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Barcelona quer vender Philippe Coutinho, mas por que é tão difícil achar um comprador?

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Empresário de Coutinho diz que jogador pensa em voltar para Premier League; Natalie Gedra conta detalhes (1:10)

Brasileiro já foi sondado em Arsenal, Chelsea, Newcastle e Tottenham (1:10)

O Barcelona queria tanto Philippe Coutinho que passou uma janela de transferências inteira atrás dele, o perdeu de vista, ficou como bobo da história e ainda voltou quatro meses depois, fazendo dele o jogador mais caro da história do clube. Lionel Messi também o queria; ele disse isso ao presidente do clube, Josep María Bartomeu.

Andrés Iniesta disse que Coutinho tinha o perfil certo para ter sucesso no Barça. E o diretor esportivo disse que ele poderia ser, bem, Andrés Iniesta. Quanto a Luis Suárez, ele ri dos rumores de que ele trabalhou como agente imobiliário, mas ajudou Coutinho a encontrar uma casa. Ele também alertou seu ex-companheiro de Liverpool que não seria fácil.

Mas não era para ser tão difícil.

O mercado ficou maluco, todo mundo sabia (incluindo o presidente, que foi citado dizendo isso) e 120 milhões de euros, mais 40 milhões de euros em complementos eram demais. Mas o Barcelona conseguiu sua contratação. "Uma necessidade, não um luxo", afirmou uma manchete. Na noite anterior à apresentação do brasileiro em janeiro de 2018, Suárez insistiu: "Coutinho nos dará muito". Ivan Rakitic disse: "Sabemos tudo sobre a qualidade dele".

"Um grande jogador", disse Paulinho sobre Coutinho. "Ele é um jogador de futebol excelente, completamente ao estilo do Barcelona", acrescentou Jordi Alba.

É claro que eles diriam isso – ninguém nunca criticaria uma contratação tão grande para o seu clube - mas Suárez, pelo menos, sabia. Ele descreveu Coutinho como o homem que deu confiança ao Liverpool para manter a bola, cuja "qualidade técnica era tão boa" e "sempre escolhia o passe certo". Perfeito para o Barcelona. "Coutinho faz gols, dá assistências e pode ajudar a construir jogadas. Ele pode jogar por dentro ou aberto, na esquerda ou na direita", disse o então técnico Ernesto Valverde. "Ele é uma contratação importante."

Hoje em dia, é difícil evitar a sensação de que o Barcelona aceitaria que ele fosse contratado ... por outro clube. Qualquer um, em qualquer lugar. Faça um risco em cima de tudo e siga em frente. Com 25 anos quando foi contratado, Coutinho deveria ficar no Camp Nou por anos, um jogador para o futuro, uma solução a longo prazo. Dois anos e meio depois, a única solução que eles o veem fornecendo agora é econômica e chega a ser duvidosa.

Hoje em dia, a contratação mais cara da história do Barcelona é um problema.

Profundamente endividado, o Barcelona precisa arrecadar 70 milhões de euros (cerca de R$ 400 milhões) nesta janela, de acordo com reportagem de Sam Marsden e Moi Llorens. Seu orçamento já contava com a captação de 124,5 milhões de euros (R$ 710 milhões) em vendas este ano, e isso foi antes da pandemia de coronavírus. Eles já arrecadaram 62 milhões de euros (R$ 353 milhões), mas precisam de mais. Coutinho é a chave para isso, o jogador que eles pensam que podem vender para equilibrar seu balanço econômico.

Internamente, eles se apegam à ideia de que ele tem um mercado na Inglaterra, onde podem esperar arrecadar 80 milhões de euros (cerca de R$ 456 milhões). Isso é apenas metade do custo dele, e até isso pode parecer otimista demais. O Barcelona pensou da mesma forma na última temporada e, diante de uma falta de alternativas confiáveis, acabou emprestando o brasileiro ao Bayern de Munique. Em troca, eles receberam 8,5 milhões de euros (R$ 48,5 milhões) e outro clube para arcar com seus salários - 13,5 milhões de euros por ano, após impostos (R$ 77 milhões de reais) - mais a esperança de uma solução duradoura na forma de uma opção de compra. Não demorou muito para que eles soubessem que o Bayern não estava interessado. De volta à estaca zero.

"É puramente decisão do Bayern", disse o agente de Coutinho, Kia Joorabchian, nesta semana, mesmo sabendo que a decisão deles será provavelmente deixá-lo voltar à Espanha. Quanto aos preços, ele insistiu: "Ainda não discutimos nada por enquanto".

O que Joorabchian disse foi que Coutinho gostaria de voltar à Premier League um dia e, a cada novo dia, parece que há uma nova equipe interessada, segundo a mídia. Newcastle, Manchester United, Arsenal, Leicester. A realidade é que Coutinho está disposto a tudo para sair.

Às vezes, parece quase desesperado. Existe um sentido estranho, quase triste, em tudo. Não deveria ter chegado a esse ponto.

É verdade que Coutinho foi um desastre em Barcelona e parece ser um consenso geral de que ele tem que ir embora. No entanto, é um consenso que poderia ser contestado e, como tantas verdades aceitas, essa "verdade" não é inteiramente verdadeira. Na sua primeira metade de temporada na Espanha, quando Coutinho não pôde jogar na Champions League, ele teve momentos. Ele teve jogos com dois gols em LaLiga e na Copa, incluindo um na final da Copa do Rei. Ele marcou 10 gols em 22 partidas. Sua segunda temporada começou com o gol de abertura no El Clásico contra o Real Madrid.

E, no entanto, também é verdade que ele se sentiu desconfortável e que as coisas ficaram fora do seu controle rapidamente, com peso do valor da transferência e as expectativas acelerando sua queda. Ele marcou apenas um gol em seus últimos 20 jogos em LaLiga e se sentiu deslocado por muito tempo. Ele tentou jogar em posições diferentes, a formação mudou, e houve aquela sensação estranha de que seus melhores jogos vinham sem Messi em campo. Lesões e impaciência, além de dúvidas sobre o que ele era: meia ou ponta?

"Sempre achei que Coutinho era o substituto ideal para o Iniesta", disse o diretor esportivo Robert Fernández, mas como ele poderia ser? Ele não era o mesmo, nem como jogador, nem como personalidade. Valverde preferiu usar Coutinho no lado esquerdo da linha de três atacantes, não como meia. O técnico do Barcelona também disse que gostava do fato de Coutinho continuar tentando, mas havia uma sensação incômoda de que ele estava tentando cada vez menos, quase desistindo. Ele parecia tímido, sensível.

Talvez essa característica estivesse sempre presente: Suárez lembrou de dizer para ele "relaxar e apenas jogar" no Liverpool; enquanto no Bayern, Karl-Heinz Rummenigge sugeriu que ele era muito tímido. No Barcelona, isso é sempre um problema. Suárez havia avisado Coutinho: é preciso ser forte e estar pronto para receber críticas dos torcedores. O que aconteceu - e Coutinho respondeu, mostrando como isso o machucou. Quando marcou contra o Manchester United na Champions League, Coutinho comemorou colocando um dedo no ouvido.

"A menor coisa que você fizer - a menor, como Philippe fez outro dia, que foi pequena - [traz repercussões] e tudo ganha uma proporção maior [do que realmente é]", disse Suárez. "[Um jogador] ouve quando perde uma bola, ele ouve aquele zumbido, reclamações, e isso o afeta, e ele pensa: Nossa, os torcedores... nossa, e se eu perder outra bola? ’”

Coutinho fez. Logo, não era apenas a bola que ele estava perdendo eles concluíram. Era ele próprio. O Bayern surgiu, oferecendo um novo começo. Um ano foi suficiente para que os alemães não quisessem querem ficar com ele, então ele deve retornar ao Barcelona, mesmo que apenas para fazer as malas. E depois o quê? Onde? Quem?

Se o Barcelona acha que ele ainda pode ser um jogador de futebol que vale 80 milhões de euros (cerca de R$ 456 milhões), eles também sabem que ele provavelmente não é. Se eles querem vendê-lo, também sabem que um empréstimo lhes daria pelo menos espaço para respirar e pode ser a única solução. Mas mesmo um empréstimo não é uma garantia, não sem eles arcarem com uma parte de seu salário. Pode não haver vencedores.

O brasileiro não é o único jogador preso em uma gaiola de ouro, prisioneiro de seu preço e salário, um patrimônio de um mercado que não existe mais para ele – isso também acontece com James Rodríguez e Gareth Bale. E ele também não é o único jogador que o Barcelona está usando desesperadamente para tentar arrecadar fundos para contratar alguém que pode ir embora daqui um ano. Mas o caso dele é particularmente impressionante, como se já estivesse resolvido.

A história da contratação mais cara do Barceolna terminou aqui: não há futuro no Camp Nou. Coutinho deveria estar no auge, mas é como se todos tivessem desistido, como se ele e o Barcelona representassem um relacionamento sem reparos, com todo mundo jogando a toalha depois de apenas 18 meses vestindo uma camisa que pesa muito e que outros tiveram mais tempo para se adaptar. Mesmo que o técnico não seja o mesmo de antes, a identidade também não, mesmo alguns dos colegas de equipe não. Mesmo que ele não seja.

Bela contratação. Em vez disso, agora eles procuram uma estratégia de saída. O tanto que eles queriam Coutinho antes de contratá-lo, agora eles querem se livrar dele. Eles olham para Coutinho e tudo o que veem são cifras, fotos de outros jogadores que sua venda poderia ajudar a contratar... mas e se ele não sair? E se o seu valor cair? No fundo, o Barcelona deve saber disso. Tão importante quanto, os pretendentes de Coutinho também devem saber. O Barcelona sabe que não tem a vantagem em nenhuma negociação agora.

E aqui estamos nós, chegando a pensar que que todo mundo está esperando por algum clube em algum lugar que venha resolver todos os problemas, quebrando esse impasse. Mas e se esse clube não aparecer? E se, ficar “preso” com ele acabar sendo a única solução?

O que você faz com um problema como o de Coutinho? Bem, se tudo der errado, você pode tentar usá-lo em campo.