<
>

Tuchel na corda bamba? Por que PSG virou máquina de moer e enlouquecer técnicos

Thomas Tuchel tem convivido cada vez mais com boatos de que será demitido e que a relação com Leonardo, diretor do Paris Saint-Germain, é horrível. Para muitos, o alemão está prestes a “perder a cabeça”, algo que, dentro do clube, é visto como normal.

Ex-treinadores e jogadores do PSG confirmaram ao jornal “Le Parisien” que trabalhar na agremiação requer uma alta dose de equilíbrio emocional. Não é apenas a pressão por resultados. Algo que aumentou após 2011, quando o fundo de investimentos Qatar Sports Investment tornou-se o proprietário do clube. O ambiente, com vaidades e disputas por poder, é pesado.

O goleiro Jérôme Alonzo, que defendeu o PSG de 2001 até 2008, definiu ao jornal como “paranóica” a atmosfera vivida pelos técnicos que por lá passaram durante seus oito anos. Para ele, é compreesível que enlouqueçam.

“Eu tive cinco treinadores [durante a minha passagem]: Luis [Fernádez], Vahid [Halilhodzic], [Laurent] Fournier, Guy Lacombe e [Paul] Le Guen… Todos enlouqueceram em determinado momento”, disse Alonzo.

Cada um dos nomes citados teve um episódio que marcou e desgastou seus trabalhos, os levando a pedirem demissão ou a serem demitidos. Por exemplo, Vahid Halillhodzic, que acreditava que havia um “X-9” dentro do elenco.

“Paranoia. Um dia fui dar um alô para o Vahid e ele afastou a mão dizendo: ‘Não, há uma ‘toupeira’ aqui. Não sei quem é e não aperto a mão de ninguém’. Ele fez o mesmo com os demais jogadores e membros do estafe.”, disse o ex-atacante Fabrice Pancrate.

A situação transformou o treinador bósnio em alvo de piadas do programa de humor da TV francesa “Le Guignols”, algo que também aconteceu com Luis Fernández. A exposição ridicularizada aumentou a lista de inimigos para eles.

“Na época deles não havia redes sociais, mas mesmo assim… Imagine você ser ridicularizado na frente de 4 milhões de pessoas em horário nobre? Ser treinador do PSG sempre foi algo importante”, disse Alonzo.

O problema de Fernández não foram “dedo duros” dentro do elenco, mas o craque Ronaldinho Gaúcho. Por desentendimentos por situações extracampo, ele punia o brasileiro e o deixava no banco de reservas ou até mesmo fora da lista de relacionados.

Seria como Tuchel não concordar com coisas que Neymar faz e o tirar dos jogos…

Le Guen teve problemas também e admitiu ao jornal que “criou inimigos”. “Não fui muito bom. Nós nos fechamos, tentamos nos proteger de fora, mas não é o método certo. A melhor proteção são os resultados. Eu não me comuniquei o suficiente. Eu não tinha perspectiva suficiente. Não fiquei louco no PSG, não desrespeitei ninguém, mas cometi erros, não tive a atitude certa”.

A avaliação de que a pressão enfrentada pelos técnicos mexe com emocional não foi feita apenas pelos treinadores e jogadores, mas também por um ex-diretor do PSG.

“Depois de um tempo, o treinador sempre acaba não vendo as coisas boas e só retém as negativas. Muitos pensam que todos estão contra eles e que muitos gostariam de ocupar seus lugares”, disse Jean-Michel Moutier, goleiro (1984/87) e diretor (2005/06) do clube.

“Não existe um isolamento. De repente, você é pego por uma espécie de engrenagem. Nós nos trancamos, desconfiamos de tudo”, reforçou Alain Giresse ao jornal. Ele foi, treinador do PSG em 1998/99.

“Quando você sente que pode ser demitido a qualquer momento por colocar um agasalho em vez de calças, você se cala, fica com sua equipe e as pessoas do clube que são legais com você. Isso afeta seu sono. Você se levanta 5h se perguntando o que vai fazer, se vai chegar lá”, disse o técnico Laurent Fournier, que no passado desacreditou dessa fama.

Ele substittuiu Vahid no início de 2005 com bom humor, não imaginando que poucos meses depois passaria pelo mesmo processo de “fritura” e “paranoia”. Saiu muito desgastado do clube em 2005.

Para muitos dos entrevistados a pressão tem algumas explicações históricas e locais. O PSG não fazia parte dos grandes e sempre houve uma cobrança para que a equipe da capital do país alcançasse os feitos do Olympique de Marselha e do Bordeaux. Por ser o único grande clube da cidade, também lida com mais críticas quando as coisas vão mal. Mas não é o único.

“Considere todos os treinadores do Marselha durante os últimos 20 anos. Eles também enlouqueceram. Lembro-me das entrevistas do André Villas-Boas há um ano e meio: tudo lindo e maravilho. Hoje, parece um pastor da Córsega! Um procurado", disse Alonzo.

Thomas Tuchel tem muitas das suas decisões questionadas por gente de dentro e fora do clube. Ataques que vão desde a escolha dele de como posicionar Marquinhos e Danilo no campo até decisões sobre o mercado de transferências envolvendo o clube.

Há ainda os resultados ruins neste início de temporada, com uma campanha preocupante na fase de grupos da Champions League. Além da troca de fogo com Leonardo.

“Você tem que ser capaz de suportar esta pressão, senão...”, disse Luis Fernández.