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Meu Brasil x Holanda da Copa de 1994 foi num bar em Salobro com direito a cachaça e briga com anões

O bar era pequeno, quatro mesas, um balcão, a dona Morena e uma tevê na proporção do bar. Pequena. Colorida. Ligada na TV Globo, que já tinha começado a transmissão de Brasil x Holanda, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1994.

Eu estava em Salobro, um pequeno povoado da microrregião de Irecê, na Bahia. A caminho de Xique Xique, município situado à margem direita do Rio São Francisco. Só que no meio do trajeto, ainda na rodovia BA 432, o motor da van, mesmo sendo novinha, começou a engasgar. Paramos em Salobro. Um mecânico pediu umas quatro horas para conseguir uma peça e sanar o defeito.

Era 9 de julho de 1994, um sábado, meio da tarde. Em Dallas, Texas, no estádio Cotton Bowl, o time dirigido por Carlos Alberto Parreira encarou o que considero o seu jogo mais difícil naquele Mundial, comparado apenas ao da final diante da Itália.

A Holanda, vice-campeã mundial em 1974 e 1978, tinha uma ótima geração em campo com Winter, Koeman, Jonk, Overmars, Bergkamp, Ronald De Boer e o clássico Rijkaard.

Pausa pro Rijkaard, vai

Voltemos a 1989. Tenho uma história que aconteceu naquele ano, na inauguração de um estádio bonitinho em Monza, na Itália. A CBF topou fazer um amistoso da seleção brasileira contra o Milan de Arrigo Sacchi e seus holandeses.

O técnico do Brasil, Sebastião Lazzaroni, já vinha de três derrotas seguidas numa excursão por Dinamarca e Suíça. Para não passar vergonha, ele escalou pela primeira vez um time no 3- 5-2, e o volante Bernardo (ex-São Paulo e hoje empresário) de líbero fixo na marca do pênalti.

O amistoso terminou sem gols. Da arquibancada, dois degraus abaixo do Ruud Gullit, que não jogou por causa de uma lesão, eu vi o compatriota dele dele jogar muito, mesmo sem quase nunca olhar para a bola. Sensacional! Terminou a partida, eu já estava na beira do gramado e entrevistei o Rijkaard.

Pergunta brilhante: "Alguma vez você achou moeda ou outro objeto na grama durante um jogo?”. Resposta espantada: “Nunca, por quê?". Aí o comentário iluminado: “Porque você não olha para o chão nem para a bola”. O holandês riu (ufa!) e mandou esta: "Treinei muito para aprender a controlar o jogo antes da bola chegar em mim.”

De volta a Salobro

Já com a partida rolando, entraram dois irmãos anões no bar da Morena. Juvenal e Giovânio. O primeiro era o mais velho. Os dois bons de conversa já se enturmaram com os forasteiros (eu, um cinegrafista e o assistente iluminador).

Os cabras eram fanáticos. Sabiam a escalação do time de Carlos Alberto Parreira de Taffarel a Romário.

Gostavam mesmo do Aldair, zagueiro baiano de Ilhéus. Os irmãos também apreciavam cachaça. E já entraram no bar animados.

Eu, naquela de fazer boa vizinhança com os locais, saquei da mochila uma Januária que tinha comprado junto com um segurança de Luiz Inácio Lula da Silva - sim, o Lula mesmo que depois virou presidente do Brasil e hoje - dois dias antes. Juvenal e Giovânio adoraram.

Por que eu estava no interior da Bahia

Tenho 42 anos de profissão. Sempre variei entre o jornalismo esportivo e passagem por redação de jornalões de televisão.

Em junho de 1994, deixei o Jornal da Band (do qual era chefe de reportagem) para trabalhar no programa eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, um dos candidatos à presidência da República nas eleições daquele ano.

A ideia era mostrar quando chegasse a campanha, de forma editada, os vídeos gravados nos últimos quase cinco anos de viagens do candidato pelos rincões do Brasil, passando pela caatinga, pelas plantações do sul, pelos povos da floresta e outros lugares.

Em julho, aconteceram as duas últimas caravanas, uma na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, e outra percorrendo o Rio São Francisco desde a nascente em São Roque de Minas, na Serra da Canastra e do queijo canastra, até chegar em Petrolina (PE), na divisa com Juazeiro (BA).

Muita coisa foi gravada, mas uma mudança nas regras do processo eleitoral de 1994 proibiu a exibição do material de vídeo captado em externas. Logo, nada foi usado.

E em 1º de julho, o dinheiro brasileiro passou a ser chamado de Real, e o plano implantado desde fevereiro se consolidou. O então ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, ganhou a eleição presidencial ainda no primeiro turno.

De volta aos anões, à cachaça e ao jogo

Em Dallas, Brasil e Holanda disputaram um primeiro tempo equilibrado, com poucas oportunidades de gols. A garrafa de Januária nem chegou ao intervalo da partida no Cotton Bowl. Os irmãos baixinhos já estavam altos xingando a forma burocrática como o Brasil marcava bem, mas saía lento ao ataque.

Mauro Silva e Dunga protegiam bem a defesa, enquanto Mazinho e Zinho ajudavam mais na recomposição do que na armação ofensiva. Aos oito minutos do segundo tempo, Aldair acertou um lançamento pa ra o Bebeto na esquerda, e o atacante também baiano cruzou certinho para Romário tocar de primeira e fazer 1 a 0.

Viva a Bahia, viva a festa que os irmãos Juvenal e Giovânio fizeram pulando pelo bar da Morena. A farra aumentou mais quando Bebeto entrou sozinho pela intermediária, Galvão Bueno berrou “vai Bebeto, vai Bebeto”, e o atacante mandou para a rede fazendo 2 a 0.

Sabe quando um gesto pega? Quando depois de um gol, o artilheiro se reúne com dois amigos (Mazinho e Romário) e fazem o gesto de embalar um bebê. Eram os três na tela, e os irmãos naquele “nana nenê” olha ndo para a televisão que estava em cima do balcão do bar. Parada decidida. No contra-ataque, o Brasil de Parreira ia demolindo a Holanda em 10 minutos.

O problema é que os holandeses souberam reagir. Bergkamp diminuiu um minuto depois de Bebeto.

Doze minutos depois, com uma bobeira da transmissão original, Winter empatou a partida completando um escanteio vindo da esquerda. Na visão original, só deu para ver a bola entrando. Os irmãos de Salobro acharam que era replay. Eu expliquei que não era. Que tinha sido uma bobeada do diretor de TV e do Dunga. A dupla me xingou, me chamou de cego e o clima ficou tenso.

A Morena entrou na discussão dando razão para o forasteiro que já tinha pedido linguiças para comer. Irritados, Juvenal e Giovânio foram embora e nem viram Branco cobrar uma falta mal marcada pelo juiz costarriquenho Rodrigo Badilla e fazer o gol da vitória. E do alívio do Brasil.

Foi o tempo de terminar o tira gosto e voltar para a van que já estava consertada. Chegamos em Xique Xique já de madrugada . Cidade recolhida em um sábado. Nem parecia que o Brasil era semifinalista da Copa do Mundo

P.S. 1: Claro que Morena, Juvenal e Giovânio são nomes inventados. Nem perguntei aos três como se chamavam. Falha de caráter jornalístico e pessoal.

P.S. 2: Estas linhas são fruto da loucura - e da edição - do Jean Santos, supervisor de conteúdo deste ESPN.com.br e que me convenceu a contar em primeira pessoa esta minha história particular com àquele jogo no caminho do tetra em 1994.

*Luciano Borges é jornalista há mais de quatro décadas, cobriu várias Olimpíadas e Copas do Mundo, já trabalhou em Folha de S. Paulo, TV Globo, Band, entre outros veículos, e já há alguns anos está na ESPN Brasil