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Presidente da Ponte Preta quer futebol 'exemplar como NBA' e, como Luther King, tem um sonho: 'Que não morra mais um negro a cada 23 minutos no Brasil'

Motivo de paixão e entretenimento para milhões de pessoas, o futebol segue como um reflexo da nossa sociedade e repete problemas corriqueiros de grande parte da população brasileira. Um dos temas mais debatidos nos últimos anos dentro e fora dos gramados, o racismo e a condição da população negra seguem presentes no esporte mais popular do país.

Exemplo fiel desse acesso limitado a oportunidades aparece quando analisamos o futebol de maneira macro, mas, também, quando olhamos para quem toma decisões em cada clube: os cartolas.

Único presidente negro entre os clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, Sebastião Arcanjo, da Ponte Preta, abordou o tema durante entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, detalhando como o racismo se manifesta sob diferentes aspectos neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

Dentre os vários temas debatidos, o dirigente da equipe de Campinas falou sobre o processo de 'embranquecimento' de figuras importantes da sociedade brasileira, a campanha Black Lives Matter, na NBA, e o que espera de melhorias perante ao tema para 2021.

Para a entrevista, Sebastião Arcanjo, popularmente conhecido como Tiãozinho, fez questão de usar uma camiseta simbólica e de relação direta com o tema. Orgulhoso por ter expoentes da causa negra norte-americana como Malcom X, Martin Luther King e o rapper Tupac em sua roupa, o presidente pontepretano vê a falta de políticas públicas e mudanças 'na raiz' da sociedade como um dos grandes entraves para que se busque uma diminuição no abismo social entre brancos e negros no Brasil.

“É necessário que a gente altere profundamente e enfrente os problemas na raiz. Nós estamos tratando de um tema estrutural, reflete também no futebol, mas está em toda sociedade brasileira. Essa é a realidade. Nós somos o retrato do Brasil. O fato de eu ser o único presidente negro de clube nas principais divisões, essa é a fotografia do Brasil.”

“Nomes como o Zé Roberto no Palmeiras, fora das quatro linhas, é uma conquista. É óbvio que lutamos para que deixe de ser uma exceção e se transforme em regras. Para isso, temos que ter políticas públicas e privadas que possibilitem aos atletas de futebol, que queiram pleitear algum cargo de direção, que tenham essa possibilidade. Acho que esse é o desafio para nós combatermos o racismo. Saber como a gente estrutura uma política que permita que as pessoas busquem esses espaços.”

BLACK LIVES MATTER E O SONHO DO FUTEBOL BRASILEIRO 'SER IGUAL' A NBA

Um dos movimentos organizados que mais chamou a atenção não só de Tiãozinho mas como de boa parte das pessoas foi o Black Lives Matter. No dia 25 de maio deste ano, em Minneapolis, nos Estados Unidos, George Floyd, de 46 anos, foi contido pelo policial Derek Chauvin, que pressionou o joelho no pescoço do homem negro, mesmo com Floyd dizendo inúmeras vezes que não conseguia respirar. George foi declarado morto horas depois.

A cena foi filmada e viralizou na internet, causando uma onda de revolta não apenas nas redes sociais, mas com uma leva de protestos em diversas partes do mundo, principalmente nos Estados Unidos.

Nas redes sociais, houve um uso massivo da hashtag Black Lives Matter. De acordo com uma publicação do diário Metro, da Inglaterra, o termo ultrapassou a marca de 10 bilhões de visualizações na rede social Tik Tok. O movimento foi elogiado pelo presidente da Ponte Preta, que também criticou a falta de uma organização e de uma reação semelhante aos casos de assassinatos de negros no Brasil.

"Não há uma solução de curto prazo. Nós pressionamos a partir de casos recentes, como o George Floyd, nos Estados Unidos. Aqui, temos milhares de Georges Floyds que são assassinados diariamente e não temos reações como às que tiveram nos Estados Unidos. Não tivemos atitudes firmes. Lá, houve mudança no esporte e no quadro eleitoral. Houve protestos em todo o mundo. Jovens brancos à frente da polícia para que não houvesse um novo massacre. Isso tudo nos permite pensar em novas estratégias, posições e que a gente consiga colocar o tema do racismo como algo central no esporte, principalmente no futebol.”

"Atletas americanos, como na NBA, suspenderam a competição. Manifestaram uma opinião política. Eu diria que pelo momento histórico e a forma como o racismo se manifesta no país, e a forma como ao longo do tempo eles projetaram lideranças como Malcom X, Martin Luther King, Angela Davies, isso citando apenas alguns, os atletas que se manifestaram nas Olímpiadas na época do Nazismo, fizeram gestos, se posicionaram. Aqui no Brasil nós tivemos o Reinaldo, atacante do Atlético-MG. A gente não entendia bem o que ele queria dizer. Vimos o Paulo César Caju se manifestar nos anos 70, em plena Ditadura Militar. A gente não conseguia entender claramente.”

“Nós temos uma cultura de que no futebol nada é permitido. É permitido apenas jogar futebol. Temos que discutir isso. Porque no futebol brasileiro não podemos discutir política? Nós precisamos entender que as pessoas têm que exercer cidadania, não vivemos em uma Ditadura. O posicionamento dos atletas norte-americanos tem influenciado muitos nomes, até mesmo o Neymar, que se manifestou recentemente sobre racismo. O Lewis Hamilton, que também é um ídolo do Neymar. Quando ele vê uma pessoa assim se manifestando, se inspira. Isso para nós é motivo de orgulho.”

“Acho que vai demorar um pouco ainda para termos atos como os da NBA aqui no Brasil. Aqui a gente se pergunta muito sobre limite. No futebol é até permitido roubar. Pode até fazer um gol de mão e valer. Só não pode voltar atrás. A ética no futebol precisa ser discutida? Até que ponto os fins justificam os meios? Como o futebol pode ajudar a gente a enfrentarmos esses problemas? Eu estou otimista quanto a isso. Apesar de eu ser o único dirigente negro, tem vários outros que estão tomando atitudes, clubes que estão mudando. Nós estamos rompendo algumas barreiras, denunciando racismo, homofobia, como quase todos os clubes se manifestaram. Porque esses temas são tabus? Acho que a gente precisa se manifestar."

IDAS À CBF E PEDIDOS DE NOVAS POLÍTICAS NO COMBATE AO RACISMO

Sebastião Arcanjo deixa claro também que tem procurado a CBF e a Federação Paulista de Futebol para que exista uma política maior de incentivo e campanhas contra o racismo. Porém, para Tiãozinho, o processo é caro, longo e demorado. E que para que exista mudança de fato, será necessário que muitas pessoas estejam abertas a identificar manifestações de viés racista em suas próprias atitudes.

"Diria que está todo mundo aprendendo e ensinando. Conversei com o [Rogério] Caboclo [presidente da CBF], Walter Feldman [secretário-geral da CBF], estive na CBF no primeiro semestre. Entendo que estamos evoluindo com esses temas. A partir do momento que a sociedade tem adesão, vai ser inevitável que as federações tenham pautas mais incisivas a respeito. Vejo que tem sensibilidade. Não posso exigir que todos tenham a mesma velocidade, mas tenho a compreensão que há um movimento de pressão. Têm entidades que demoram mais para tomar uma decisão, mas estamos conseguindo influenciar. O tema do racismo é um tema caro e difícil. Ninguém admite que é racista no Brasil.”

EMBRANQUECIMENTO DE FIGURAS NEGRAS E 'PADRÃO DE COMPORTAMENTO' DE ESTRELAS NEGRAS DO ESPORTE

Militante da causa negra, Tiãozinho explicou como o processo de 'embranquecimento' de figuras marcantes da cultura brasileira, como o escritor Machado de Assis, ou de esquecimento, como dos irmãos Antônio e André Rebouças, os primeiros engenheiros negros do Brasil, vem acontecendo também no meio do futebol.

“A sociedade procura colocar o negro em um canto. A sociedade quer te moldar, quer por poder, por hierarquia, esse formato vertical, a sociedade impõe um padrão de comportamento para você ser bem-vindo. O racismo funciona desta maneira. Quando estamos no futebol, é igual. O processo de compreensão por parte dos atletas é um processo, eles vão acumulando isso ao longo do tempo. Quando eu era novo, não tinha toda essa consciência. O racismo é um problema mundial, e tomei uma atitude.”

“No caso do embranquecimento, ele acontece para que a pessoa não seja confundida. Quando é com um jogador de futebol, ótimo, mas ele em geral é confundido como segurança, como cara da faxina, como cara da recepção do hotel. Ele nunca é tratado como uma autoridade, como um cara representativo. Quando eu estou num espaço com vários dirigentes, a gente vê que o tratamento é diferente. Não podemos abaixar a guarda. O embranquecimento faz com que eles te coloquem num local que eles entendem que eles mandam, para você se adaptar. Quando o negro adquire um certo protagonismo, ele é pressionado para não se posicionar sobre certos temas, isso por patrocinadores, por imagem. Tem um conjunto de mecanismos que aprisionam.”

ADMIRAÇÃO PELO BAHIA E PRESSÃO POR BONS RESULTADOS POR RESPALDO EM PAUTAS PROGRESSISTAS

Um dos clubes que mais tem dado voz às minorias representativas no Brasil, abrindo espaços de debate para temas tidos como 'polêmicos', e nos quais o futebol sempre teve uma presença bastante tímida, é o Bahia. Para Tiãozinho, a agremiação baiana tem feito excelente trabalho de comunicação.

Para o presidente pontepretano, o fato de pessoas brancas se posicionarem cada vez mais como antirracistas é algo que mostra uma evolução na batalha diante do fato e um indicativo de que o futuro pode ser mais positivo.

Mesmo assim, Tiãozinho faz um alerta para o comportamento dos torcedores. Apesar de toda a 'boa vontade' dos clubes em se comunicarem com as minorias e abordarem novas formas de comportamento, a aceitação por parte da torcida para com as novidades passa diretamente pelos resultados obtidos em campo.

“Nós temos uma maioria social, mas não temos voz no espaço de poder, somos uma minoria política. Posso falar do Bahia porque estive lá, conheci o Guilherme Bellintani, o Roger Machado era o treinador. Vi um esforço, um engajamento. Aprendi muita coisa com o Bahia, tivemos um intercâmbio de marketing, sigo conversando demais com eles. O Guilherme é um presidente branco e que tem uma visão progressista, que traz esse debate. E coloca essa luta como importante. Que tenhamos mais Bahias no futebol.”

“O resultado em campo funciona diretamente na comunicação do clube. Quando estamos em má fase aqui na Ponte, nós passamos pelo mesmo problema. Como eu disse, a todo momento eles tentam colocar o futebol para pensar apenas nas quatro linhas. Nós temos profissionais para todos os setores. O atleta está pensando em campo, o dirigente também, mas temos que ter uma visão ampla. O dirigente limitado levou a muitas tragédias no futebol. Olha os atrasos técnicos e científicos que temos, do 'jeitinho' de ninguém paga ninguém, de não pagar imposto. Nós temos que nos posicionar e ajudar o Brasil a vencer problemas dentro e fora de campo.”

'QUE EM 2021 EU NÃO TENHA QUE FALAR MAIS QUE UM JOVEM NEGRO MORRE A CADA 23 MINUTOS NO BRASIL

' Mostrando otimismo com o futuro da pessoa negra no Brasil, Sebastião Arcanjo abriu o coração sobre uma notícia que espera receber no Dia da Consciência Negra de 2021, comemorado neste 20 de novembro. Mesmo reconhecendo que o fim do racismo não passa de uma utopia, Tiãozinho disse que sonha, como sonhava o ativista político norte-americano Martin Luther King Jr. em seu discurso no dia 28 de agosto de 1963, em Washington, nos Estados Unidos, quando proferiu a emblemática frase 'I Have a Dream' (eu tenho um sonho, em inglês).

“Queria chegar no próximo dia 20 de novembro, abrir as estatísticas de violência policial e saber que a cada 23 minutos um jovem negro não é mais morto. Queria que em 2021 esse número tivesse mudado e que não colecionaríamos mais cadáveres. Que a gente possa dar oportunidade, que a gente tenha mais Ronaldo, mais Neymar, mais Romário. O tema da violência contra a nossa juventude é o mais importante. Interromper sonhos e futuros é muito grave. Os outros problemas podemos ter paciência, mas se tratando de tirar vidas, não podemos perder tempo. Quero voltar no dia 20 de novembro de 2021 e falar que morre um jovem negro a cada hora. É duro, mas evitaríamos cinco mortes, pelo menos. Por isso que o slogan 'Vidas Negras Importam' ganhou o mundo. Espero que a gente consiga manter o sonho e a vida dessas pessoas.”