Ex-Atlético-MG, Dedê recusou Barcelona e Bayern para virar ídolo do Borussia Dortmund

Toda vez que comparece ao Signal Iduna Park, Dedê é ovacionado como se ainda fosse o lateral-esquerdo do Borussia Dortmund. Em 13 anos de Alemanha, o brasileiro conquistou títulos, respeito e o eterno carinho da torcida aurinegra, uma das mais fanáticas do mundo.

E pensar que esta bela história de amor por muito pouco não aconteceu...

Depois de jogar oito anos na base do Atlético-MG, Dedê subiu aos profissionais - em 1995 - com apenas 17 anos.

“Estreei contra o Vila Nova-MG no Independência, porque os titulares estavam excursionando na China. Eu era muito franzino e alguns tinham dúvidas, mas pude aproveitar”, disse ao ESPN.com.br.

Em 1996, Dedê começou a ter mais chances e se consagrou no ano seguinte no Campeonato Brasileiro, quando foi eleito o melhor lateral-esquerdo pelo Prêmio ESPN Bola de Prata Sportingbet.

“Eu assinei um pré-contrato em dezembro com o Bayer Leverkusen, em dezembro, que pagou meio milhão de dólares. Depois, eles pagariam 7 milhões pelo meu passe".

Ele começou a fazer aulas de alemão e iria se apresentar no meio de 1998, mas o Leverkusen desistiu da transferência em março.

“O [empresário] Juan Figer atravessou o negócio e vendeu para eles, pelo mesmo valor, o Zé Roberto, que estava no Real Madrid e iria para Copa do Mundo”, explicou.

“Foi a melhor coisa que me aconteceu. No primeiro momento eu fiquei muito chateado, mas em agosto o Borussia Dortmund veio atrás de mim. Eu já conhecia o time por ter vencido o Mundial de Clubes em cima do Cruzeiro. A base era a mesma quando eu cheguei e eles me ajudaram muito”, contou.

Dedê sentiu dificuldades nos primeiros meses de Alemanha porque não tinha tradutor ou internet. Além disso, não conseguiu se dar bem com o método de ensino do professor de alemão que o clube disponibilizou a ele.

“Viajava de ônibus com um toca-fitas ouvindo palavras em alemão e português e ia treinando. Assim, aprendi bastante e passei a me comunicar melhor”, afirmou.

Dentro de campo foi tudo mais fácil. Em pouco tempo, ele virou titular da equipe que mantinha a base campeã da Champions League de 1997.

Dedê foi chamado por Vanderlei Luxemburgo para alguns amistosos da seleção brasileira em 1999 e era titular da seleção olímpica, mas acabou lesionando o joelho e perdeu espaço.

“O Brasil tinha muito lateral bom naquela época. Roberto Carlos, Zé Roberto, Júnior, Serginho, Felipe e tantos outros. Me senti realizado, mesmo tendo jogado poucos jogos”, garantiu.

“Em 2001, eu tinha uma grande chance de ir para a seleção da Alemanha. Teve um papo gigante por aqui por um tempo, mas eu não tinha o passaporte alemão e não fui convocado”, explicou.

Campeão no fim

Em 2002, Dedê conquistou o título Alemão pelo Dortmund com uma equipe que tinha Amoroso, Rosicky, Lehmann e Koller.

“O time começou a ser montado, mas o objetivo era ser campeão só depois de dois anos, mas as coisas começaram a acontecer”, contou.

“O Leverkusen era uma máquina, e o Bayern tinha um timão. Na última rodada, nós levamos um gol do Werder e fomos para o intervalo em terceiro”, contou.

Na etapa final, porém, o Dormtund conseguiu uma virada espetacular com a ajuda dos brasileiros. Dedê deu um passe para o atacante Ewerthon, que entrou no segundo tempo e fez o gol do título.

“O Ewerthon ficou p... porque começou no banco de reservas e me disse: ‘Eu vou fazer um gol hoje’. E foi isso mesmo. Ele tem personalidade muito forte, virou um grande amigo”, contou.

Recusou Barça e Bayern

Logo após a conquista, Dedê recebeu uma oferta do Bayern de Munique.

“Eu era titular do Dortmund, que à época pagava muito dinheiro. Não compensava eu sair para ser reserva do Lizarazu, que era um grande lateral”, recordou.

O Barcelona, que também tentou a contratação do brasileiro, ficou ainda mais perto de levá-lo.

“Eu fui à casa do antigo presidente do Borussia e mostrei a proposta. Ele me disse: ‘Você não vai’. E pagou a mesma coisa que eu receberia na Espanha. Na época, a diferença não era tão grande e o Barcelona não pagava esses super salários de hoje em dia”, contou.

A partir de 2004, o Dortmund quebrou e ficou com enormes dívidas. Vendeu vários de seus astros e reduziu os salários dos remanescentes.

“O clube brigava para ficar na primeira divisão, que já estava bom. Mesmo quando perdíamos, a torcida lotava o estádio e ainda batia palmas”, contou.

O Dortmund passou a investir na base e demorou alguns anos até colher os frutos. Dedê viveu todo o processo de auge, falência e reconstrução. Nas vacas magras, o brasileiro virou ainda mais ídolo dos torcedores pela fidelidade, já que também recusou uma transferência para a Roma, por volta de 2008.

Com a chegada do técnico Jurgen Klopp, Dedê começou a perder espaço por causa das lesões. Na temporada 2010/11, quando o Dortmund voltou a conquistar a Bundesliga, o brasileiro fez poucos jogos.

“Quando eu chegava ao estádio, o carinho da torcida era tão grande por mim que parecia que eu tinha feito o gol da vitória e era titular. O Klopp falava: ‘O Dedê está na reserva, fica quieto e respeita'. Isso era exemplo pra a molecada”, recordou.

No meio de 2011, Dedê se transferiu para o Eskisehirspor, da Turquia, onde se aposentou em 2014. Pouco depois, ele voltou a jogar pelo Dortmund pela última vez, em uma emocionante despedida oficial no Signal Iduna Park. “Foi uma coisa maravilhosa, é o reconhecimento por tudo que vivi. Uma passagem muito linda. Quando vou ao estádio e aos treinos sou muito bem recebido”

Desde que pendurou as chuteiras, Dedê chegou a ser auxiliar-técnico por um tempo, mas não quis mais seguir no futebol, apesar dos convites para ser empresário de jogadores e trabalhar no Dortmund.

Hoje em dia, divide o tempo entre Belo Horizonte e Dortmund.

“Faço eventos como embaixador do Borussia, mas não quero nada fixo agora. Nunca imaginei que pudesse ainda morar na Alemanha quando comprei a minha casa há 16 anos”, finalizou.