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Há 40 anos, Maradona 'levou' Corinthians a Manaus, mas 'deu o cano' no 1º duelo contra Sócrates

Não são poucas as cidades que vão relembrar Diego Armando Maradona nesta sexta-feira (30), dia em que o craque argentino celebra 60 anos de vida. De Lanús, onde nasceu, passando por Buenos Aires, Barcelona, Napoli, Sevilha, Rosário e Havana, há alguma história do ídolo para ser reverenciada. O que poucos sabem é que Manaus também poderia estar nesse grupo.

Há 40 anos, a capital do Amazonas viveu dias de grande expectativa para ver o argentino, então com 20 anos, se apresentar no estádio Vivaldo Lima diante do Corinthians de Sócrates.

Apesar de jovem, ele tinha currículo de gente grande como campeão e protagonista da Copa do Mundo sub-20, com seis gols em seis jogos, artilheiro máximo no país de 1979 até 1980 e duas vezes eleito o melhor jogador da América do Sul pelo jornal “El Mundo”, da Venezuela, à época a premiação mais respeitada do continente.

Era ainda o nome esperado para conduzir a Argentina ao bicampeonato mundial em 1982 e, para alguns, já merecia até o título de segundo melhor jogador do mundo depois de Pelé. Havia até quem ousava compará-los.

Nesse contexto, com o início dos anos 1980 marcado por grandes jogos em Manaus (como Fast x Polônia e duelos entre Vasco e Flamengo por lá) com grandes rendas, um dirigente manauara teve a ideia de buscar Maradona.

“Eu era o presidente do Nacional FC e fui conversar com o Argentinos Juniors para realizar um jogo do Maradona em Manaus”, disse Manoel Chaves, 76, hoje presidente de honra do clube, promotor do jogo realizado em 21 de novembro de 1980.

Ele relembrou que a negociação com os dirigentes do clube argentino foi rápida, resolvida em poucos dias, embora tenha saído de Buenos Aires com a "pulga atrás da orelha" em relação a presença de Maradona.

“Eles se recusaram a firmar um contrato no qual a presença do Maradona seria indispensável [para a realização da partida]. Os dirigentes achavam que a imagem do craque deles não podia ser colocada em um jogo em que eles não teriam certeza de que teria grande público”, disse Manoel Chaves.

Assim, para garantir a presença de público e ampla mídia desejada pelos argentinos, o presidente do Nacional-AM pensou em trazer alguma equipe do eixo Rio-São Paulo para engrandecer o evento. E o convidado foi o Corinthians de Sócrates.

“Eu conhecia um empresário que tinha amizade com os dirigentes dos clubes paulistas. O Corinthians era o clube de São Paulo que mais levava público aos estádios, dentro ou fora do Estado, atravessava uma fase magnífica, e seria como um Brasil x Argentina, um clássico sul-americano, para os torcedores de Manaus”, disse o dirigente.

Reportagem da “Folha de S.Paulo” da época diz que a equipe do Parque São Jorge recebeu 25 mil dólares (hoje, com a correção da inflação, seriam 76,1 mil dólares). Mesma quantia destinada ao Argentinos Juniors sem Maradona. O valor passaria para 40 mil dólares (hoje, 121,7 mil dólares) se a equipe argentina escalasse o craque como titular.

Passado tantos anos, Manoel Chaves diz não se lembrar dos valores, embora tenha afirmado que cumpriu tudo que estava combinado em contrato. As lembranças do Corinthians também são diferentes da fase que o time realmente vivia.

A equipe fracassou no estadual, sendo eliminada pela Ponte Preta na semifinal do segundo turno. A poucos meses do fim do mandato e de olho na eleição, Vicente Matheus tentava reformular o time.

O elenco tinha o goleiro Jairo, os laterais Zé Maria e Wladimir, os zagueiros Amaral e Caçapava, os meio-campistas Djalma, Biro Biro, Basílio e Sócrates e os atacantes Geraldão, Wilsinho e o recém-chegado Búfalo Gil.

“O técnico era o Osvaldo Brandão e era um time de ótima marcação, muito aguerrido, como é a história do Corinthians. Quem destoava era o Sócrates. Ele era o termômetro, o chefe”, disse o ex-ponta-direita Búfalo Gil, hoje aos 69 anos e morando em Maricá.

“Até por isso os jornais promoveram o jogo em Manaus como Sócrates x Maradona. Alguns jornalistas queriam fazer essa comparação, mas não dava. O Sócrates já era um nome, o grande jogador que o Brasil viu na Copa de 1982. O Maradona ainda era chamado só de Diego e muitos jogadores do Corinthians nem sabiam quem ele era”, acrescentou.

Búfalo Gil se considera uma exceção porque já tinha ouvido falar de Maradona quando disputou a Copa do Mundo de 1978 na Argentina. A imprensa local atacava o técnico César Luís Menotti por ter cortado o garoto de 17 anos...

“Mas poucos o conheciam porque não existia a transmissão de jogos da Argentina para o Brasil. Você conhecia os jogadores jogando contra e pelos jogos nas Copas. Eu recordo que em Manaus dividi o quarto com o Sócrates e perguntei pra ele: ‘Pô Magrão, quem é esse moleque aí que estão comparando com você?’. E ele também não fazia ideia”, disse Búfalo Gil.

Expectativa em dias quentes

As delegações de Corinthians e Argentinos Juniors chegaram na cidade de Manaus em 19 de novembro de 1980, o que permitia um treino de cada equipe e o contato com o público antes da partida. Mas todos queriam ver Maradona.

Alguns jornais locais já chamavam o confronto de o “Jogo do Século”, mesmo nome usado oito meses antes para Fast Club x New York Cosmos, que teve como um dos intermediários Pelé e terminou sem gols, no Vivaldão.

A delegação do Corinthians ficou no Hotel Mônaco, enquanto o Argentinos Juniors foi hospedado no Hotel Ana Cássia. Ambos com todas as despesas pagas pelos promotores do evento.

Mas Maradona não se apresentou junto com a equipe, o que gerou mal estar. Todos queriam saber onde estava o astro.

"Me lembro na época até que alguns jornalistas descobriram que havia um Diego vindo em um voo da Argentina para Manaus e foram ao aeroporto crente que seria o Maradona, mas obviamente não era", disse Luís Cláudio Chaves, filho de Maneca.

Consta nos jornais da época que o pai dele chegou a convocar uma entrevista para fazer um apelo ao público para que não devolvessem os ingressos. Na entrevista, ele dizia confiar que Maradona honraria o compromisso.

A cobrança em relação a presença de Maradona continuou até a bola rolar.

“Eu tive que ter um grande trabalho em ir para as emissoras de rádio, que estavam no estádio, justificar que os dirigentes [do Argentinos Juniors] tinham feito compromisso com o Maradona naquela oportunidade”, disse Manoel Chaves.

Do lado do Corinthians, durante os dois dias antes do confronto, Sócrates evitou dar entrevistas, irritado com as comparações. Já Brandão demonstrou estar cansado das perguntas sobre Maradona e minimizou o encontro.

“Não importa que seja o Argentinos Juniors ou outro time estrangeiro. O que importa é que o Corinthians jogue bem e ganhe. A presença do Maradona é importante apenas na medida em que se trata de um jogador que dá espetáculo, com belos dribles e chutes fortes e certeiros”, disse Brandão, em depoimento para “O Estado de S.Paulo” publicado na véspera do duelo.

Para a ESPN Brasil, Búfalo Gil lembrou outra história. “A gente brincava com o Caçapava, que era um volante marcador que tinha vindo do Internacional, dizendo que ele ia ter uma dificuldade muito grande com o Maradona”.

Mas Caçapava não jogou o amistoso, assim como a grande estrela Maradona.

O craque argentino não viajou com a delegação para Manaus e a imprensa descobriu o motivo. Ele realmente tinha outro compromisso. Era com a Puma, sua patrocinadora, na Alemanha, onde foi para gravar uns comerciais. Para chegar a tempo do jogo, ele teria de encarar pouco mais de 14 horas de voo numa escala bastante cansativa: Frankfurt, Paris, Manaus.

“Infelizmente ele não veio porque a direção do Argentinos Juniors não permitiu que ele viesse”, culpa até hoje Manoel Chaves. “Ele nem veio aqui. Não chegou a Manaus. Ficamos muito frustrados sem o grande astro da noite”, completou.

Quarenta anos depois, as lembranças de Búfalo Gil são mais animadoras, para ele.

“Eu até achava que ele tinha jogado esse jogo e a gente tinha vencido com ele campo, mas o que importa é que vencemos. Eu fiz o gol. Acho que foi em uma jogada por dentro do Sócrates com Basílio. A bola sobrou na entrada da área, eu tirei um pouco para dentro, tinha facilidade de bater com a perna esquerda, apesar de destro, e fiz o gol”, disse, sorrindo.

Sem Maradona, os registros são confusos. Quem esteve envolvido com o jogo afirma que houve uma boa resposta do público (não como os mais de 50 mil de Fast x Cosmos). Os poucos documentos da partidas apontavam pouco mais de 5.000 pagantes e uma renda que corresponderia na moeda atual a pouco mais de R$ 320 mil.

Não há quase registros visuais do duelo. A TV Bandeirantes, canal que fez a transmissão para São Paulo, não tem mais nenhuma cópia em seus arquivos. O Nacional-AM não tem fotos. E Corinthians e Argentinos Juniors "esqueceram" o duelo.

O encontro com Sócrates foi adiado para o ano seguinte, quando Brasil e Argentina se enfrentaram pelo Mundialito. As equipes empataram por 1 a 1 e Maradona fez o gol albiceleste. Depois duelaram mais duas vezes apenas.

Na Copa de 1982, a seleção brasileira venceu por 3 a 1 (nenhum deles marcou) e, em 13 de janeiro de 1985, o Napoli de Maradona bateu a Fiorentina de Sócrates por 1 a 0, em Florença, com gol do argentino. Nunca mais jogaram contra.

Voltando ao jogo amistoso em 1980, quem esteve presente sabe que se Maradona não tivesse dado o cano a repercussão seria outra. Manaus teria um motivo para lembrar o craque no aniversário de 60 anos, e o herói da vitória corintiana teria ainda um feito mais nobre para narrar sobre a curta passagem pelo Corinthians (foram apenas 18 jogos e três gols).

“Não tenha dúvida que seria o assunto na crônica esportiva e a manchete seria ‘Corinthians derrota time de Maradona’, e graças a meu gol”, disse Búfalo Gil, sorrindo.