Há alguns meses, a CBF iniciou um minucioso trabalho de pesquisa para descobrir quantas vezes Miraildes Maciel Mota, a Formiga, 43, entrou em campo pela seleção brasileira.
Todos sabem que, entre homens e mulheres, ela é a recordista em jogos com a amarelinha, além de ter disputado todas as edições do torneio feminino olímpico e sete das oito Copas do Mundo. Mas é provável que ela tenha mais do que as 200 partidas conhecidas.
Ter certeza sobre o número é apenas uma das formas de ser justo com a história que a meio-campista construiu. História que continua a ser prolongada nos gramados e já tem novos rumos definidos.
Há quatro anos no Paris Saint-Germain, ela tem contrato até o final de maio deste ano e a despedida pode coincidir com o primeiro título francês da equipe, que no universo feminino conta com incríveis oito vices (três deles nas últimas três temporadas).
Hoje, a nove rodadas do fim, o time lidera com 43 pontos contra 42 do Lyon, o segundo colocado. As equipes jogariam no sábado, 13 de março, no estádio Groupama, em Lyon, mas o compromisso foi adiado.
Imaginando estar realmente a pouco mais de dois meses do fim desse casamento, Formiga tem certeza de uma coisa: não quer parar. Pelo contrário, já planejou a sequência da carreira dentro dos campos.
“Pretendo continuar jogando até o final deste ano. Quem sabe até o ano que vem. Não aqui, mas talvez retornar ao Brasil e encerrar a minha carreira. Acho que seria uma coisa bacana. Não sei em qual clube. Comecei no São Paulo, ganhamos vários e vários títulos”.
No início dos anos 1990, ela deixou Salvador, onde nasceu e jogou até futsal, e veio para São Paulo. Ingressou no time do Morumbi e fez história. Foram dois títulos estaduais e um nacional. Depois, defendeu Portuguesa, Santos, Saad, São José, entre outros.
A imagem que construiu a torna uma figura simpática entre todas as torcidas, além de ser vitoriosa e ostentar ótima forma aos 43 anos.
Ciente disso, ela foca também a Olimpíada de Tóquio, o que inclusive a fez repensar a aposentadoria na seleção. Claro que tudo dependerá da pandemia de COVID-19 (que pode mais uma vez adiar os Jogos) e também ser convocada pela sueca Pia Sundhage.
“Me aposentei da seleção em 2016. O [técnico] Vadão me mandava mensagem quase todos os dias, me ligava, dizia que eu tinha muita lenha para queimar. O PSG também me incentivou bastante para que eu voltasse à seleção. Foi assim entre amigos e família. Eu pensei bem e voltei, e claro que o meu desejo é jogar minha última Olimpíada. E quero ganhar. Deixamos escapar duas vezes. Estou me preparando bem para isso. Não digo a você que estarei na próxima Copa do Mundo. Como jogadora não, mas quem sabe na comissão, ajudando de alguma forma. E na Olimpíada que vem [em Paris], quem sabe, estar na comissão”, disse.
“Depois, meu próximo passo é fazer o curso da CBF. Eu desejo ser treinadora. Até lá já ir trabalhando, seja na base ou no principal, para ajudar o futebol feminino no Brasil. Longe do futebol eu não tenho como ficar. Se eu me afastar, devo ficar louca”, brincou.
Planos coerentes para quem viu em quase 30 anos de prática a modalidade ser desacreditada, quase deixar de existir e há alguns viver a consolidação. Mas, como ela lembra, o preconceito com as mulheres que gostam e querem jogar futebol não deixou de existir.
“A coisa mais difícil que eu ouvi, que tive de engolir a seco, é que não ia dar para o que prestasse eu ficar no meio dos meninos jogando. Diziam que logo menos ia estar 'de barriga' ou roubando, que aquilo não ia ter futuro. É difícil, né? Até porque ser negra, ser nordestina, já vem esse preconceito aí. Foi uma coisa que me machucou bastante, me deixou super triste. Mas, ao mesmo tempo, foi o combustível. Isso me ajudou a enfrentar muitas dificuldades. Me deu aquele impulso de falar assim ‘Você vai conseguir’”, disse.
Formiga era a única mulher no meio de quatro irmãos no subúrbio de Salvador. Superou a resistência familiar para fazer o que gosta. Hoje, ostenta títulos como um Mundial de Clubes, três taças da Copa Libertadores, três ouros em Jogos Pan-Americanos e duas medalhas de prata em Jogos Olímpicos, além de um título Sul-Americano e um vice na Copa do Mundo.
“Hoje, a aceitação da família é muito grande. Não vou dizer que é 100%. Quando eu comecei, sofri bastante para chegar onde estou hoje. Tive de passar por muita dificuldade. Tive de superar bastante coisa. Eu pulei todas as bases. As meninas de hoje têm de aproveitar esse momento, dar continuidade ao trabalho daquelas que sofreram bastante para hoje elas terem essa oportunidade de trabalhar, de chegar na seleção ou até chegar a idade onde eu cheguei sem ter esse trabalho de base. Acredito que, com esse trabalho, esse reconhecimento pode chegar a todas as famílias do Brasil e que os pais aceitem. Eu não digo mãe, digo o pai mesmo. A figura homem. Porque a dificuldade maior vem da aceitação do pai. Frase como: ‘Minha filha não vai jogar bola, isso é coisa de homem’. Isso está se quebrando aos poucos e espero que chegue a 100%.”, finalizou.
