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Eleição no Corinthians: Gobbi explica 'time de m...', ataca deficit de R$ 1 bilhão e fala em 'corrigir' gestão temerária de Andrés-Duílio

Aos 59 anos, o delegado Mario Gobbi voltou atrás na decisão tomada há cinco anos de se afastar do Corinthians e é candidato à presidência, em eleição marcada para o próximo sábado (28).

Presidente nos anos das conquistas da Copa Libertadores, do Mundial de Clubes e da Recopa Sul-Americana, ele diz que vem para corrigir a “gestão temerária” de Andrés Sanchez e Duílio Monteiro Alves, diretor de futebol que se afastou para concorrer ao pleito.

Ao apresentar as propostas da chapa "Reconstrução", atacou a montagem do elenco, apontou dívida de R$ 1 bilhão para saldar e chamou Duílio de “aprendiz”. Mas também foi questionado sobre o mal estar interno que causou usar “time de merda” em uma live.

Em entrevista para esta série da ESPN Brasil sobre a eleição do Corinthians, Duílio afirmou entender que Gobbi terá dificuldade de encarar o elenco após ter dito aquilo, isto se o ex-presidente for eleito para a presidência.

“Eu não me referi ao grupo atual. Isso é uma maldade o que o Duílio e o Andrés estão fazendo com a minha pessoa”, disse para a ESPN. “Eu quis dizer que se o dirigente escolhe os jogadores, o grupo de jogadores e se ele escala time, o time sai uma merda”.

A eleição presidencial terá votação restrita para os sócios do clube e ocorrerá no próximo sábado, no ginásio do Parque São Jorge, das 9h às 17h (de Brasília). Quem vencer assume em janeiro.

Veja a entrevista com Mario Gobbi

PILARES DA GESTÃO
O Corinthians precisa de um modelo novo de gestão alicerçado em profissionais altamente capacitados do mercado e apolítico. Isto vai nos levar a sanear as finanças e dar uma gestão saudável financeiramente para alcançar duas metas. A primeira é fazer o Corinthians o protagonista permanente do futebol mundial. A segunda é dar ao associado qualidade de lazer por excelência.

PROPOSTA PARA O FUTEBOL
A gestão do Duílio no futebol foi temerária. Não se contrata 94 atletas. Não se troca tanto de técnico. Houve um grande erro de planejamento, se é que planejamento o Duílio fez. Houve erro de execução. Denota-se que as contratações que foram feitas não foram solicitações da comissão técnica. Foram feitas a critério da diretoria. Começa por aí os erros de uma gestão equivocada, falha e pífia. E o Duílio insiste em dizer que ele entende de futebol. A gestão não foi boa. Quem vencer as eleições vai ter de administrar um elenco com muitos jogadores. Todos têm contratos, alguns longos. Vamos colocar uma equipe de profissionais para comandar o departamento de futebol. No momento, o Corinthians está numa disputa ferrenha no Brasileiro. Não é o momento adequado para falar [de mudanças no comando] do futebol do clube.

COMO SERÁ O TIME
O problema gigante e prioritário se chama ausência de gestão. Isso gerou deficit de R$ 1 bilhão no clube, que gerou o reflexo nas quatro linhas. Você tem duas formas de atacar o problema. Uma é cuidar só dos efeitos, ou seja, você monta um timaço e vai atrás de títulos e o clube segue sagrando até se decretar uma falência. Como o Corinthians não tem nada de caixa, não há dinheiro para se pagar absolutamente nada, nós já fomos ao mercado saber o oxigênio para se pagar os primeiros seis meses de salário. E o mercado, leia-se instituições financeiras e empresariado, nos pediram: uma auditoria com uma das quatro maiores empresas do mundo; um departamento de compliance; e todos os contratos em vigor de crédito. Veja a gravidade do problema financeiro. Não confunda o clube (Corinthians deve R$ 1 bilhão) com a Arena. Então, por mais que eu queria chegar lá e sair gastando, eu não consigo porque não teremos crédito para isso. Qual é a fórmula possível? Montar um time com as tradições e glórias do Corinthians, sangue nos olhos. Um time pegador, altamente competitivo, que honre nossa história e nossa vida e, com o passar do tempo, põe-se qualidade técnica. Como fizemos em 2008.

RISCO-CRUZEIRO E RECEITAS COM ARENA E FIEL TORCEDOR
Não creio que o Corinthians vai chegar onde o Cruzeiro chegou. Agora não é por isso que eu vou sair gastando. O momento é ou ele para agora, arruma o modelo de gestão novo e saneia suas finanças ou não sei onde vai parar. A receita caiu para todo mundo. O poder aquisitivo do torcedor caiu. Eu não sei se houve adiantamento de receitas. Quando eu passei na presidência isso era useiro e vezeiro em prática no clube. O fato é que o dinheiro dos contratos nós já sabemos quanto é porque os contratos estão firmados e não posso renegociar. Então, o Corinthians precisa de dinheiro novo. O marketing é que vai trazer o dinheiro novo. As ações? Primeiro, a reconstrução da sua marca e da sua credibilidade. Segundo, trabalhar em cima de captação de receitas. Terceiro, uma gestão disruptiva e com compliance. Então vamos lá: captação de receitas. Novos patrocinadores, explorar as áreas da NeoQuímica Arena e reformular projetos importantes, como o Fiel Torcedor, a redes de lojas, os licenciamentos, a produção de conteúdo e a monetização dos canais digitais. Quero falar um pouco do Fiel Torcedor. O programa deu ao Corinthians em 2019 R$ 14 milhões. O Flamengo recebeu R$ 61 milhões, e o Grêmio, R$ 85 milhões. Como que o Corinthians com 30 milhões de torcedores no Estado mais rico da federação não chega pelo menos ao número do Flamengo.

IGUALAR OU SUPERAR O FLAMENGO
A primeira pessoa com quem eu conversei foi o [Eduardo] Bandeira. Ele sofreu muito no Flamengo e injustamente. Hoje, a torcida tinha de ir na casa do Bandeira e homenageá-lo. Mas ninguém faz isso no futebol. Eu digo ao torcedor corintiano: Tenha paciência, o momento é de arrumar a casa e depois vamos passar para a linha de frente. Se não arrumar a casa não vai colher frutos lá permanentemente. Vai voltar a cada dois anos monta um time bom, ganha títulos e depois desmonta, vende tudo e nem paga as dívidas que aquele time que venceu deixou. Precisamos parar de viver com migalhas. Precisamos disputar títulos todos os anos, com uma saúde financeira boa e seguir a nossa vida.

USO DA BILHETERIA
Eu tenho uma informação extraoficial de que caminha um acerto entre Corinthians e Caixa e Corinthians e Odebrecht para um acordo. Mas já falaram tanto isso que, eu torço para que aconteça para o bem do Corinthians, e que a gente possa ter uma boa parte da receita dos jogos para o clube. Mas vamos ver primeiro isso concretizado. Falar antes… vamos esperar sair.

Nota da redação: a entrevista foi gravada em 20 de novembro. Em 27 de novembro, o Corinthians encaminhou acordo com a Caixa Econômica Federal para o pagamento da Arena. O valor reconhecido da dívida é de R$ 569 milhões, que a partir de agora terá as parcelas anuais e não mais mensais, começando em 2022 até 2040. Assim, a diretoria poderá usar a receita de bilheteria.

“TIME DE MERDA"
Eu não me referi ao grupo atual, que está em uma luta para sair do sufoco. É uma maldade o que o Duílio e o Andrés estão fazendo com a minha pessoa. O que eu disse foi assim. O Corinthians tem 94 jogadores, eu falei. Aí me perguntaram como eu vou fazer [se eu vencer]. Eu? Eu não vou fazer nada. Quem vai fazer é a equipe técnica. Eu não entendo de futebol para resolver isso. E o Corinthians paga milhões para uma equipe técnica para resolver exatamente isso: quem serve, quem não serve. De 94 jogadores vão ficar 30, 35. Eu nunca trabalhei com mais do que isso aí. Se ele [Duílio] diz [por causa disso] que eu não entendo de futebol, ele entende menos ainda. Porque na minha gestão ganhamos os três maiores títulos do Corinthians. E o Duílio não era diretor e futebol. Era adjunto de futebol e nada mais. Só sabia dizer para os jogadores “sim, pode”. Isso é com ele. Mas para restringir e cortar os limites ele não sabe fazer. No futebol, ele é um aprendiz. Está no berço. Eu quis dizer que se o dirigente escolhe os jogadores, o grupo de jogadores e se ele escala, o time sai uma merda. Foi isso e nada mais. Quem me conhece sabe que eu falo isso desde a primeira vez que o Andrés foi me buscar desesperado para ser o diretor de futebol dele quando caiu para a Série B [em 2007]. E levamos o time ao Mundial [em 2012]. [Questionar como eu vou encarar o elenco] É uma maldade. É desespero de quem está perdendo. Isso é coisa de malandro. Isso, malandragem, eles sabem fazer muito bem. Administrar com seriedade está longe ainda. [Duílio] tem de passar pela universidade e ele não passou. Que os jogadores vão virar a cara pra mim? Olha aqui, eu não sou moleque. Se eu vencer as eleições, eu vou olhar [nos olhos deles]. Tem muitos que já trabalharam comigo lá, sabem quem eu sou e como eu me comporto.

POR QUE VOLTAR?
Eu não pretendia voltar, mas o momento é de uma delicadeza, de uma extremidade de gravidade que eu precisei voltar. Porque para implantar esse modelo de gestão poucas pessoas têm o perfil para fazer isso. Eu fui convocado para fazer isso. Por isso a oposição formou uma frente para me apoiar e fazer o que o Corinthians, que está em estado de necessidade, precisa.

CRÍTICAS QUE VICE VAI MANDAR
Quando eu fui presidente, eu descentralizei a gestão. O Luis Paulo [Rosenberg] ficou com uma parte técnica. Eli [Werbo] ficou com o clube. E eu fiquei com o futebol e as questões institucionais. Eu penso dessa forma e entendo que se você não descentralizar, com pessoas competentes e capazes, você não consegue realizar uma gestão que atinja o maior percentual possível de sucesso. Ezabella é uma pessoa competente, inteligente. E ele tem características que eu sei muito bem aonde aproveitá-lo. É uma gestão apolítica. Os que dizem isso são andresistas. O Andrés tem qualidades enormes, mas ele é o diretor de finanças, futebol, técnico, marketing. Ele é tudo.

POSICIONAMENTO CONTRA RACISMO, HOMOFOBIA E ESTUPRO
Eu sou um humanista. Sou pela cidadania. Sou comprometido com a Constituição, que declara que somos um Estado democrático de direito. A luta do Corinthians sempre foi contra o elitismo e contra o racismo. Após 110 anos é muito triste constatar que ainda lutamos contra o mesmo preconceito. O corintiano é por excelência um humanista. O corintiano é um homem íntegro. Nós repudiamos qualquer discriminação de cor de raça, credo, religião e tantas coisas mais. Nós posicionaremos sempre mediante qualquer caso em concreto contra este tipo abominável de discriminação. O Corinthians é o time do povo. Foi feito pelo povo e para o povo. É o time das massas, da igualdade.