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Ceará: Guto Ferreira abre o jogo sobre a Copa do Nordeste, estrangeiros, Portuguesa e gordofobia em entrevista exclusiva

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Guto Ferreira, 54, finalista da Copa do Nordeste com o Ceará, é um híbrido.

Profissional do futebol desde os 25 anos, quando assumiu a base do XV de sua Piracicaba natal, em 1993, ele tem tempo de carreira para ser considerado um veterano. Mas, como um técnico da nova geração, faz questão de se atualizar ao máximo continuamente, uma vez que sabe que o futebol muda sem parar.

“Eu sou um dos protagonistas do início dessa busca de uma didática mais direcionada e moderna no futebol”, disse ele, em entrevista ao ESPN.com.br

“Hoje, a coisa está evoluída e eu absorvi muito da prática dos grandes treinadores com quem trabalhei, nos estágios, nos clubes do exterior”, conta ele, que define a própria profissão de um modo polêmico, se levado ao pé da letra.

“O treinador nada mais é do que um ladrão de ideias, que vai em busca de ver nos trabalhos de outros profissionais aquilo com que ele se identifica para encaixar esses conceitos dentro daquilo que idealizou”, teoriza.

Ao longo das respostas, Guto, que gosta de falar de si mesmo na primeira pessoa do plural “nós”, ao invés da primeira do singular, “eu”, mostrou-se um técnico atento aos movimentos do futebol, dentro e fora do campo. Que enxerga e não tem dúvidas de que há implicações diretas das ações administrativas nos resultados esportivos.

Um treinador que tem convicções e preferências de esquema de jogo, mas que sabe que o tempo muitas vezes urge, e que é só calcado em resultados que ele vai conseguir espaço para montar uma equipe do zero à sua feição.

Às vésperas de disputar as finais da Copa do Nordeste contra o Bahia (1º jogo neste sábado, às 16h, com transmissão do FOX Sports), competição que já venceu justamente pelo seu rival deste sábado, Guto falou o que pensa nesta entrevista.

Comentou a "moda" dos técnicos estrangeiros no Brasil, por exemplo. Relembrou momentos difíceis. Como quando sofreu ameaças e foi rebaixado com a Portuguesa. No campo, o time conseguiu os pontos para se manter na Série A. No tribunal, perdeu pontos com uma escalação irregular.

Numerou o que admira nos trabalhos de Rogério Ceni, a quem venceu na semifinal da Copa do Nordeste, e de Roger, que vai enfrentar agora.

Citou a formação de equipes da NBA, ao explicar como gostaria de montar seus times. E falou até sobre o apelido 'Gordiola' que, longe de ofendê-lo, abriu, para ele, barreiras contra o preconceito que as pessoas “gordas” sofrem no futebol.

Veja abaixo os melhores trechos da entrevista.

ESPN - Para começar: o que significa para você a Copa do Nordeste e estar em sua decisão?

Guto Ferreira - É uma competição importante. A gente que está chegando agora já conseguir colocar a equipe na final é muito bom. Mas é importante dizer que esse resultado envolve também os trabalhos do Argel e do Enderson, com a gente culminando na vitória sobre o CRB e o Fortaleza, que nos fizeram chegar até aqui. Para uma equipe como o Ceará, talvez seja a competição mais importante depois da Copa do Brasil e do Brasileiro.

ESPN - Sua conquista da Copa do Nordeste com o Bahia foi a maior da sua carreira?

Guto - Até agora, o título 2017 é o mais expressivo, sim. E o Ceará também já a conquistou, em 2015. É uma competição em que se joga muitos clássicos e tem muitas equipes de séries A e B, e até de C, muito competitivas.

ESPN - Como está sendo comandar um time nesse cenário novo do futebol atualmente?

Guto - Neste ano, estamos vivendo um momento novo, de se jogar sem torcida, que é uma coisa muito diferente, que enfraquece muitos dos clubes que têm torcidas numerosas. O Ceará é uma dessas equipes, e isso não deixa de nos influenciar. Todos os times estão em estágios de evolução compatíveis com os de fevereiro, por conta da parada. Só lá para outubro e novembro é que os times vão estar bem fisicamente.

ESPN - O futebol do Nordeste vem mostrando uma evolução muito grande recentemente, se modernizando. Você enxerga isso no seu dia-a-dia?

Guto - Com certeza. Eu trabalhei em três clubes do Nordeste e dois deles muito bem organizados, com mentalidade moderna. Clubes que estão acompanhando esse momento recente de crescimento da região, com empresas e indústria se mudando para cá. Isso vem trazendo um crescimento social às cidades, e os clubes vêm aplicando essa mudança em suas partes administrativas e de estrutura, buscando um acompanhamento mais científico do trabalho.

Onde não há muito dinheiro, você precisa do conhecimento técnico para tentar se nivelar um pouco com as equipes mais ricas, e isso passa pela organização do trabalho, nos detalhes. E o resultado está nessas equipes do Nordeste quem vem tendo destaque nas competições nos últimos anos.

ESPN - Isso impacta muito no preparo que os treinadores precisam ter.

Guto - Sim. Na realidade, os técnicos que surgem hoje já vem conduzindo seus trabalhos com uma gama de ferramentas de informação que também vêm sendo buscadas pelos técnicos mais experientes. A gente nota isso nos cursos da CBF. Ali tem muita troca e se absorve muitas ideias de jogo e de trabalho. O futebol brasileiro está num momento de crescimento devido a essa aproximação dos treinadores

O treinamento esportivo está sempre mudando. Antes de ser técnico, de ser show, o futebol é físico e não se impõe a parte técnica sem o físico. Para isso, precisa de metodologia de treinamento e integração total com a preparação física. Mas precisa também de tempo. Os grandes times da NBA não são montados da noite para o dia, vêm desde o draft. Demora tempo para maturar, anos, para que os grupos atinjam seu potencial. Aqui, a cada seis meses é um time. Por demissão de técnico ou desmonte de equipes, trabalhos que estavam no caminho certo são muitas vezes interrompidos.

ESPN - Você acabou de vencer o Rogério e agora vai enfrentar o Roger, dois técnicos da nova safra, que trazem muito desses novos conceitos que você menciona. O que você mais admira nos trabalhos deles?

Guto - Eu acho que o Rogério, desde o início, foi muito inteligente, prezando pela montagem da equipe, peças que se encaixam e, a partir disso, foi criando um conceito de jogo de muita intensidade e temporização. Isso leva tempo e essa é uma das vantagens do Rogério, que tem a mesma espinha dorsal há bastante tempo, com algumas trocas de jogadores, mas mantendo as características.

O Rogério tem um estilo muito incisivo, com a quebra de linhas adversárias que vai criando um efeito dominó. Nisso, o Roger já é diferente, por ser um cara mais tático, voltado para o toque de bola e aproveitamento de espaços que surgem no adversário. Ele monta times mais pacientes, que ficam mais com a bola trocando passes.

ESPN - E você? Qual o estilo que você imporia em uma equipe que pudesse montar do zero?

Guto - Não tivemos ainda a oportunidade de montar equipes. Temos entrado em situações de pegar grupos prontos, avaliar a característica e tentar tirar o melhor do que existe. Às vezes, com ideias em que faltam uma peça ou outra. Mas temos feito bons resultados dessa maneira. É lógico que, se tivéssemos facilidade de contratações, eu queria um time bem impositivo, de marcação alta, que defendesse tão bem quanto pudesse ser agressivo ofensivamente. Enfim, que jogasse um futebol completo.

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ESPN - Como você vê as situações econômico-administrativas tão complicadas de alguns clubes tradicionais?

Guto - A gente tem a lamentar, porque o futebol precisa dessas grandes equipes para que a gente possa ter primeiro uma boa qualidade de emprego e de futebol. Porque esses clubes envolvem torcedores, e quanto mais torcedores no estádio, melhor. O campo passa pelas questões administrativas, que muitas vezes são deixadas de lado por conta de pressão pelo resultado imediato.

E, a partir desse momento, muitos clubes param de fazer o trabalho ideal. Contrata-se um jogador que custa mais do que o clube pode pagar para resolver os problemas. Ele até resolve momentaneamente. Mas isso tem uma validade que, quando acaba, faz surgir uma bola de neve que vem desde a administração e leva tudo o que vê pela frente.

O trabalho precisa ser feito, em algumas etapas, alheio ao resultado do campo. Mas, às vezes, a gente passa por ameaças de morte, violência contra a família. E essa pressão tira a tranquilidade geral para trabalhar.

ESPN - Você já recebeu ameaças de morte, algo que te preocupou?

Guto - De me preocupar não. Mas, uma vez, num clube de São Paulo, eu sofri pressão, ameaça verbal e ameaça de violência física. Mas, graças a Deus, a gente faz trabalhos que costumam andar bem e temos mais paciência do torcedor. Quando o trabalho oscila, a gente consegue dialogar

ESPN - Queria tocar em algo muito chato na sua carreira, que foi a queda da Portuguesa à Série B em 2013. Como é conseguir a permanência de um time no campo, mas vê-lo cair por questões extracampo?

Guto - A gente lamenta (o ocorrido) porque respinga e tem pessoas maldosas que, mesmo com todas as provas, ainda querem induzir a ter um culpado e direcionar essa culpa a mim. Na época, havia três clubes interessados em mim, que se afastaram. Depois, eu cheguei a trabalhar neles. Nada como o tempo, ele mostra as verdades, e tenho lisura na minha vida em termos de conduta.

Infelizmente, a Portuguesa acabou tropeçando nos próprios erros, que não vinham daquele momento. Cheguei ao clube com três ou quatro meses de salários atrasados e dívidas com A e B que não vou comentar neste momento. Na verdade, esse é um assunto de que nem gosto de falar, até porque minha carreira tem muitas coisas positivas. Falar disso não me faz bem em momento nenhum.

ESPN - E qual foi o seu melhor momento, seu ponto alto na carreira?

Guto - Eu trabalho muito pelo momento. Eu tive alguns pontos altos, na Ponte, Chapecoense, Bahia, Internacional, Sport, Mogi Mirim, e espero ter também no Ceará. Em todos, eu obtive conquistas importantes. O maior foi a Copa do Nordeste de 2017. Mas eu busco os títulos nacionais e internacionais e busco trabalhar em clubes que possam me oferecer um projeto sério que me permita estar na parte de cima da tabela, que seja organizado e tenha ambição. E o Ceará é assim. A ambição é fazer o melhor ano do Ceará. Para ter uma conquista de Copa Sul-Americana, para conquistar a Copa e o Estadual, em que estamos na final. O Ceará ainda está na Copa do Brasil e sonhamos fazer grande campanha.

ESPN - E o apelido 'Gordiola'? Incomoda de alguma forma?

Guto - Quem me deu esse apelido foi o (jornalista) Flávio Prado, que é pontepretano. Foi uma maneira que ele teve de valorizar o meu trabalho, porque na temporada 2014, entrei no meio e cheguei a ter 80% de aproveitamento. Terminamos com 73% e não ganhamos a Série B por detalhes. Em Campinas, não pegou. Mas, no Bahia, a torcida já me recebeu com o bonequinho do Gordiola, e foram melhorando o boneco, colocando uniforme. No Sport teve e aqui no Ceará também.

Eu acho que me ajudou a quebrar um pouco o preconceito que tem no futebol contra o gordo e me trouxe muito carinho. Enquanto for assim, eu encaro numa boa. Mas o meu trabalho tem que ser lembrado não por apelido, mas pelos resultados.

ESPN - Como você vê agora essa tendência de técnicos estrangeiros no Brasil?

Guto - Eu costumo dizer que tem técnico bom, médio e ruim, seja brasileiro ou estrangeiro. Não é por ser de determinada escola que você vai ser um grande profissional. Vejo um pouco como uma moda. Tivemos a moda de promoção dos auxiliares e muitos estavam preparados e deslancharam, outros não. Agora, é a moda do europeu, dos estrangeiros. O que faz a diferença é a competência. Veja o caso do Sampaoli, que eu já acompanhava antes de ele vir ao Brasil, e do Jorge Jesus, são dois dos bons. Mas há vários estrangeiros que foram trazidos só por isso de que estrangeiro é bom, português é bom, e não fizeram ou fazem nada de mais.