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Ex-técnico da seleção feminina defende volta do futebol: 'As pessoas estão enlouquecendo. Tenho amigo que bateu na mulher'

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Nenê, do Fluminense, confirma ter contraído coronavírus e agradece mensagens de torcedores (0:20)

Meia disse estar bem e no final do período de quarentena | via @nene (0:20)

Aposentado como técnico após mais de 40 anos de atuação, Renê Simões, 67, voltou à mídia para defender o retorno do futebol no Brasil mesmo diante da curva ascendente dos casos de COVID-19 no país. Os argumentos que deu em entrevista na última sexta-feira (26) acabaram repercutindo mal nas redes sociais até este sábado (27).

“Vamos discutir o futebol como fator social pra ajudar as pessoas em casa que estão enlouquecendo. Tenho amigos que já se separaram, outro que já bateu na mulher, outros batem nos filhos. Tão enlouquecendo. Se voltar o futebol pode ajudar em alguma coisa”, disse Simões, em determinando momento, durante entrevista para a rádio Central de Campinas, na sexta (26).

A transcrição e também o áudio original com o trecho citado acima foi compartilhando por inúmeros usuários no Twitter de sexta até agora. Alguns chamaram a declaração de infeliz outros de lamentável, relembrando que Renê Simões foi o comandante da seleção brasileira feminina na conquista da medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Aquele foi o melhor resultado da equipe até então em competições mundiais e é visto como o início de um trabalho mais sério na seleção. Rendeu para Simões elogios, homenagens e um novo status na carreira. Ao voltar ao país, acertou com o Vitória.

Depois trabalhou em equipes como Santa Cruz, Coritiba, Fluminense, Portuguesa, Ceará, Atlético-GO, Bahia, Botafogo, Figueirense e São Paulo, para citar os principais. Além de intercalar trabalhos internacionais em seleções como Irã (sub-23), Jamaica (onde já tinha passado de 1994 a 2000, levando o inexpressivo time para a Copa do Mundo de 1998) e Costa Rica.

Ainda assim, o trabalho à frente da seleção feminina permaneceu como o melhor momento profissional do treinador no futebol nacional. Gerou até um livro escrito por ele em 2007: “O Dia em que as Mulheres Viraram a Cabeça dos Homens”. O treinador relatava a experiência até a conquista da medalha de prata, como o trabalho motivacional usando bolas de Tênis.

A frase em que justificativa o retorno do futebol no contexto atual da COVID-19, citando os casos de agressão, repercutiu mal porque há um esforço crescente das autoridades para combater a violência doméstica contra mulheres. Muitos usuários do Twitter rebateram a mensagem de Simões dizendo que ele deveria denunciar o amigo e não pedir o retorno do futebol como remédio.

No início de abril (segundo mês da quarentena), o Núcleo de Gênero do Ministério Público do Estado de São Paulo apontou que o número de denúncias de violência contra a mulher no canal 180 cresceu quase 40% em relação ao mesmo mês de 2019.

Os outros argumentos favoráveis ao retorno das competições --até o momento somente o Estadual do Rio voltou a ser jogado no país-- também repercutiram mal para o treinador.

Ao ser questionado sobre o tema, ele diz que os jogadores não correm risco de vida porque são saudáveis. Como exemplo, cita casos confirmados que não levaram os atletas a óbito.

“Particularmente, eu tenho opinião, que é controversa, mas nós já tivemos mais de cem jogadores com COVID-19. Nenhum deles foi internado. Nenhum deles foi entubado. No mundo todo eu só conheço um caso que fugiu da regra. Foi o Dybala, da Juventus, que foi testado positivo. Quatorze dias depois, deu positivo de novo. Mais quatorze dias, positivo de novo. Mas resolveu tudo", disse.

"Não tem um caso de jogador internado, entubado. Por quê? Porque são pessoas extremamente saudáveis. Esse vírus não é para as pessoas saudáveis. Esse vírus quer as pessoas que tenham alguma deficiência. E os jogadores não têm. Esse é um ponto”.

É importante lembrar que o próprio Renê Simões divulgou que foi diagnosticado com o novo coronavírus no final de março. Curado, ele chegou a dar uma entrevista ao programa “Mesa Redonda”, da TV Gazeta, dizendo que ficou isolado por 14 dias.

"Senti dor de cabeça muito forte, a garganta subiu, algumas dores no corpo e um pouquinho de febre. Fui para o hospital e o médico me testou. Me disseram para ir para casa, que daqui a três, quatro dias eu teria o resultado. Por prevenção, resolvi me isolar no meu quarto e recebia comida através da porta, por 14 dias", disse na ocasião. Ele recebeu o resultado (positivo) 11 dias depois.

"O trabalho mental é importantíssimo para quem está em situações como essa, senão você fica aloprado. Se você não controlar seu pensamento, entra em parafuso, porque o que se planta é que você vai morrer. Passei a focar meus pensamentos para as coisas boas. Eu teria 14 dias para conviver comigo mesmo, para organizar meus pensamentos, e foi o que eu fiz", completou.

Pouco depois, em abril, ele voltou aos holofotes por disparar críticas ao então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

“Escuto há um mês o Mandetta falando que na próxima semana será o caos no país. Mas não chega nunca isso. Estou esperando. Agora já começam a falar em junho ou julho”, disse à rádio Grenal, de Porto Alegre. “Eu tenho uma rede de seis restaurantes, com mais de 200 funcionários. São pessoas que tem dependentes, que tem necessidades. Elas não terem dinheiro gera um impacto financeiro grande. Como elas ficam? Terminaram os outros problemas de saúde? O crime acabou? As milícias? O tráfico? Falavam que seria uma simples gripe no início e agora os mesmos estão fazendo terrorismo [...] Estão fazendo esse caos e projetando o pior, mas isso nunca chega nunca. Estou vendo um problema muito maior depois, que é a falta de trabalho, de dinheiro, a fome”, disse.

Até a sexta-feira (26), o Brasil mantinha o posto de segundo país mais afetado pela pandemia do novo coronavírus, com 1.274.974 de casos e 55.961 mortes. A curva de casos cresceu especialmente em maio, após a flexibilização, segundo especialistas.

Além dos restaurantes que citou, Renê Simões, que não trabalha como treinador desde a passagem pelo Macaé, finalizada em outubro de 2017, tinha participação acertada para um reality show produzido pela TV Globo, chamado de “Uma Vida, Um Sonho”.

O programa não tem data de gravação, mas está previsto para ser exibido no final do ano. Simões atuará ao lado de Joel Santana, técnico que está afastado dos gramados, com apresentação da jornalista Glenda Kozlowski.

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Nenê, do Fluminense, confirma ter contraído coronavírus e agradece mensagens de torcedores

Meia disse estar bem e no final do período de quarentena | via @nene

Veja outros trechos da entrevista*

"Discutiram a volta e só Botafogo e Fluminense não aceitaram [voltar a jogar]. Aí [os dirigentes] fizeram a tabela e a prefeitura pediu que não jogasse. Depois desmarcou, fechou tudo, voltou atrás. Então, nesse caso aí acho que a Federação… Particularmente, eu tenho opinião, que sei que é controversa, mas nós já tivemos mais de cem jogadores com COVID-19. Nenhum deles foi internado. Nenhum deles foi entubado.

No mundo todo eu só conheço um caso que fugiu da regra. Foi o Dybala, da Juventus, que foi testado positivo. Quatorze dias depois, positivo de novo. Mais quartoze dias: positivo de novo. Mas resolveu tudo. Não tenho um caso de jogador que tenha sido internado, entubado. Por quê? Porque são pessoas extremamente saudáveis. E esse vírus não é para as pessoas saudáveis. Esse vírus quer as pessoas que tenham alguma deficiência. E os jogadores não têm. Esse é um ponto.

O outro ponto é que dizem que o futebol voltando vai indicar que está tudo normal. Como está normal? Não tem torcida, os jogadores têm de ser testados o tempo todo, os gandulas higienizam a bola o tempo todo, pessoal no banco de máscara, a comemoração… Isso não é normalidade. Agora, isso vai fazer um bem muito grande para quem está em casa. O fato social de alguém que está em casa e não está com a cabeça só pensando no vírus. Pode estar pensando no jogo. Pode pensar na torcida. Está interagindo com outro torcedor.

Existe um aspecto social aí, que eu participei de um programa esses dias e o cara disse ‘Não, isso não pode porque se o jogador pega o vírus e fica doente, se ele morrer?’. Eu fiz uma pergunta, que acho que ele nunca mais vai me convidar para o programa. Eu perguntei: ‘Quantas pessoas morreram no supermercado?’. Perguntei se algum dia ele falou que tinha morrido pessoa no supermercado, se algum dia ele falou que tinha morrido alguém nas farmácias, nos postos de gasolina, falou dos policiais, dos médicos. Perguntei se algum dia ele reclamou que essas coisas estão funcionando. Porque alguém [desses setores] pode ficar doente também. Isso é sua necessidade. Você precisa comprar, precisa comer, precisar botar gasolina, precisa da farmácia. Então quando é a sua necessidade você não está preocupado com os outros? Vamos ficar preocupados com todo mundo. Vamos ter um pouco de clareza nas coisas.

Esses dias vi um programa de televisão em que um cara dizia que não podia recomeçar o campeonato porque a gente não tinha um ministro da saúde. Bom isso é não uma discussão desportiva. É uma discussão política. É outra área. Vamos discutir o futebol como fator social para ajudar as pessoas em casa que estão enlouquecendo. Tenho amigos que já se separaram, outro que já bateu na mulher, outros batem nos filhos. Tão enlouquecendo. Se voltar o futebol pode ajudar em alguma coisa."

*Entrevista dada por Renê Simões para a rádio Central de Campinas