte para transmitir ao entrevistado a confiança para ele atender o entrevistador.

Cícero conhece Júnior Farias, um cara apaixonado pela profissão de goleiro e que acabou virando assessor de vários arqueiros, inclusive de Rodolfo. Foi assim que a ideia da entrevista começou a virar realidade.

Rodolfo sabia quem éramos e entendeu que a hora de falar havia chegado. Na última semana, abriu o coração e a mente para um problema sério. A dependência química deve ser tratada como uma doença grave, que pode levar o indivíduo ao fundo do poço.

“Eu não tenho vergonha de falar sobre o meu problema, não tenho vergonha de assumir o que eu fiz. Se eu já usei droga um dia, se eu já bebi pra caramba um dia, se eu já fumei bastante um dia, pra mim isso ficou pra trás. Estou tratando isso, eu vou seguir em frente junto com a minha família. Se os caras estão falando isso ou aquilo de mim, não importa”, disse.

Na entrevista exclusiva aos canais esportivos da Disney, o goleiro contou detalhes de uma vida que, para muitos, dificilmente terminaria bem. Hoje, feliz da vida com a oportunidade que recebeu do Oeste (está emprestado pelo Fluminense até o final do ano), vem brilhando na Série A2, o segundo nível do Paulista. É capitão do Oeste e lidera, junto com sua equipe, a competição com quatro vitórias em quatro jogos.

Na conversa conosco, ele deu uma lição de como sair de um problema que terá que lidar pro resto da vida.

Na reportagem (vídeo no topo do texto), ele se apresenta com a cabeça cada vez mais aberta para a sua cura e, quem sabe, para novas possibilidades fora de campo, como estudar e tornar-se também um símbolo da luta contra a dependência química no Brasil.

O exemplo vem do ex-jogador e comentarista Walter Casagrande Júnior.

“Não falo pra você que eu não vou recair nunca mais. Não estou nem falando que vou usar novamente, né? Cara, eu posso ter uma recaída, mas eu nunca mais quero passar por isso”, disse.