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Como uma mensagem de texto mudou a vida de 'jogador de um bilhão' para pior...e melhor

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Uma mensagem bem-intencionada mudou a vida de Vincent Pericard, desencadeando, sem intenção, uma sequência de eventos que levaram a uma série de ações e pensamentos autodestrutivos.

No espaço de quatro anos, o jogador de futebol passou de treinar com Zinedine Zidane e jogar contra Thierry Henry para ficar sentado em seu apartamento olhando para seus comprimidos, imaginando se alguém se importaria se ele acordasse no dia seguinte ou não.

O futebol o havia comido e cuspido. Uma série de duras lesões somadas com dúvidas sobre si mesmo o transformaram de um homem que já foi considerado o primeiro possível jogador de 1 bilhão de dólares, tendo o holandês Edgar Davids como seu mentor, a alguém que luta nas ligas inferiores do futebol inglês com dívidas crescentes e tendências autodestrutivas.

Conversamos ao longo de 18 meses, e agora Pericard quer que você aprenda com a sua história.

"Quero que minha história signifique que ter potencial, ter talento não é um tudo", disse Pericard à ESPN. "Isso pode ir embora tão rapidamente por causa da saúde mental. Os jogadores devem olhar além de suas capacidades físicas, pois sua saúde mental é igualmente importante.

"Eu sou o principal exemplo de como isso pode dar errado se você não cuidar da sua saúde mental".

Pericard estreou na Juventus em 2002 contra o Arsenal; uma olhada muito aguardada em um jogador que já tinha um documentário sobre a sua vida: “O Homem Que Valerá Bilhões”.

Ele tinha 18 anos na época; um atacante com velocidade impressionante que chamou a atenção do técnico da Juventus, Marcello Lippi, que o contratou junto ao Saint-Etienne. Quando ele chegou, não sabia falar italiano - era tudo muito novo. Mas ele se ajustou. Ele era jovem e se impressionava facilmente na época; era parte de viver o sonho.

"Uma das minhas melhores lembranças foi do meu primeiro treino", lembrou Pericard. "Jogamos cinco contra cinco e Zidane passou por mim como se pudesse voar. Eu não sabia o que tinha acontecido."

Davids, o lendário meia holandês, passou seu telefone para ele, lhe dizendo para entrar em contato se ele precisasse de alguma coisa. Ele se lembra de contar piadas com Gianluigi Buffon. Era o novo normal dele.

Ele estava em seu segundo ano nos gigantes da Série A quando jogou no primeiro time, já tendo disputado partida – e marcado muitos gols – pelo time B da Juventus. A estreia chegou como substituto na partida contra o Arsenal pela Champions League de 2002. Ele enfrentou Thierry Henry e Patrick Vieira. Ele se lembra de ter enfrentado Vieira logo no início, e de ter trocado camisas com ele no final da partida. Seria o primeiro de muitos em sua jornada ao mais alto nível do futebol.

Depois veio a mensagem de texto que deu início à espiral autodestrutiva.

Ele e dois amigos da Juventus decidiram sair para tomar uma bebida. Eles queriam convidar a professora de italiano para participar. Pericard enviou a mensagem. Era inocente. Cinco minutos depois, o telefone dele tocou. Era um diretor da Juventus, e ele queria saber por que ele havia convidado sua namorada para tomar um drinque.

Logo depois, os três jogadores foram emprestados, com Pericard indo para o Portsmouth, na segunda divisão do futebol inglês.

Foi mais uma mudança na jovem carreira de Pericard, e a transição trouxe ansiedade. Mas ele começou muito bem, ajudando o Portsmouth a subir de divisão. Apesar de a Juventus querer ele de volta, Pericard assinou um contrato de três anos com o Portsmouth, tendo aprendido a amar a vida na costa sul da Inglaterra. Então as lesões começaram.

Ele sofreu quatro rupturas de quadríceps e também teve uma lesão no ligamento cruzado anterior. "Quando eu lesionei [o quadríceps] pela primeira vez, fiquei tranquilo", disse Pericard. "Mas, uma semana depois, me lesionei novamente, e aí aconteceu seguidamente mais duas vezes. Eu não conseguia melhorar. Foi quando as pessoas começaram a perder a fé em mim, e eu e minha família estávamos ficando preocupados. Isso me fez questionar o que estava acontecendo. Isso desencadeou um ciclo vicioso".

Ele foi para o Stoke City em 2006, mas lutou para se adaptar ao estilo de bolas longas. Torcedores e jornalistas começaram a criticá-lo e isso chegou até ele. Ele começou a fazer escolhas ruins; ele bebeu demais e saiu demais. Então, em agosto de 2007, ele foi preso por perverter o curso da justiça – depois que Pericard foi pego andando acima do limite de velocidade, seu sogro assumiu a culpa, mas então confessou que nem no carro estava, e Pericard foi preso por quatro meses.

Os jogadores mais próiximos, como Mamady Sidibé, companheiro de Stoke, podia ver que algo não estava certo com Pericard, mas imaginou que fosse por conta das lesões.

"O problema com Vincent era que eu não sabia que ele estava deprimido até se aposentar", disse Sidibé à ESPN. "Foi quando eu descobri que coisas não estavam indo bem para ele. Ele se machucou muito e não estava jogando o quanto queria."

"Eu sabia que ele não estava feliz. Mas nunca pensei que estivesse lutando contra a depressão".

O tempo todo, Pericard passava por turbulências diárias apenas para levá-lo aos portões do campo de treinamento.

"Não consegui encontrar uma saída", disse Pericard. "Você começa a se sentir inútil para sua família, para o seu clube, então por que você ainda se importa? Por que ir aos treinos? Então, você liga e diz que está doente e depois de um tempo você começa a pensar em por que ainda está vivendo se não faz nada? Esses pensamentos passaram pela minha cabeça e eu percebi que as coisas estavam ruins.

"Eu não deveria ter pensamentos como esse; não deveria ter pensamentos suicidas.

"Isso foi o que realmente me deu um grande impulso para procurar uma solução. Não era eu. Acredito na resiliência, mas o fato de estar pensando isso significava que eu precisava de ajuda.

"Eu não podia mais fazer isso sozinho."

O Stoke City havia contratado um psicólogo, se tornando um dos primeiros clubes ingleses a fazê-lo. Pericard começou a tratar sua mente, mas seu corpo ainda o decepcionava. Tendo perdido a forma física, ele foi dispensado pelo Stoke em 2009, assinou um contrato de pequeno com o Carlisle United, depois foi para o Swindon e viveu pulando de clube em clube até se aposentar em 2012.

"É difícil para um jogador desistir daquilo que ama", disse Pericard. "Mas estava na hora de fazer outra coisa. Assim que admiti isso para mim, senti o alívio mais incrível.

"Toda a pressão e expectativa foram embora. Mas, dito isso, eu tive que descobrir uma transição. Demorou dois anos para isso acontecer."

Nós nos conhecemos pessoalmente em janeiro de 2019. Naquela época, antes que tudo tivesse que ser feito remotamente devido à pandemia de coronavírus, Pericard estava no meio de sua graduação na BT. Ele tinha um time; era evidente como ele estava feliz ao descer as escadas em seu escritório no centro de Londres, com esse sorriso acolhedor. Ele estava confortável consigo mesmo.

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A essa altura, ele já havia tentado administrar seu próprio negócio. Primeiro, ele fundou uma empresa chamada Elite Wealth Management, procurando ajudar jogadores estrangeiros a se estabelecer no Reino Unido. Tinha interesse dos clubes da Premier League, mas, e ele mesmo admitiu isso, era muito ambicioso e, em vez de deixar ir por agua abaixo, ele decidiu parar negócio e foi para a faculdade.

Um diploma e um mestrado depois, e o Elite Wealth Management se transformou em um aplicativo chamado WhatsUp?. É um aplicativo de celular voltado para a conscientização da saúde mental, onde os usuários permanecem anônimos, mas estão conectados aos seus conselheiros. Todos os dias eles falam como estão se sentindo. Possui 1.000 usuários na Universidade de Portsmouth, e a empresa pretende expandir para outros setores.

"Sem entrar em muitos detalhes, tivemos vários casos em que ajudou os estudantes a parar de cogitar o suicídio", disse Pericard. "O aplicativo surgiu da minha experiência no futebol. Era um ambiente de muita pressão, com contratos de curto prazo e é impossível compartilhar como você está se sentindo.

"Você não pode simplesmente dizer: 'Gaffer, eu não estou bem hoje', porque no minuto em que você faz isso, você é visto de uma maneira diferente por seus companheiros de time, técnico e presidente. Isso tem implicações enormes, em termos de dinheiro e de tempo de contrato. “

O aplicativo tira a pressão de ter que digitar um número e falar verbalmente como você está se sentindo. Às vezes, é mais fácil pedir ajuda apenas digitando algumas palavras.

Ele fica agitado quando falamos sobre onde ele sente que o futebol ainda está em termos de saúde mental Ele admira o trabalho que a Professional Footballers Association está realizando com seu serviço por telefone 24 horas por dia e com a National Counsellor Network, que tem mais de 100 especialistas. Mas Pericard ainda quer que as partes interessadas se apoderem do problema e tragam processos e caminhos para superá-lo. Pericard se cita jogadores como Danny Rose e seu ex-companheiro de equipe da Juventus, Buffon, que falaram sobre sua saúde mental e disse estar satisfeito com as várias iniciativas surgindo no futebol, mas está preocupado que ainda haverá outros que ficarão em silêncio.

Ele incentiva todos e qualquer pessoa a falar sobre seus sentimentos e ser honesto sobre sua saúde mental. "Estou tentando usar meu passado para transmitir uma mensagem positiva - educação, saúde mental e negócios", disse Pericard. Ele sente que, se tivesse o apoio disponível agora, sua carreira teria terminado de maneira mais completa, com seu potencial, idealmente, realizado.

Entramos em contato com Lippi, que foi o primeiro técnico a usar Pericard, naquela partida contra o Arsenal pela Champions League de 2002. Ele enviou esta mensagem de volta: "Qualquer jogador que vá para a Juventus tem virtudes morais e técnicas de alto nível. Então, se não der certo, pode ser por muitas coisas. Me lembro bem de Pericard, mas não o acompanhei desde então. Espero que ele tenha resolvido seus problemas, eu o desejo tudo de melhor, do fundo do meu coração". Pericard riu, um pouco envergonhado pelas palavras de Lippi. "Isso é tão gentil", disse ele.

Ele fez uma pausa, como se quisesse fechar esse capítulo. "Parece outra vida", acrescentou. "Eu deveria abraçar minha carreira no futebol, mesmo que não tenha sido do jeito que eu queria". Ele então sorriu e terminou nossa entrevista pelo Zoom, pois tinha um cliente que precisava dele.

Ele se formará no programa de trainee em setembro, e as memórias voltam ao tempo em que ele ficou admirado quando Zidane passou por ele.

"Me sinto como aquele rapaz com muito talento e que está com os melhores jogadores do mundo, porque hoje eu trabalho com as melhores empresas do mundo", disse Pericard. "Tenho a aspiração de chegar ao topo e acho que estou mais satisfeito agora."

Reportagem adicional de Andrew Cesare Richardson.