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Brasileiro perdeu a mãe, está sem receber há 4 meses, entrou na fila de ajuda do governo e não consegue deixar clube na Europa

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O depoimento de Vicente de Paula, do KF Bylis: sumiço de agente, mentiras e falecimento da mãe (2:32)

'Está impossível de morar aqui', disse o lateral-direito do KF Bylis Ballshi, da Albânia (2:32)

O sonho de jogar na Europa transformou-se em um grande problema para o lateral Vicente de Paula Mercedes. Desde que chegou à Albânia, há quatro meses, ele perdeu a mãe, tem convivido com calotes e não consegue retornar ao Brasil.

“Tive uma oferta muito boa por meio de um agente que tinha me visto jogar. Ele disse que o time precisava de um lateral e brigaria por títulos. Se fizesse um bom campeonato, tinha a chance de ir para a elite da Suíça, porque ele tinha contatos por lá”, disse o jogador do Bylis Ballsh ao ESPN.com.br.

Vicente conta que os problemas começaram logo que desembarcou ao país.

“Eu cheguei para acertar o contrato, mas o agente não estava. Tudo o que eles prometeram não cumpriram”.

Em fevereiro, a mãe do jogador, que ficou no Brasil, sofria com um câncer no pâncreas em estágio avançado.

“Ela ficou internada e eu queria voltar ao Brasil para poder ajudá-la e conversei com o presidente do clube. Ele me disse que não poderia me liberar porque tinha jogos importantes e que daria suporte, mas isso não aconteceu. Fiquei muito chateado e com angústia porque não podia fazer nada”, recordou.

“Falei que iria ao Brasil para poder dar forças para ela. Era um momento único porque morávamos somente eu e ela. Ele foi muito sangue frio e seco. Não me liberou porque eu disse que iria e voltava”.

No dia 15 de fevereiro, a mãe de Vicente morreu e ele não foi liberado pelo clube para ir ao sepultamento.

“Muito revoltante, foi uma pessoa que não teve sentimento nenhum pelo próximo. Nem conseguia falar com ele porque estava chorando muito. Era uma dor única”, lamentou.

Para piorar, o brasileiro garante sofrer com calotes.

“Em quatro meses, ele só me deu mil euros desde que eu cheguei aqui, que não era o meu salário. Desde que eu cheguei aqui, ele sempre mentiu para mim. Não sabia se era parte do meu salário ou parte de alguma outra coisa. Eu aceitei porque precisava e mandei quase tudo para o Brasil”, garantiu.

Vicente demorou quase um mês para conseguir um apartamento alugado pelo clube e, para se alimentar, precisava pagar o taxi até o hotel do clube.

Treino na quarentena

O Campeonato Albanês foi paralisado no dia 13 de março. Mesmo assim, Vicente diz que não parou de ir ao clube.

“A Fifa dizia que não poderíamos treinar, mas o clube nos disse que, se não fôssemos treinar, seríamos multados. Era algo muito tenso e não sabíamos o que fazer. A gente tinha que obedecer às ordens”, contou.

Mesmo precisando sair de casa todos os dias, o clube não fornecia equipamentos de segurança. O lateral precisou pagar máscaras e álcool gel do próprio bolso. A única fonte de renda de Vicente é uma ajuda de custo de 250 euros por mês que o governo albanês repassa para federação local destinar aos jogadores, pois os clubes pararam de pagar salários.

“Eu tenho me virado com esse valor para não passar fome. Meu contrato com o clube acabou em 23 de maio, mas o clube nunca me procura para falar sobre os salários”, afirmou.

Desde então, Vicente não consegue voltar ao Brasil por causa da pandemia de coronavírus. Ele buscou auxílio jurídico no Brasil com os advogados Pedro Marrey Sanchez e Marcelo Amoretty.

Além disso, pediu para o seu novo agente, Bruno Ricardo, conversar com a embaixada do Brasil para tentar resolver a situação.

“O Campeonato Albanês deve voltar no dia 3 de junho, mas eu não tenho cabeça para nada. Só penso em voltar ao Brasil de alguma forma. Está difícil porque não tem mais voo. O único que vimos foi dia 1º de junho, espero que eu consiga embarcar nele”, afirmou.

De Osasco para Europa

Natural de Osasco, o brasileiro começou como atacante na base do Audax-SP, antes de ser promovido aos profissionais pelo técnico Fernando Diniz (hoje no São Paulo), que o transformou em lateral.

“O Diniz me falou que poderia ter grandes frutos e mostrar meu futebol. E deu certo. Ele é um cara muito inteligente e um pai para todo mundo. Me ajudou bastante. Hoje ele está colhendo os frutos”, elogiou.

Vicente ainda jogou emprestado ao Atlético de Cajazeiras-PB antes de voltar para o Audax e disputar a Copa Paulista e a Série D do Brasileiro.

Em 2018, ele foi levado por Fininho, ex-jogador do Corinthians, para atuar no Lviv, da primeira divisão da Ucrânia.

“Foi difícil me adaptar ao país no começo por causa do frio e do sistema de jogo. Mas depois consegui. Joguei contra Shakhatr e Dinamo, fui muito bem e atuei em alto nível. Foi muito bom”, recordou.

Após ter o contrato encerrado na Ucrânia, em 2019, voltou ao Brasil antes de receber a oferta do Bylis Ballsh, da Albânia.

“Eu não vejo a hora de voltar ao Brasil. E que alguém possa me ajudar a voltar. Não posso ficar assim, vir para outro país e ter essa situação de não receber e passar por apuros. Não sei o que pode acontecer aqui. Está difícil demais. Estou passando muitas dificuldades”, desabafou.

Procurado pela reportagem do ESPN.com.br, o clube Bylis Ballsh não se manifestou.