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Na pandemia, Cafu entrega marmitas na rua e se une a jornalista em leilão beneficente com relíquias do esporte

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Marmita e leilão: como Cafu vem ajudando quem sofre os efeitos da pandemia do novo coronavírus

Capitão do penta distribui comida às pessoas na rua uma vez por semana e participa de leilão beneficente com itens raros do esporte ao lado de jornalismo

Todas as quartas-feiras, Cafu, 50, confere a previsão do tempo e vibra quando a indicação é que não vai chover à noite nem de madrugada. Então, se reúne com um grupo de amigos e juntos prepararam refeições, colocam em marmitas e saem pelas ruas para distribuir.

A ação foi batizada pelo capitão do quinto título mundial do Brasil como “Impacto da Madrugada” e já ocorre há um ano em Osasco, na Região Metropolitana de São Paulo, em meio à pandemia do novo coronavírus, ajudando a população em situação de rua.

“É um grupo de 20 pessoas, que faz a comida e prepara a marmita. Depois saímos para entregar no Mercadão. Se tiver poucas pessoas, distribuímos nas instituições ao redor e no Ceagesp [em São Paulo]. Jamais voltamos sem entregar todas”, disse Cafu à reportagem.

“Eu vou junto, entrego, bato papo. Nós também comemos, pois a Bíblia diz que você não pode oferecer ao outro aquilo que você não pode comer. Já estamos há um ano falando com as pessoas, orando, entregando marmita, cobertor, água. Ninguém do nosso grupo pegou COVID-19. Graças a Deus. E vamos continuar com essa ação, ajudando quem está na rua”, acrescentou.

Até hoje, algumas pessoas ficam realmente surpresas ao ver que o ex-jogador de São Paulo, Palmeiras, Roma, Milan, entre outros, é quem está diante delas fazendo a ação social, separando os talheres de plástico, distribuindo as marmitas. Sem qualquer vaidade.

“No começo foi muito engraçado. De máscara, ninguém nem imaginava, nem sonhava quem estava ali diante delas. Muitas pessoas me encaravam e falavam assim ‘Você é o Cafu, né?’. Hoje, o papo rola mais solto”, disse.

A ação é vista por alguns amigos dele como uma forma de a missão da Fundação Cafu continuar. Ela funcionou por quase 16 anos e atendia 950 crianças e adolescentes no Jardim Irene, na Zona Sul de São Paulo, mas fechou as portas em 2019 após uma forte crise financeira.

“Ela era 100% beneficente, com foco na inclusão social. Dar para as crianças da região o direito da inclusão pela igualdade por meio de cursos profissionalizantes, reforço escolar, esporte e cultura. Mas é difícil conseguir apoio. Eu banquei a Fundação durante 15 anos enquanto eu jogava futebol. Depois que parei, eu precisava de parceiros e amigos para dar continuidade”, disse.

“É muito difícil manter os funcionários e pagar os tributos. E você é muito taxado mesmo com uma fundação sem fins lucrativos. O governo também tem uma burocracia enorme. Cada projeto demorava até seis meses para ser aprovado. Então, fechamos as portas”, completou.

Olé no Corona

A atuação social fez com que Cafu encontrasse por meio de uma ideia do jornalista Ricardo Setyon, 57, uma forma de ajudar também quem vem sofrendo as consequências da pandemia do novo coronavírus. O Brasil já ultrapassa 287 mil mortes.

Em março do ano passado, ao ver ações feitas por esportistas como Zlatan Ibrahimovic, que doou parte do salário no Milan para a causa na Itália, o jornalista idealizou um leilão virtual com itens do futebol brasileiro que destinasse parte da arrecadação para o mesmo fim.

“Foram três dias de brainstorming com o Cafu. E eu bolei essa chamada de Olé, palavra que vem das touradas e está consolidada no vocabulário do futebol mundial. Qualquer torcedor entende essa palavra. Aí decidimos batizar como Olé no Corona”, disse Setyon.

Setyon trabalhou na Fifa por quase dez anos e também morou em mais de uma dezena de cidades, conhecendo bem o Oriente Médio, a Europa e parte dos Estados Unidos. Já Cafu teve uma carreira de quase 20 anos como profissional no futebol. Assim, não tiveram dificuldade para conseguir verdadeiras relíquias esportivas, como um pôster autografado do último jogo de Pelé pelo New York Cosmos.

Mas a dupla, especialmente o jornalista, almejava algo que diferenciasse a ideia do que já existe.

“Só o Brasil tem cinco capitães campeões mundiais. Pensei, 'Vamos reuni-los!' Só que temos três mortes. E aí foi uma luta para ir atrás das famílias de Bellini [1958], Mauro Ramos [1962] e Carlos Alberto Torres [1970]. O Dunga [1994] topou na hora. E o Cafu, representante da conquista de 2002, já estava no projeto desde o início. Nunca alguém reuniu todos os capitães do Brasil”, disse o jornalista.

“Eu doei a camisa do dia em que completei cem jogos pela seleção brasileira, algo que não é fácil. Também doei uma chuteira comemorativa que a Adidas fez para mim na seleção brasileira”, disse o Cafu, que também entregou para o leilão a bola do primeiro jogo profissional dele.

Assim, a objetos dos cinco citados, como um relógio de ouro entregue a Bellini pelo título mundial de 1958, mas não só deles. A lista de doadores é composta por nomes como Pelé, Zico, Neymar, Formiga, Sissi, Paulo Roberto Falcão, Raí, Alex, entre outros.

Um dos nomes que mais colaborou com o Olé no Corona e que é saudado por Setyon é José Macia, o Pepe, ponta-esquerda do Brasil nos Mundiais de 1958 e 1962 e nome histórico no Santos de Pelé. Ele doou 11 objetos.

Com mais de 250 mil itens para leiloar, o Olé no Corona trabalha com uma plataforma digital para os leilões por meio do próprio site oficial (olenocorona.com). Por enquanto, foram realizadas duas edições porque a dupla busca mais visibilidade.

A iniciativa também acabou refletindo em outras ações, como a entrega de máscaras de proteção para população em situação de rua no centro e centro expandido de São Paulo durante a pandemia. Algo que foi possível graças ao patrocínio da italiana Kappa.

Sobre o leilão virtual, para quem questiona a lisura e o destino do dinheiro, Setyon afirmou que tudo é feito seguindo o padrão internacional de leilões, com tecnologia de proteção de dados e também transparência com os valores obtidos.

“Trabalhamos com o Instituto Brilhante, que pertence a jornalista Mariah de Morais. Por meio dela trouxemos a Federação Paulista de Futebol para ter uma chancela oficial e escolhemos cinco ONGs para ajudar por enquanto. O valor arrecadado passará pelo Instituto Brilhante para ser auditado. Então, não há como ele desaparecer. Depois ele vai ser direcionado para as ONGs”.

Se Setyon desejava um diferencial para ajudar quem sofre com o novo coronavírus no país, Cafu desejava algo que fosse duradouro. Assim, ambos asseguram que o Olé no Corona é uma ação que continuará a existir quando a COVID-19 não for mais o problema.

“Hoje é Olé no Corona, mas em algum momento a pandemia vai ser controlada, vai acabar. Aí podemos mudar para olé na fome, na violência, no racismo. Há muitos temas que precisamos olhar e sempre há muitas pessoas que precisam de ajuda”, disse Setyon.

“Nós fizemos algo que vai continuar a ajudar as pessoas como já vem ajudando. Esse foi o foco da nossa conversa, desde o início, ou seja, fazer um trabalho que tive duração e acabou dando certo”, acrescentou Cafu.