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A Champions League fez Mourinho e Mourinho fez a Champions League. Esse amor fará mais troféus?

A Champions League fez José Mourinho e, talvez, para uma geração de amantes do futebol, José Mourinho também ajudou a fazer a Champions League. Na maior parte de uma década, ele dominou a narrativa em torno da maior competição de clubes do mundo como nenhum outro técnico conseguiu. Desde seu primeiro triunfo, com o Porto, em 2004, até a última de suas três derrotas consecutivas nas semifinais com o Real Madrid, em 2013, quantos dos momentos mais memoráveis da história foram do Special One?

Primeiro veio sua corrida em Old Trafford, com torcedores irritados ao seu redor, comemorando o gol de Costinha aos 92 minutos que selaria uma vitória histórica por 3 a 2 no placar agregado sobre o Manchester United. Por mais espantoso que esse resultado tenha sido, o que ele fez com a Inter de Milão, no Camp Nou, seis anos depois, pode ter sido ainda mais impressionante.

Mesmo quando suas equipes não estavam ganhando, Mourinho ainda exigia atenção. Ele se escondeu em um cesto de roupas sujas para contornar uma suspensão, fez analogias comparando times de futebol com omeletes e introduziu um termo novo ao público inglês: gol fantasma.

Ele também fez uma falsa alegação contra um árbitro, Anders Frisk, afirmando que ele havia se encontrado com o técnico do Barcelona, Frank Rijkaard, em seu vestiário, durante o intervalo de uma partida de oitavas de final de Champions League. Frisk posteriormente recebeu ameaças de morte e se aposentou. A Uefa finalmente divulgou uma declaração exonerando Mourinho da responsabilidade por essa decisão, mas não seria a última vez que ele provocaria indignação com alegações conspiratórias.

Para o bem ou para o mal, você não poderia falar sobre a história da Champions League neste período sem citá-lo. Foram dez anos em que Mourinho administrou quatro clubes diferentes e não chegou às semifinais apenas três vezes.

Depois de conquistar o título com o Porto, ele levou o Chelsea à semifinal duas vezes em três temporadas, perdendo por pouco nas duas oportunidades para o Liverpool. Em seguida, veio a Inter. Sob o comando do português, a Inter se tornou o primeiro time a vencer Champions League, Campeonato Italiano e Copa da Itália na mesma temporada.

O Real Madrid contratou Mourinho na temporada seguinte. Antes de Mourinho, a política de transferências do clube no início dos anos 2000 havia sido definida por contratações de jogadores enormes - os chamados "galácticos" como Luís Figo, Zinedine Zidane, David Beckham e Ronaldo. "Este ano", explicou o presidente Florentino Pérez, "o galáctico é Mourinho".

Era a combinação perfeita – ou era para ter sido. Pérez e Mourinho compartilhavam a mesma prioridade: vencer a Europa mais uma vez. Embora o Real já fosse, naquela época, o time com mais títulos europeus, o clube espanhol não vencia desde 2002 – em busca de La Decima. Mourinho, tendo se tornado o terceiro técnico a vencer a competição com dois clubes diferentes, viu uma oportunidade de escrever seu legado, tornando-se o primeiro a fazê-lo com três.

A história é que, quando Pérez conduziu Mourinho pelo museu do clube no Santiago Bernabéu, ele parou em frente ao troféu da Champions e confessou ao seu novo técnico que "sentia falta". "Eu também", respondeu Mourinho. "E para mim, faz apenas alguns dias."

No entanto, de alguma forma, eles nunca fizeram isso acontecer, e mesmo agora as opiniões divergem sobre o tempo de Mourinho no Real Madrid.

Seus torcedores apontam que nada é garantido nas competições mata-mata e que a equipe havia passado seis anos sem sequer chegar às quartas de final. Eles observam Mourinho perdeu para o Bayern de Munique nos pênaltis em 2012 e por um único gol para o Borussia Dortmund um ano depois. Seus críticos dizem que o Real Madrid teve sorte com alguns confrontos antes das semis e que apenas o Manchester City gastou mais que os espanhóis neste período. O fato de seu sucessor, Carlo Ancelotti, ter vencido a Champoins League na primeira tentativa, chegando a bater o Bayern por 5 a 0 no placar agregado daquela semifinal, fez as coisas não parecerem nada boas para Mourinho.

Ainda assim, ele sempre fez parte das conversas de Champions League no Real Madrid; Mourinho mal teve chance de competir pelo troféu que ele mais cobiça desde então. Ele chegou a mais uma semifinal no início de sua segunda passagem pelo Chelsea. Depois de empatar em 0 a 0 com o Atlético de Madrid na partida de ida, a equipe de Mourinho abriu 1 a 0 em Stamford Bridge, mas sofreu o gol de empate antes do intervalo e acabou perdendo por 3 a 1.

As críticas subsequentes de Mourinho a Eden Hazard, que não conseguiu acompanhar o lateral Juanfran na jogada do gol de empate do Atleti, podem ter sido um ponto de virada. O Chelsea venceu a Premier League na próxima temporada, mas o relacionamento do técnico com Hazard se deteriorou e os jogadores começaram a perceber que o belga estava mudando seu estilo para tentar agradar o treinador – o que não deu certo.

Tudo isso alimenta uma narrativa maior com Mourinho, a de que ele se tornou egoísta demais, muito disposto a criticar seus jogadores abertamente. No Porto, na Inter e durante sua primeira passagem pelo Chelsea, ele foi visto como um técnico que protegia seus times, chamando a atenção da mídia para si mesmo, protagonizando coletivas de imprensa cheias de aspas fortes, apenas para desviar a atenção dos jogadores. Agora ele estava deixando outros se tornarem bodes expiatórios pelos fracassos de suas equipes.

A verdade é que essa não era realmente uma nova tática. Mourinho brigou com seus jogadores durante toda a sua carreira, e muitas vezes com as maiores estrelas. Em sua primeira temporada no Porto, ele afastou o goleiro titular, Vitor Baía, por um mês das atividades do time após discutir com ele. Em 2010, foi a vez de Mario Balotelli. A diferença era que, naquela época, as mensagens funcionavam.

No Porto, os jogadores viam um jovem técnico preparado para tomar decisões. Na Inter, o time estava seguro de que nenhuma exceção seria feita, mesmo que isso significasse prejudicar o potencial valor de venda de um jogador visto como um ativo importante do clube.

Existem inúmeras razões pelas quais isso pode não ter funcionado tão bem em Manchester, Londres ou Madri. As relações humanas são complicadas e matérias podem ser escritas inteiramente sobre o estado mental de cada time. Talvez tudo isso seja uma distração, talvez não. Foi a gestão de Mourinho que parou no tempo ou suas táticas estão ultrapassadas?

Em tempos de sucesso, ele zombava dos idealistas do futebol. "Há muitos poetas no futebol", disse ele depois de vencer a Liga Europa com o Manchester United em 2017, "mas os poetas não ganham títulos". Jonathan Wilson, autor de "Pirâmide Invertida", argumentou que, em um certo estágio, o próprio Mourinho se tornou um poeta, muito apegado à sua própria crença de que o trabalho duro e a disciplina defensiva poderiam superar qualquer coisa. Mourinho esteve certo por algum tempo, mas o futebol mudou.

No início de 2010, ele estava competindo com o tiki-taka do Barcelona de Pep Guardiola. Hoje, o melhor time da Europa é o Liverpool com a intensidade insana implementada por Jurgen Klopp. Tempos diferentes exigem soluções diferentes.

Nada disso significa que a janela de Mourinho para vencer a Champions esteja necessariamente fechada. É difícil para qualquer técnico permanecer no topo por várias décadas - há uma razão pela qual poucos o fizeram - mas não é impossível.

Em entrevista à Gazzetta dello Sport na semana passada, Mourinho foi questionado sobre a decisão de deixar a Inter pelo Real Madrid em 2010. Ele falou francamente sobre suas ambições, o fato de já ter recusado o clube espanhol duas vezes e o desejo de alcançar algo sem precedentes, ganhar a Champions League com três clubes diferentes.

Ainda assim, deixar a Inter ainda era difícil. Segundo o relato de Mourinho, o dono do clube, Massimo Moratti, disse a ele após a vitória na semifinal sobre o Barcelona que eles não o atrapalhariam em nada, que depois daquele desempenho, ele não devia mais nada ao clube. De fato, a Inter concedeu a ele "o direito de fazer o que eu queria. Mas não o direito de ser feliz. Na verdade, eu fui mais feliz em Milão que em Madri".

O vínculo duradouro de Mourinho com a Inter se destaca. O time vencedor da Champions League tem um grupo de WhatsApp, e os jogadores observaram que seu antigo técnico é a pessoa mais ativa nele. É um detalhe que parece ao mesmo tempo encantador, mas também revelador. É difícil imaginar um envolvimento tão próximo com seus jogadores dos tempos de Real Madrid e Manchester United.

O tempo dirá se Mourinho pode conseguir algo semelhante no Tottenham, ou onde quer que sua jornada o leve. Ele já deixou sua marca na competição de maior prestígio do futebol europeu. Mas, na sua opinião, pelo menos, a história ainda não terminou.