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Presidente do Ceará, Robinson de Castro revela como se preparou para morte ao ter COVID-19 e diz por que Nordeste deve virar o jogo e ser protagonista do futebol brasileiro

Presidente do Ceará, Robinson de Castro acredita que os clubes do Nordeste, com o tempo, vão virar o jogo dentro de campo e assumir o protagonismo no futebol brasileiro.

Hoje, alguns times da região já têm gestões mais enxutas e equilibradas que grande parte de seus pares do eixo Sul-Sudeste, os usuais atores principais E o dirigente prevê que, em breve, isso vai se refletir ainda mais nos gramados.

“Eu acho que o Nordeste vai entrar na primeira página do futebol, vai ter uma troca de posições. Alguns clubes de Rio, São Paulo e Minas têm situações quase irreversíveis. A gente viu também essa situação difícil do Cruzeiro, por exemplo”, disse o mandatário alvinegro em entrevista ao ESPN.com.br.

“Alguns são máquinas muito pesadas, não é fácil alavancar. A maior parte dos clubes aqui do Nordeste está se preparando para estar na 'primeira página'”, afirmou.

Castro forma com Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, e Marcelo Paz, comandante do Fortaleza, um trio de dirigentes da nova geração do Brasil, uma espécie de “trio de ferro nordestino”, para para fazer alusão ao apelido dado à tríade Palmeiras-São Paulo-Corinthians ainda nos anos 1960.

Não por acaso, os três clubes estão na Série A e nas quartas de final da Copa do Nordeste, cujos todos os jogos acontecem neste sábado (25).

Na contramão principalmente de cariocas e paulistas, a trinca de dirigentes conversa muito, por entender que tem mais a ganhar do que a perder se estiver forte e, principalmente, unida.

“O Ceará e o Fortaleza estão sempre se conversando fora de campo, buscando estratégias comuns para a gente conseguir melhores acordos comerciais”, contou. “Aqui, a gente tem sido inteligente, tem somado.”

Nesta entrevista exclusiva, Castro, que verá o seu Ceará decidir vaga para a semifinal da Copa do Nordeste contra o Vitória, mostra um pouco de sua visão de futebol. Explica por que é favorável à Medida Provisória 984, que dá exclusividade aos mandantes para comercializar os direitos de exibição de seus jogos em casa, e conta como foram os dias que passou internado com COVID-19.

“Fui para o Hospital achando que poderia não voltar”, disse.

ESPN - Qual o segredo dos clubes do Nordeste que hoje vivem bons momentos financeiros e esportivos, em especial a tríade Ceará, Fortaleza e Bahia?

Robinson de Castro - É fazer um tipo de gestão responsável, que não dá passos maiores do que a perna, sempre buscando cumprir com compromissos assumidos com todos. E isso acaba dando musculatura ao clube para investir no futebol. São clubes preocupados em não repetir fracassos de outros que têm camisas grande e estão em situações difíceis. Ousadia é muito importante no futebol, mas precisa ser calculada.

ESPN - Que tipo de cálculo?

Castro - Investimentos em estruturas demanda prazo para dar retorno. Mas é importante sanar os pagamentos de passivos e ter uma política de gestão em que você consiga, ao mesmo tempo, fazer os investimentos necessários para o desenvolvimento do trabalho, em equipamentos, pessoal qualificado... Eliminar os passivos que estiverem afetando diretamente o caixa da empresa, ou até bloqueando acesso aos recursos, é fundamental. É fazer o dever de casa. O restante, é a qualidade da operação.

ESPN - E o que dá qualidade a uma operação?

Castro - É preciso criar processos de relacionamento com o torcedor, que é um cliente. Criar linha de licenciados e um programa de sócio-torcedor que tenha capacidade de reter o sócio com ativações, criar condições mais confortáveis para ir e estar no estádio. É tudo parte de um esforço para aproveitar a força das marcas que são os clubes e monetizar, para competir com clubes com poderio financeiro maior, porque muitos estão desorganizados, em situações que parecem até irreversíveis.

ESPN - Como vai ser lidar com os efeitos econômicos da pandemia?

Castro - A gente vai sobreviver à pandemia, vamos completar a travessia, porque já tínhamos feito o dever de casa, não carregamos passivos, o nosso é o menor da Série A. A gente, claro, teve uma queda de receita muito grande, tivemos 30% da receita esperada, mas a gente priorizou pagamento de funcionários e atletas e negociamos o diferimento (postergação) daqueles custos que podiam esperar um pouco mais, negociando com fornecedor e aproveitando medidas do governo que permitiram o diferimento de tributos. E tivemos uma oferta de crédito grande, porque temos as contas equilibradas

ESPN - Este será o terceiro ano consecutivo do Ceará na Série A. O clube já está ficando acostumado com a elite?

Castro - A Série A é um aprendizado constante e o importante é você aprender com os eventuais erros cometidos e saber que mesmo quando você estiver ganhando, tem coisas a aprender. A competição é muito difícil e você precisa montar o elenco de uma forma bem consistente em aspectos diversos, pensando em como os atletas reagem em [algumas] situações. Montamos um departamento de psicologia, e são poucos os times que têm esse trabalho. É preciso estar com a mente muito forte. E alguns atletas não conseguem conviver com derrotas e com vitórias também, porque há aqueles que se empolgam e se acomodam.

Temos aprendido a trazer mais conteúdo para a nossa preparação. Nossa equipe e comissão técnica têm sinergia muito grande. Passaram esses três meses parados, com a nova comissão trabalhando um modelo de jogo. É como se estivéssemos começando agora, sabemos que temos que trabalhar demais.

ESPN - Qual a expectativa para a Copa do Nordeste? A competição está cada vez mais consolidada. Seria hoje o grande título almejado pelos clubes da região?

Castro - A Copa do Nordeste mexe muito com a torcida nordestina, é um modelo vencedor, uma copa vencedora, muito respeitada no Brasil inteiro. Outras tentaram, mas não conseguiram. Fomos campeões invictos em 2015, é uma vitrine muito grande para os clubes e atletas. É uma competição assim, com um charme próprio.

Um diferencial é a força do Nordeste que se apresenta na Copa, o torcedor do Nordeste é muito apaixonado, e o Nordeste se agiganta nessa competição. É um orgulho para a região. É talvez o maior título para um clube do Nordeste, sim. É muito valorizado, é histórico e premia muito o trabalho.

ESPN - Como o senhor vê esse retorno agora, pós-pandemia, em termos de cuidado?

Castro - Não sei se você sabe, mas eu tive COVID-19.

ESPN - Chegou a ficar internado? Como foi?

Castro - Fui para o hospital achando que poderia não voltar, porque foi muito no começo, não se sabia como tratar, e perdi uma semana porque pensou-se que eu estava com Influenza. Eu estava fazendo o tratamento até errado. Acabei internado em apartamento, sem necessidade de UTI. Nos primeiros dias, eu percebi a perda de capacidade respiratória. Só de caminhar da cama para o banheiro, faltava ar, nem dava para ficar muito tempo em pé. Passei uns três dias muito mal e, no quarto e quinto dias, eu já estava melhor. Não 100%. Passei seis dias só tomando soro, perdi dez quilos, não conseguia comer.

Eu ficava tentando me distrair com notícias que não fossem da pandemia, eu não contei para ninguém que estava hospitalizado, mandava mensagem dizendo que estava trabalhando, só mulher e filhos sabiam e não deixei de acompanhar as coisas para não entrar em uma semidepressão.

Claro que considerei a possibilidade de não voltar, até mandei mensagem à minha mulher, mandei orientações, do tipo, 'se acontecer isso, façam aquilo'. Não cheguei a me despedir, mas coloquei orientações para algumas situações. Porque eu poderia necessitar de intubação. E daí, você nunca sabe se vai voltar.

ESPN - E mesmo assim, foi favorável a se acelerar a volta do futebol?

Castro - Sim, fui totalmente favorável à volta, com os devidos cuidados, porque eu tinha confiança que eu só fiquei mal porque o problema foi tratado errado por um tempo. Se tivesse tratado certo desde o início, talvez não ficasse. Só que meu caso foi logo em março, quando ainda não se entendia bem a doença. No futebol, há um acompanhamento médico constante, os jogadores estão sempre monitorados. Mas o cuidado segue. A vida continua, com cuidados. Um funcionário meu que tossir vai pra casa na hora.

ESPN - O senhor esteve com o presidente Jair Bolsonaro e expressou apoio à MP 984. Por quê?

Castro - Todo mundo ganha com a MP. A tendência é não ter mais apagão de jogo, porque você é o mandante, você autoriza a transmissão para quem você negociar o seu direito. Hoje, se joga Ceará x Flamengo, não é todo mundo que consegue ver. Com a MP, você abre a possibilidade, pode criar blocos de negociação. Antes, se todo mundo negociasse e você fosse o último, você estava encrencado, ia ter que aceitar qualquer valor que oferecessem.

ESPN - E essa negociação em bloco será como?

Castro - Podem ser os 20 em conjunto, dois ou três blocos, um bloco para TV aberta, outro bloco para TV fechada. Os clubes passam a ter protagonismo no processo. Antes ficava dependendo de alguém querer comprar seus direitos.

ESPN - Para onde você vê o futebol do Nordeste se dirigindo?

Castro - Eu acho que o Nordeste vai entrar na primeira página do futebol, vai ter uma troca de posições. Alguns clubes de Rio, São Paulo e Minas têm situações quase irreversíveis. A gente viu também essa situação difícil do Cruzeiro. Alguns desses clubes são máquinas muito pesadas, não é fácil alavancar.

A maior parte dos clubes aqui do Nordeste está se preparando para estar na primeira página, são equipes de massa, o poder de consumo cresceu, e isso é importante para escalar os ganhos. O resto é usar inteligência, se unir. Os clubes aqui são muito próximos, se conversam muito. O Ceará e o Fortaleza estão sempre se conversando fora de campo, buscando estratégias comuns para a gente conseguir melhores acordos comerciais

Aqui a gente te sido inteligente, tem somado. Quando o futebol cearense esteve parado, o Ceará tomou a iniciativa para comprar testes para os clubes menores. Emprestamos também jogadores a esses clubes. Temos que ter a capacidade de pensar grande. Aqui no futebol cearense, eu tenho essa clareza que se eu conseguir fazer o clube menor melhorar, eu melhoro o produto, ela [a disputa estadual] passa a ser uma competição mais valorizada, eu posso fazer um produto com qualidade melhor, vale para o Brasil. A MP empodera os clubes e todos ganham.

ESPN - Rivalidade, só em campo, então?

Castro - Dentro de de campo, eu quero secar o Fortaleza e tenho certeza que eles vão nos secar mesmo (risos). Mas fora do campo, a gente vai somar esforços.

ESPN - Com tudo que aconteceu neste ano, paralisação, receitas minguando, calendário apertado, como imagina o Campeonato Brasileiro?

Castro - O Brasileiro vai ser imprevisível para todo mundo, vai ter surpresas, vão ter sabores e dissabores, algo parecido com o ano passado, quando vimos um gigante caindo. Ninguém imaginava isso. Nossa ideia é a permanência na Série A. Ficar já é uma grande conquista para os nordestinos, sejam eles quais forem, porque o processo é de consolidação. Temos que ter humildade. Não quer dizer que não vamos sonhar, mas o objetivo com pés no chão é a permanência.

ESPN - Não dá para almejar chegar mais perto da conquista?

Castro - É um projeto, não é uma coisa que a gente possa imaginar que é de curto prazo, é pelo menos de médio prazo. Mas a cada ano que o time permanece [na Série A], você dá um salto. E o salto é maior para quem já está estabelecido. Há clubes que foram privilegiados, que ficaram anos na Série A e, mesmo quando caíram, ficaram recebendo cotas absurdas de TV, como se estivessem na Série A. Nós nunca tivemos esses privilégios. Chegamos, mas precisamos lutar muito.

ESPN - O Ceará recebeu sondagens de algum bilionário internacional, para parceria ou algo do tipo, como o Fortaleza?

Castro - Já tivemos várias sondagens, mas é mais retórica do que propriamente proposta. Para emprestar dinheiro, sempre aparece. Mas para investir e participar, os que aparecem não comparecem.

ESPN - Você acredita que o clube possa chegar a conquistar uma vaga na Copa Libertadores?

Castro - Meu projeto é esse, a médio prazo. Mas meu sonho tangível é deixar na primeira divisão. Mas é que a gente não pode se permitir sonhar muito. Uma Libertadores seria um presente de Deus, mas é muito difícil para 90% dos clubes. Temos é que trabalhar para isso, para estar na melhor posição, mas eu sei que a permanência já é muito. Se eu puder sair do cargo, no fim de 2021, com o time na Série A, terei cumprido o planejamento.

ESPN - Você pretende tentar a reeleição no clube?

Castro - Não avaliei se concorro. Eu nem cheguei a me debruçar. Esse é meu segundo mandato e não sei como ficaram as mudanças estatutárias. Mudaram prazos e períodos, mas eu não sei se posso concorrer [a um novo mandato].