<
>

Promessa de Dudu, sonho realizado aos 85 anos e as lembranças de um palmeirense no último jogo com torcida em um estádio

play
O dia que um torcedor 'oitentão' do Palmeiras realizou o sonho de infância e ainda foi surpreendido por Dudu (7:15)

Há um ano, na última vez que o Palmeiras jogou diante da torcida, um veterano realizou o sonho de ver o clube de coração de perto. O que ele não podia imaginar é que Dudu faria um promessa especial! (7:15)

Já faz mais de um ano que 13.761 pessoas viram a Inter de Limeira x Palmeiras, no Limeirão. Foi em 14 de março de 2020, dia especial não apenas por ser a última vez de torcedores de ambos os clubes no estádio, mas porque um senhor de 85 anos realizou o sonho de uma vida.

Oswaldo Veríssimo da Silva é o nome dele. Natural da cidade do interior paulista, ele é um fanático palmeirense que poucas vezes na vida viu o clube de coração dentro de um campo de futebol.

“Uma vez foi uma decepção. O Palmeiras foi campeão do mundo em 1951 e aí uma rodada para frente tinha um jogo em Campinas contra a Ponte Preta. Meu pai me levou, e eu me lembro que colocaram a taça do mundial no campo, mas o time perdeu por 3 a 1”, relembrou.

“A outra foi em 1960, na primeira vez que eu fui ao Pacaembu. Pelé fez 1 a 0, mas Julinho Botelho empatou quando faltava um minuto pro intervalo. Depois, no segundo tempo, o Romeiro bateu uma falta e virou. Aí foi só festa”, disse, recordando a decisão estadual de 1959.

No entanto, a vida não deu outras oportunidades para esse veterano ver o time de coração em um estádio. Nem mesmo quando Palmeiras e Inter de Limeira decidiram o Paulistão de 1986, no Morumbi --na primeira vez que a taça foi para o interior do estado.

“O jogo foi um dia antes do meu aniversário, em 3 de setembro. Não tinha ninguém pra me levar ou me acompanhar. Acabei ficando com a família e vi pela televisão”, disse, escapando, pelo menos, de ver o clube amargar mais um ano na fila de títulos.

Desejando realizar o sonho de vida, isto é, rever o Palmeiras novamente em um estádio, seu Oswaldo ficou animado ano passado quando a tabela do Estadual foi divulgada pela Federação Paulista de Futebol.

Primeiro porque a Inter de Limeira estava de volta à elite do campeonato após 14 anos de ausência. Segundo porque ficou agendado para Limeira, em 14 de março, o tão sonhado encontro com o Palmeiras.

Mal sabia ele as emoções que o aguardavam.

Encontro com o ídolo

Nossa reportagem soube da história de amor puro entre Oswaldo Veríssimo da Silva e o Palmeiras. Assim, foi encontrá-lo no local onde ele trabalha há quase 30 anos para contar essa história e ajudá-lo a realizar o sonho.

Funcionário mais antigo da Organização Einstein de Ensino, o veterano é muito querido pela garotada e pelos funcionários. Ele geralmente trabalha na portaria e auxiliando os professores. Lá, todos sabem que só não devem brincar com um assunto.

Seu Oswaldo se irrita facilmente quando os rivais diminuem o valor da Copa Rio ou quando o Palmeiras perde algum clássico estadual, especialmente para o Corinthians --a quem seu Oswaldo se refere como "eles".

“Já teve um histórico na escola, com ele chamado várias vezes à diretoria para se acalmar. A gente dizia: ‘Você está trabalhando, não debatendo futebol’”, disse Sérgio Becker, diretor da instituição, aos risos.

Foi durante nosso encontro que soubemos o tamanho do amor. História que começou graças a um dos goleiros mais famosos do clube.

“Era coisa de garoto, né? Quando a gente ia jogar bola na rua, nas nossas brincadeiras, um falava ‘Eu sou Lima’, ‘Eu sou Jorge’. Então, eu falei ‘Eu vou ser Oberdan’. Por causa dele ganhei muita simpatia pelo Palmeiras”, disse.

play
0:27

Jogadores do Palmeiras são recebidos com show de fogos na Academia de Futebol, e Felipe Melo leva taça da Libertadores para torcida

Verdão bateu o Santos por 1 a 0 no Maracanã e conquistou o bicampeonato continental

Na lista de ídolos, também estão Ademir da Guia, símbolo da Academia de Futebol e de um dos períodos mais vitoriosos do Palmeiras, e Dudu, que até ano passado era o grande craque do time (ele saiu em junho para o Al-Duhail, do Catar).

Até o encontro com a nossa reportagem, seu Oswaldo não tinha pendente apenas o sonho de ir ao estádio, algo que o ajudamos a realizar, como também jamais havia estado diante de um ídolo. Então, fizemos uma surpresa para marcar aquele momento.

Levamos o veterano torcedor ao hotel onde a delegação palmeirense se hospedou na véspera da partida, em Limeira. Lá, sem seu Oswaldo saber, combinamos um encontro especial com Dudu. O então camisa 10 alviverde aceitou o convite e foi extramente gentil com o fã.

“Falei para os meus amigos que eu desejava uma foto com você”, disse, acanhado.

“Quer tirar uma foto agora?”, respondeu Dudu.

“Dudu leva o time nas costas. E uma injustiça é que o nosso amigo Tite não te leva pra seleção brasileira, caramba”, disse o veterano, um tanto sem jeito.

“Ah, mas isso vai chegar a hora, se Deus quiser. O importante é a gente estar bem no Palmeiras. Vamos trabalhar que uma hora chega”, respondeu Dudu.

“Eu admiro demais você. Todo são bons, é claro, mas em primeiro lugar está você”, completou.

“Obrigado pelo carinho, seu Oswaldo”, disse Dudu (veja no topo vídeo do encontro).

O jogo e a promessa

Em 14 de março de 2020, apesar de pouco mais de um ano atrás, o Palmeiras estava bem diferente da equipe que acabou conquistado o Campeonato Paulista, a Conmebol Libertadores e a Copa do Brasil ao final daquela temporada.

Naquele momento, o time dependia muito de Dudu e estava com dificuldade de emplacar boas atuações, embora dividisse a melhor campanha do Estadual com o Santo André.

O técnico Vanderlei Luxemburgo era contestado e já apresentava sinais de desgaste, algo que acabaria resultando em sua saída em outubro para a vinda do português Abel Ferreira.

De qualquer forma, seu Oswaldo conseguiu se emocionar no encontro com a Inter de Limeira. Ele teve até que disfarçar o lado palmeirense, uma vez que sentou no mesmo local da torcida do clube mandante.

Ainda assim foi ao estádio com uma camisa alviverde e o rádio de pilha, além da companhia do genro, Marcelo.

"Eu dou nota dez para essa experiência que eu tive. [Mesmo com um zero a zero?] Sim, foi um jogo emocionante, é diferente você estar no campo, ouvir a torcida, ver os caras. Melhor do que ver pela televisão", disse o veterano.

A partida terminou já à noite. Dudu foi substituído no segundo tempo e não saiu muito satisfeito. Entrou diretamente no ônibus da delegação, sem qualquer contato com jornalistas e torcedores. Ninguém podia imaginar que aquele era o último jogo dele pelo Palmeiras.

Aliás, ninguém imaginava o que estava por vir. Depois daquela rodada (que terminou na segunda-feira, dia 16) o futebol no Estado teve de parar por quatro meses por causa da pandemia do novo coronavírus. O número de mortes no Brasil progrediu rapidamente e deixou o país assustado. Milhares de pessoas sofreram com a perda de parentes e amigos, além da perda de empregos e oportunidades.

Seu Oswaldo, que também foi impactado pela COVID-19, perdendo inclusive uma professora de quem era muito amigo, se resguardou. Ele ja tomou as duas doses da vacina contra a COVID-19, mas desde nosso último encontro em 14 de março estava inquieto.

Apesar da alegria por realizar o que chamou de um “sonho de garoto”, ele ficou esperando algo. Afinal, no encontro com Dudu, o craque prometeu que entregaria uma camisa ao veterano após o jogo em Limeira. Isso não ocorreu.

A família do torcedor revelou que desde então ele não tem dormido direito pensando na reportagem que gravamos e também na camisa de Dudu, agora no Catar. Embora a reportagem tenha sido gravada ano passado, a quarentena também fez com que todo o material ficasse guardado na redação, esperando o momento certo de ser exibido ao veterano e ao público.

Com a aproximação de um novo encontro Inter de Limeira x Palmeiras, previsto para maio, no Allianz Parque, decidimos atualizar a história. Primeiro, era preciso saber como o veterano andav. Depois fomos ouvir Dudu sobre a promessa.

“E aí seu Oswaldo, tudo bem? Eu não esqueci da camisa. O que prometi e vou cumprir para o senhor. Quando eu voltar ao Palmeiras, se Deus quiser, a gente vai se encontrar mais uma vez e eu vou te entregar a camisa pessoalmente. Um abraço, e se cuide!”, disse.

E nós estaremos lá para conferir mais esse sonho a ser realizado na vida desse fanático palmeirense, agora aos 86 anos.

Após tantos encontros, só podemos dar um viva o amor puro do torcedor e desejar vida longa ao seu Oswaldo!