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Senadores do Esporte - Romário detona meio século de atraso em gestão: 'Ainda somos amadores'

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Desde quando embarcou na política, primeiro em 2010, como deputado federal, e depois, em 2014, como senador da República, representando os eleitores do Rio de Janeiro, Romário nunca deixou de ser protagonista nos corredores do Congresso Nacional.

Opositor ferrenho da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da velha política esportiva brasileira, o ex-atacante da seleção, campeão mundial de 1994, sempre fez questão de deixar claro o lado que ocupa dentro do jogo político.

Foi o responsável pela segunda edição da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da CBF, que resultou em um trabalho minucioso de investigação e levantamento de informações. Porém, depois de concluída, a CPI acabou nas mãos de aliados da confederação.

Para encerrar a série, a entrevista exclusiva com o tetracampeão mundial da Copa de 1994, nos Estados Unidos. Respostas de um parlamentar eleito com uma votação recorde em 2014 - 4,7 milhões de votos de cidadãos do Rio de Janeiro.

ESPN - Como parlamentar, você integrou a comissão do Congresso Nacional que visitou as obras dos estádios para a Copa do Mundo de 2014. E fez duras críticas ao dinheiro público que financiou os empreendimentos. Inclusive, alertando que a maioria dos estádios virariam elefantes brancos. Naquela época, Ronaldo chegou a dizer que não se fazia Copa do Mundo com hospitais. Hoje, ironicamente, estádios servem de hospitais para enfrentar o novo coronavírus. Como vê suas manifestações de sete anos atrás e a realidade de hoje?

ROMÁRIO – Vejo de forma muito triste. Se de um lado tivemos uma Copa do Mundo sem transtornos, de outra parte vemos, hoje, que não ficou resultado positivo para o nosso futebol. No campo, na parte técnica, foi aquilo que nem vale a pena recordar. Quanto aos estádios, construídos e outros reformados, alertei – e a imprensa deu divulgação – que estava sendo gasto um dinheiro sem controle. Dinheiro público! Hoje vemos que vários ex-prefeitos, ex-governadores e outras autoridades públicas ainda respondem a processos por superfaturamentos.

E, ironicamente e para contradizer o meu colega Ronaldo, vários estádios cedendo espaços para instalações hospitalares. No geral, ainda somos amadores na gestão do patrimônio esportivo. Temos instalações maravilhosas e não exploramos os seus espaços, fora das quatro linhas, de forma comercial. É um desperdício. Enfim, lamentavelmente, eu não estava errado quando alertei sobre o dinheiro que estavam esbanjando naquela época.

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ESPN – Como presidente da Comissão de Assuntos Sociais, quais serão as suas prioridades na reabertura dos trabalhos no Senado Federal? A pandemia estará entre os temas a serem tratados até o final do ano?

ROMÁRIO – Com certeza, as questões ligadas ao coronavírus estão na linha de frente das prioridades. Precisamos fazer uma grande avaliação do nosso sistema hospitalar, na parte de recursos humanos, inclusive, no sistema de distribuição de recursos, instalações, tecnologia, enfim. Além de avaliarmos os pontos onde o Brasil ainda é frágil e facilita contrair doenças.

Por exemplo, temos só 50% da população dispondo de saneamento básico. A outra metade está exposta a contrair doenças daí decorrentes. Então, são questões sociais que precisam ser avaliadas imediatamente para apresentarmos sugestões ao governo. Inclusive, para que melhor se elabore o orçamento dos próximos anos, pois os prejuízos decorrentes de uma paralisação do país, como essa que tivemos, não será mais possível. Precisamos nos precaver, e a Comissão de Assuntos Sociais é um dos pontos de partida para tanto.

ESPN – Na área do esporte, o Senado tem um projeto de lei para reformular a Lei Pelé, que é a Lei Geral do Esporte. Como está a tramitação deste projeto, já que começou a tramitar em 2017? Você será mesmo o relator?

ROMÁRIO – Eu manifestei o desejo de relatar esses projetos, mas isso não depende apenas de mim. Há um relator designado desde 2018, e estamos aguardando o seu parecer. Atualmente, o projeto está na Comissão de Constituição e Justiça. Depois, deverá ir para a Comissão de Educação, Cultura e Esporte.

Mas, independentemente de minha participação como relator, apresentarei emendas para tentar melhorar a proposta original, que é boa, mas há espaço para um texto mais adequado à realidade e necessidades do nosso esporte, em geral.

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ESPN – Outro projeto que abrange o esporte é o que transforma os clubes em empresa. Você acredita que esta seja a saída mais eficiente para o drama financeiro dos clubes?

ROMÁRIO – Sim, há dois projetos, um na Câmara e outro no Senado. O da Câmara já foi aprovado e remetido ao Senado. Estamos aguardando a leitura do mesmo para que comece a tramitar. É possível que ele seja apensado [anexado] ao projeto de lei do Senado. Se eu vier a ser o relator, pretendo realizar audiências públicas para ouvir os diferentes segmentos envolvidos nesse sistema que modernizaria o nosso futebol. É claro que precisamos levar em conta o tempo.

Ainda não temos data para o retorno dos trabalhos presenciais no Senado. Por enquanto, estamos deliberando à distância e com assuntos exclusivamente relacionados ao coronavírus e, em decorrência, orçamentários. Mas não há dúvidas de que os projetos que possibilitam aos clubes se tornarem empresas são oportunos.

Estamos no Século 21 com uma gestão que já vigorava quando eu comecei a jogar futebol, lá por 1980. Ou seja, estamos, no mínimo, 40 ou 50 anos, meio século, diante de toda evolução que a gestão esportiva nos mostra no restante do mundo. Esse recurso permitirá atrair investidores. O clube estruturado como empresa dará mais confiança àqueles que ainda veem o nosso futebol como uma área de investimento rentável.

ESPN – Outro projeto sugere renegociar a dívida fiscal do Profut. E essa foi outra iniciativa que você criticou à época, ainda como deputado. Afinal, o Profut não vingou?

ROMÁRIO – É mais um projeto que demonstra que eu tinha razão, quando votei contra, nos moldes em que estava sendo oferecido aos clubes. Isto é, sem que houvesse qualquer contrapartida caso não cumprissem todos os benefícios que o governo ofereceu, inclusive com abatimento de 80% das multas, 50% dos juros e parcelamento do saldo em até 240 meses, isto é, 20 anos.

Além disso, criaram uma loteria, a Timemania, para ajudar os clubes a saldarem as suas dívidas. Ou seja, o cofre público bancou, assim como o torcedor-apostador, o calote de dezenas de cartolas, que meteram a mão no dinheiro que não era deles, mas do fisco. Mas nada disso funcionou.

Estamos vendo, agora, mais propostas para renegociar o que não honraram. Repare que a estrutura que não honra é do 'clube', ou seja, demonstra como é necessário mudar para empresa, para que essa se enquadre no regime tributário, fiscal, trabalhista, enfim, que já tem normas e penalidades específicas.

Lamentavelmente, repito, acertei nos desmandos da Copa no Brasil assim como na renegociação da dívida fiscal dos clubes. Espero que consiga, como senador da República, ajudar a construir uma legislação que dê mais seriedade aos gestores do futebol.

ESPN – O Governo Federal transformou o Ministério do Esporte em Secretaria. Isso é um retrocesso na sua avaliação, considerando que o Brasil recebeu os maiores eventos esportivos do mundo e tem um legado patrimonial para administrar?

ROMÁRIO – Eu fiquei triste com essa regressão. Mas, sejamos sinceros, o que o governo ofereceu à população em geral em termos de proposta para o esporte? Nada! Temos um patrimônio inestimável, não só em construções, mas em equipamentos e outros legados, como o técnico, por exemplo, que herdamos dos megaeventos esportivos. No entanto, não temos estrutura de governo ou fora dele para aproveitar tal espaço.

Temos população carente da prática de exercícios físicos ou de esportes. Mas não temos projeto de governo para atender à população mais necessitada, às escolas, nossos estudantes. Políticas públicas de esporte são investimentos valiosos para as gerações que vão crescendo. Ganha-se na saúde, pois os garotos vão frequentar menos os hospitais e serviços públicos afins. Ganha-se na formação do caráter, principalmente.

Isso sem falar na indústria do esporte, que é uma das que mais contribui para a formação do nosso PIB. A expansão das academias pelo Brasil provocou o crescimento do parque industrial de equipamentos para essa área. Vestuários, calçados, setor alimentício, etc, tudo isso tem a ver com a indústria do esporte.

Não é só competição, é business, negócio mesmo. Mas o governo, inacreditavelmente, ainda não vê esse segmento como elemento de desenvolvimento nacional, não apenas humano, mas empresarial.

ESPN – Quando se comemora os 70 anos do Maracanã, qual o jogo que você disputou vem à memória?

ROMÁRIO – Brasil 2 x 0 Uruguai, em 1993 [jogo que ele fez os dois gols, e a seleção brasileira garantiu a classificação para a Copa do Mundo de 1994, a qual acabou ganhando com o então atacante sendo seu principal destaque].

ESPN – Você pretende se candidatar à Prefeitura do Rio de Janeiro de novo, na eleição deste ano?

ROMÁRIO – Não serei candidato à prefeitura este ano.