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Meu Brasil x Suécia de 1994 foi em um voo para São Paulo com piloto-narrador que cornetava Romário

"P... que p..., Romário perdeu mais um gol feito! Ainda vamos perder este jogo". A narração e o comentário partiu do piloto do voo Varig que, na quarta-feira, 13 de julho de 1994, saiu de Petrolina (PE) em direção a São Paulo.

Eu estava dentro do avião, junto com integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e a equipe da produtora que faria os programas eleitorais de Lula, candidato a presidente pela segunda vez. Todos voltavam da Caravana da Cidadania do Rio São Francisco.

O comandante do voo – vou chamá-lo de Roberto – decidiu contar aos passageiros os melhores momentos da partida entre Brasil e Suécia, pela semifinal da Copa do Mundo de 1994. Começou a transmissão com o papo de praxe: "Este é o vôo número xis, de Petrolina com destino a São Paulo, tempo estimado de vôo é de três horas".

O piloto Roberto então revelou que teria a possibilidade de saber o andamento do confronto disputado em Pasadena, Califórnia. E ia passar para os passageiros os detalhes.

Na primeira fase...

Lembro de comentar para uma moça sentada na cadeira da janela: "Vai ser jogo duro". Tratava-se da segunda vez em que as duas equipes se enfrentavam no Mundial dos EUA.

Na primeira, ainda na fase de grupos, suecos e brasileiros jogaram em Dallas, Texas. E o que se viu no Pontiac Silverdome foi um time brasileiro pouco desenvolto, que saiu atrás quando Kennet Anderson fez 1 a 0 aos 23 minutos do primeiro tempo.

Carlos Alberto Parreira decidiu que Raí não dava fluência ao time. Sacou o meia e colocou Mazinho no lugar dele. Logo com um minuto do segundo tempo, Romário entrou pela esquerda, passou por dois adversários e, de bico, empatou a terceira partida dos brasileiros no Grupo B da Copa.

De volta ao voo

O comandante mostrou serviço. O colombiano José Joaquim Torres Cadena apitou o início da partida e o Robertão mostrou que devia ter seus 40 anos ao mandar o bordão de Fiori Gigliotti (uma dos grandes narradores da rádio brasileira) no sistema se som do Boeing: "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo".

Logo nos primeiros minutos, a seleção brasileira mostrou a que veio no Rose Bowl. Dominou o meio-campo e trabalhou a bola na vertical. As chances foram aparecendo. Chute perigoso de Zinho. Disparo na falta cobrada por Branco. Romário matou a defesa, escapou do goleiro Ravelli e só não fez o gol porque o zagueiro evitou quase na linha.

E tudo isso nos primeiros 45 minutos. O piloto ia avisando. "Branco acerta chute forte e o goleiro pega. Zinho bate torto e a bola sai. Romário quase faz um golaço". Mas já dava para perceber um tom acima na voz do locutor dos ares. Pensei: "O homem está ficando tenso. Espero que o avião esteja no piloto automático ou o copiloto está ali pronto para salvar".

Morro de medo de viagens aéreas. Avião, encaro. Helicóptero, nunca.

Mas já caminhando para o intervalo, Romário recebeu de Bebeto na entrada da área. Ele penetrou, tentou driblar o goleiro e na hora do chute acertou onde estava Ravelli. Foi a gota d’água na curta e recente vida de locutor do Roberto: "P... que p..., Romário perdeu mais um gol feito! Ainda vamos perder este jogo".

A voz esganiçada apareceu. Muita gente riu. E fiquei mais tenso, imaginando o homem dando uma cassetada no manche. "Assim não vejo a final", pensei assustado.

A situação ficou mais leve porque o primeiro tempo terminou e o Robertão ficou mais tranquilo. Tanto que, na segunda etapa, deixou a gente na ansiedade. Soube depois, que Raí entrou, o time tentou chutes de fora da área. Mas o gol de Romário, completando cruzamento de Jorginho, foi relatado com esta introdução: "Finalmente. Acabou o sofrimento. Romário, baixinho, fez de cabeça no meio dos zagueiros grandões da Suécia. Bem feito para o goleiro folgado deles".

Vamos lá: Ravelli deu uns passinhos diferentes mostrando bom humor depois de um chute perigoso de Romário que tinha passado perto do canto direito de sua meta.

O jogo estava nos minutos finais quando o Boeing taxiou na pista do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Resultado: vários passageiros, como eu, ficaram dentro da aeronave esperando o aviso do comandante. "Acabou. Brasil na final. Um a zero", contou o homem da cabine.

Desembarquei, me separei do grupo de petistas, subi um andar para a ala de embarque e escolhi uma cadeira num bar caro para dedéu que estava com televisões ligadas e pude ver os melhores momentos.

E vou dizer: o comandante da Varig foi fiel ao que aconteceu em Pasadena. Como o Brasil perdeu gols no primeiro tempo!!!

PS: mais uma vez inventei o nome do personagem (o piloto) porque não me liguei de perguntar. Se soubesse que iria contar esta passagem 26 anos depois, teria anotado.

*Luciano Borges é jornalista há mais de quatro décadas, cobriu várias Olimpíadas e Copas do Mundo, já trabalhou em Folha de S. Paulo, TV Globo, Band, entre outros veículos, e já há alguns anos está na ESPN Brasil