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Libertadores: Pará passou fome, foi pedreiro e morou até em guarita antes de ser finalista com Santos

Único titular remanescente da última conquista da Libertadores pelo Santos, Pará é um símbolo de superação da equipe que busca o quarto título da competição.

O FOX Sports transmite ao vivo a final da Conmebol Libertadores, entre Palmeiras e Santos, no próximo sábado, 30 de janeiro, a partir das 17h (horário de Brasília). A decisão também terá acompanhamento em tempo real do ESPN.com.br, com VÍDEOS de lances e gols. E quando a bola parar, a melhor cobertura pós-jogo será na ESPN Brasil e no ESPN App, com entrevistas, festa do título e muita análise e opinião em SportsCenter e Linha de Passe, entre 19h e 0h.

Nascido na cidade de São João do Araguaia, no Pará, a 725km de Belém, o lateral contou à ESPN em 2016 que trabalhou como servente de pedreiro do próprio pai na construção civil.

"Batia laje, subia telha pra lá, telha pra cá... Era pesado o serviço, foi sofrido (risos)", disse.

"Nessa época, eu treinava numa escolinha, mas não levava o futebol a sério, porque na cidade não tinha opção nenhuma. Eu estudava e trabalhava, mas me destacava quando ia lá jogar, umas duas vezes por semana, quando dava pra conciliar com o serviço", lembra.

Tudo começou a mudar quando olheiros viram talento em Pará e foram pedir a seus pais para levar o garoto a São Paulo, onde faria testes para tentar virar profissional. E assim o adolescente embarcou para a terra desconhecida, em busca de uma grande oportunidade.

"Viajei para fazer uma avaliação no São Paulo, mas não deu certo. E a partir daí só deu problema, porque o rapaz que me trouxe me largou em São Paulo sozinho. Eu, com 13 anos, perdido na cidade grande, sem saber o que fazer...", relata.

Pará conheceu a fome, mas não iria desistir do futebol tão fácil.

"Eu fiquei numa pensão que custava R$ 56 por semana, mas não tinha nem como pagar isso. Não tinha nada pra comer, e passei muita necessidade nesses tempos. Passei fome. Ao mesmo tempo, meus pais me ligavam do Pará e perguntavam como eu estava, e eu respondia: 'Tá tudo bem, tudo sob controle'. Do outro lado, minha barriga roncava (risos). Eu não queria assustá-los, então ficava só enrolando", conta.

Depois de ficar abandonado na capital paulista, sem ter nem ideia do que fazer, o garoto faminto foi socorrido por um amigo, que o levou para o pequeno Barcelona Esportivo Capela, time da zona sul de São Paulo onde Diego Costa, hoje no Chelsea e na seleção espanhola, começou a carreira.

Foi lá que as coisas começaram a dar certo, mas não antes sem mais apertos.

Morando na guarita

"Chegamos no Barcelona e esse amigo explicou minha situação. Falou que eu não conhecia nada em São Paulo, que sonhava em jogar bola e não podia ficar parado na pensão, ainda mais sem dinheiro. Pediu pra eu ficar treinando por lá, e o presidente deixou, pedindo pra eu voltar no dia seguinte pra fazer um teste. Fui treinar e ele ainda me deu o dinheiro pra eu quitar o que estava devendo na pensão", rememora.

Como não tinha muita estrutura, e o garoto se virou como pôde.

"Eles me colocaram pra jogar, mas não tinha alojamento nem nada. O presidente sugeriu: 'Está vendo aquela guarita ali? É onde o guarda fica. De noite, ele vai fazer a ronda e você dorme na guarita, pode ser. Aí durante o dia vocês invertem'. Eu topei e assim a gente ficou (risos)", relata.

"Fiquei um mês e meio, quase dois meses, desse jeito. Era ruim, viu... Eu tinha que dormir sentado, porque não tinha nem como esticar as pernas se deitasse. Sorte que depois o presidente comprou um sofá cama e aí melhorou (risos). Pelo menos dava pra esticar as pernas e descansar melhor", completa.

"Levo isso pro resto da minha vida, e aprendi muito com esse pessoal. Eu agradeço demais sempre tudo o que eles fizeram por mim. Sempre que posso, vou lá dar uma assistência e uma moral, pois foi onde tudo começou", revela.

Um ano se passou com Pará treinando no Barcelona e nada de uma grande chance aparecer. Descrente, pensou em voltar à sua terra natal e largar a bola.

"Cheguei para o presidente e falei: 'Acho que não vou dar em nada, mesmo... Preciso voltar pra minha casa, estou com saudades dos meus pais. O senhor me dá o dinheiro da passagem?'. Eu ia desistir mesmo, foi pouco muito pouco. Aí ele me falou: 'Espera mais 10 dias, porque eu vou organizar um quadrangular aqui entre a gente, o Santo André, o Taboão e a Portuguesa'. Eu topei, e parece que foi coisa de Deus", recorda.

A partir daí, ele embalou de vez, e até de maneira cômica.

"O primeiro jogo foi Barcelona contra Santo André, vencemos por 1 a 0 e eu fui bem jogando de volante. Nosso treinador chegou pro presidente do Santo André e jogou a ideia: 'E aí, o que achou do Pará?'. Ele respondeu: 'Excelente jogador, mas na função dele já temos vários, e que estão aqui há mais tempo. O que eu estou precisando mesmo é de um lateral direito...'. Aí o treinador manda essa, sem nem falar comigo: 'Então você precisa ver esse rapaz jogando de lateral!' (risos)", gargalha.

"O presidente do Santo André não acreditou no começo, perguntou se era sério, e o técnico continuou: 'É um baita lateral, joga na esquerda e na direita, hoje só estava quebrando um galho de volante'. E eu nunca tinha jogado de lateral na vida (risos)", diverte-se.

Com tantas boas recomendações, Pará foi chamado para disputar um jogo-treino no dia seguinte pelo Santo André. A pressão era grande, e o frio na barriga também.

"Peguei minha malinha e fui pro 'Ramalhão', pois tinha amistoso contra o Paulista, lá em Jundiaí. O técnico do Santo André me colocou de lateral e falou: 'Moleque, se você for bom, a gente fica contigo. Caso contrário, vai embora e procura outro time'. Eu só falei: 'Tudo bem...'" , conta.

Mas o destino queria mesmo que ele vingasse.

"Rapaz, eu comi a bola nesse jogo, corri que nem um louco. Atrás não passou nada, e, quando fui pro ataque, dei três cruzamentos na cabeça do centroavante, o moleque meteu as três pra dentro e ganhamos de 3 a 0. Com 15 do segundo tempo, o treinador me substituiu e falou pra eu ir direto assinar o contrato (risos)", relata.

"Hoje eu dou risada, mas na hora me emocionei demais. Assim que pude, peguei o telefone e liguei pra eles pra contar tudo, eles choraram, eu chorei, choramos todos juntos (risos). Foi o pontapé inicial de tudo pra mim, em 2003", acrescenta.

O amor por Santo André

Inicialmente colocado na equipe de juniores do "Ramalhão", ele foi promovido aos profissionais em 2004.

No ano seguinte, com o técnico Sérgio Soares, virou titular e estourou durante a boa participação do Santo André na Série B.

"Pará sempre foi super dedicado, corajoso e já demonstrava essa personalidade. Quando ele subiu teve uma lesão no tornozelo e voltou. Ele tinha qualidade e o coloquei no meio-campo e se desenvolvia muito bem", disse Soares.

"Ele é muito determinado e com muita vontade de aprender. Isso me chamou muita atenção em um garoto. Tinhamuita vintade de vencer", disse o treinador.

Destacou-se principalmente pela polivalência, atuando em várias posições e já chamando a atenção de diversos clubes grandes.

"No 'Ramalhão', só não joguei de goleiro! Fui lateral esquerdo, direito, volante e até camisa 10. O Marcelinho Carioca me elogiava bastante, e até fui quem dei o passe pro gol de número 500 da carreira dele, contra o Avaí, na Ressacada", cita, com memória afiada.

Ídolo no Santo André, o jogador tem muito carinho pelo clube e pela cidade.

"A primeira coisa que faço quando chego em Santo André é ir na barraquinha de cachorro quente na frente do estádio. Os donos foram como pais pra mim. Eu morava debaixo da arquibancada do estádio, e todos os garotos iam visitar a família nos finais de semana, mas eu não podia, porque não tinha condição de ir pro Pará. Eu ficava quase sempre sozinho, e os donos da barraquinha me levavam na casa deles, na Vila Luzita, como se fosse da família", emociona-se.

"Eles me davam almoço e me falavam: 'Fica à vontade, filho'. Se eu estiver em Santo André, pode me encontrar lá, que eu sempre vou visitar. Não tem como esquecer esse pessoal, que me abraçou desde o início. Se hoje eu virei alguma coisa na vida, é por causa dessa turma", decreta.

Em 2008, transferiu-se para o Santos, time pelo qual seria duas vezes campeão do Paulista, uma da Copa do Brasil e uma da Libertadores, ao lado de Neymar, Ganso e outros. Jogaria ainda no Grêmio por dois anos antes de ir para o Flamengo. Ano passado, ele retornou à Vila Belmiro para tentar fazer história novamente.

"Eu agradeço muito a Deus, à minha família e a todos esses amigos que eu fui fazendo por estarem do meu lado nas horas boas e nas ruins. Sou devoto de Nossa Senhora Aparecida e a única coisa que peço é que nada de ruim aconteça comigo, com meus colegas e meus adversários. Eu lembro sempre de tudo o que passei, e é por isso que procuro dar meu máximo em todo treino e todo jogo", ressalta.