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Analista financeiro projeta redução de 30% de receitas e clubes a perigo com a pandemia no futebol: 'A bolha vai estourar'

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A incerteza sobre o futuro do futebol brasileiro aumenta a cada dia de paralisação devido à pandemia do novo coronavírus. A saúde, evidente, é prioridade, mas clubes e federações miram o horizonte após a tempestade e já se debruçam sobre contas para entender o cenário. E, claro, não é nada animador. A CBF encomendou um estudo sobre as consequências à auditoria Ernst & Young. Mas com a velocidade da pandemia ele terá de sofrer atualizações. Para entender melhor a situação, a ESPN conversou com Alexandre Rangel, sócio líder de Entretenimento Esportivo da Ernst & Young no Brasil. A previsão é dura.

"Em linhas gerais vamos perder 30%, talvez mais, em termos de receitas dos nossos clubes, falando aí de Série A", diz Rangel.

Neste papo ele conversou sobre a necessidade de manuteção da fórmula de pontos corridos, o perigo de falência esportiva de alguns grandes clubes depois da crise e indicou uma tendência de diminuição de valores de salários e direitos de jogadores. A perda pode chegar a R$ 1 bilhão.

"Muito se fala dessa bolha do custo no futebol, ela vai dar uma estourada agora", analisa.

Rangel ainda projetou quanto tempo o mundo do futebol deve levar para retomar uma normalidade.

Confira a entrevista na íntegra:

Quão caótico é o cenário do futebol brasileiro diante dessa pandemia?

AR: Realmente é um cenário bastante desafiador. A gente está vivendo uma situação bastante dramática no futebol. Não é só o Brasil, mas no futebol mundial. O entretenimento como um todo ele vai ser uma das áreas mais afetadas por tudo isso. Talvez uma das áreas que vai ter mais dificuldade de retomar a sua vida normal. Não limitado só ao futebol ou qualquer outra atividade esportiva, mas também se a gente falar de parte de cinema, da parte de tudo que envolve lazer não digital. A parte de entretenimento que é basicamente a parte digital a gente tem visto que tem tido até um certo crescimento, filmes em casa, do streaming. Mas realmente quando a gente fala de eventos esportivos de massa com presença de clube, isso realmente vai demorar bastante. A gente fez esse estudo lá atrás para CBF, o impacto do futebol no PIB, a gente fez algumas análises até iniciais olhando quando seria o impacto no PIB Brasileiro, mas a situação de lá se agravou bastante. A gente vê realmente em linhas gerais que vamos perder de 30%, talvez mais, em termos de receitas dos nossos clubes, falando aí de Série A. Esse ano, no mínimo, quando a gente está falando de impacto de coronavírus no pior cenário. Talvez possa até ser pior, vai depender muito dos desdobramentos que vamos ter daqui para frente, da autorização das autoridades públicas seja para volta a treino e por conseguinte a volta a jogos, seja com portões fechados, o mais provável. A gente está falando de um impacto bastante significativo quando fala de perder um terço das receitas ao longo do ano. Parte delas recuperável para 2021, mas parte não é. A gente está falando de um impacto grande seja no Brasil ou seja lá fora que já trabalha, a sua grande maioria, ou no limite de receita-despesa ou até com endividamento alto. Então é bastante preocupante.

Muito se diz que o futebol não vai ser como antes, no período pré-pandemia e de altas cifras. A disparidade vai aumentar entre os clubes organizados como Flamengo, Palmeiras e Grêmio em relação ao restante no futebol brasileiro?

AR: Tudo que a gente vai falar aqui agora estamos falando em cima de um cenário que está muito fluído. São perspectivas que podem acontecer ou não. Mas tentando responder a sua pergunta: o nosso melhor entendimento do que a gente está vendo e quando a gente analisa o que está acontecendo no futebol a gente não pode esquecer de olhar o histórico de outras grandes crises econômicas que aconteceram no passado em outras indústrias. O futebol é mais uma indústria. Mas outras indústrias também passaram por crises muito graves no passado. Talvez não tão extremas, não tão diferentes da que a gente está passando agora com o Covid-19, mas são lições que a gente pode aprender. E aí se a gente olhar no curto prazo certamente o futebol vai passar por uma restrição muito forte de receitas e vai tornar todo o futebol de maneira homogênea mais pobre. Aquelas grandes transações ou as grandes receitas vão num primeiro momento diminuir. O que a gente entende é que num segundo momento existe uma tendência de retomada ao normal. Até porque tem uma questão muito interessante que a gente está analisando que é o seguinte: espera-se que o mundo pós-pandemia vai deixar algumas marcas nas pessoas. Uma das marcas vai ser a tendência do lazer mais em casa. Evitar um pouco o lazer na rua, evitar algumas oportunidades de entretenimento mais ao ar livre ou mais em locais públicos com muita gente. Pelo menos por bons anos. E se essa questão do covid-19 ela se postergar em ondas como alguns falam isso daí vai ser mais exarcebado. Então de certa forma o esporte se presta muito bem ao mundo do streaming, ao mundo das transmissões da tv. As pessoas vão ficar mais em casa. E ter oportunidade de lazer do nível de um esporte ao vivo vai ser bastante valioso. Vai ter muito menos ida a barzinho, a cinema, a teatro. E o esporte se presta muito bem a esse lazer em casa. Então o que a gente entende é que mais do que uma tendência permanente. A gente vai ter uma volta talvez rápida das receitas do futebol, mesmo com as restrições e com a diminuição do público. O matchday, seja no Brasil ou lá fora, não é o componente principal. O componente principal é a transmissão seja de tv ou de streaming. É a publicidade. Então isso deve se recompor bastante rápido. A tendência é voltar a uma normalidade. E aí em relação à disparidade é o que a gente sempre fala. Voltando ao mundo normal a tendência é que as coisas voltem ao normal. Só que existe um grande detalhe, isso vale para o futebol ou para qualquer indústria. Sempre numa crise quem tem mais dinheiro, quem está mais organizado, sempre sai melhor. Isso é fato. Ah, mas existem clubes que têm mais gasto, têm mais dispêndio, então esses vão sofrer mais do que outros que têm menos. Depende muito. Aquele clube que gasta mais, você citou exemplos de Flamengo e Palmeiras e existem outros, a gente pode citar Grêmio e Bahia, também muito organizados. Esses clubes têm muito mais crédito, muito mais credibilidade no mercado. A tendência desses clubes é ter uma capacidade, inclusive, de negociar bons acordos seja com fornecedores, com patrocinadores, seja com atletas melhores do que clubes que hoje já têm uma situação financeira difícil, que não têm crédito no mercado, que não têm credibilidade com os atletas, que não podem fazer uma negociação de redução salarial com os atletas porque nem pagaram a folha dos últimos meses. Vai reduzir o quê se não pagou nada? Até numa conversa que tive com pessoas influentes no futebol na verdade a nossa visão é de que o covid vai acelerar esse processo de separação entre clubes bem geridos - não maiores ou menores, não mais ricos ou menos ricos - mas bem geridos dos mal geridos. Aqueles que estão mal geridos, se essa pandemia se prolongar por alguns meses a mais do que se pensa, digo que dificilmente vão conseguir se manter íntegros para conseguir disputar campeonatos de Série A no futuro. Acredito que vamos ter uma seleção natural bastante agressiva nos próximos meses de quem se preparou para o inverno e de quem não se preparou.

No balanço do Flamengo de 2019 consta um teste de stress dizendo que três meses de paralisação seriam "absorvíveis". Quanto tempo os clubes aguentariam, na média, com essa paralisação?

AR: A questão vale para Brasil ou para lá fora. A maioria dos clubes não tem mais do que um mês de caixa para sobreviver a uma restrição dessa magnitude dessa que a gente está falando. Interrupção de receitas de tv, de bilheteria, postergamento de venda de jogadores, um caso bem provável, até a diminuição desse valor. Então a gente está falando realmente da maioria suportar, no máximo, um mês. Alguns desses clubes, a gente conhece mais aqui do que lá fora, são clubes que talvez não tivessem condições de estar operando hoje. Não está pagando atletas, fornecedores. São clubes que já se mostravam não viáveis economicamente na situação anterior e atualmente isso foi exarcebado. A maioria dos outros em estágios diferentes eles têm dois, a três meses no máximo. E quando a gente fala em três meses a gente está falando não só num cenário de aquilo que ele tem de receitas próprias, de caixa que ele acumulou, mas pensando naquilo que ele pode alavancar de crédito no mercado. Tudo isso entra na consideração dos famosos "testes de stress". A gente fechou o primeiro mês de restrição no dia 15. No meio do mês que vem será o segundo. A grande maioria, salvo exceções que talvez caibam em um mão, não tem condições de honrar os seus pagamentos se isso se postergar muito mais do que o começo do mês de maio. E provavelmente em junho, a grande maioria, salvo pouquíssimas exceções, já vão estar tendo de implementar medidas muito restritivas. Vale a gente relembrar o seguinte: a volta aos treinamentos que têm de preceder a volta aos jogos devem demorar de 15 a 20 dias, duas a três semanas até você começar a poder jogar mesmo que seja autorizado com portões fechados. E depois que você começa a jogar existe um prazo das tvs e empresas de streaming de pagar os clubes. Simplesmente voltar a jogar, que seja final de maio, final de junho, não é uma garantia de que você vai receber em um prazo de cinco, dez dias uma receita de televisão ou patrocinadores, que é muito importante. Isso demora às vezes 30, 60 dias. Então a gente tem de botar tudo isso na mesa e os clubes têm de se preparar para uma situação onde na melhor das hipóteses você vai ter um fluxo de receita, de entrada de caixa, que é o mais importante, só lá para agosto, setembro. Você pode ter algumas ações que estão sendo propostas, vamos postergar o pagamento do Profut, vamos ter algum apoio via Governo, antecipar Timemania ou receber de loteria que está se discutindo agora. Mas isso é ínfimo comparado com a perda de receita que você tem por não transmitir jogos, não jogar, não vender jogadores. Isso não resolve nada. Então aqueles clubes que já estão em situação de endividamento muito alto, atrasam salários, já têm dívidas, receitas penhoradas...é uma situação dramática. Imagine clubes que já anteciparam cotas de tv deste ano, já atenciparam sócio torcedor, já anteciparam cotas de patrocinador master. Se voltarem a jogar o que esses vão receber? Basicamente nada. Estavam contando talvez com premiações de Sul-Americana, Libertadores, Copa do Brasil, venda de jogador. E essas coisas vão enxugar. Se a gente já está com dificuldade de voltar um Estadual, um campeonato nacional imagina voltar um campeonato continental, como a Sul-Americana ou uma Libertadores? Vai ter de ser feito de uma forma completmente diferente. A gente não sabe o reflexo financeiro disso. Clubes como Palmeiras, Grêmio, Flamengo, Bahia e vários outros que são muito organizados vão ter muitas dificuldades. Vai existir um enxugamento, vai existir uma readequação a uma nova realidade pelo menos por um tempo. A gente acredita que volte o mundo normal. Agora quem estava em uma situação muito difícil, salvo alguma coisa muito extraordinária, um aporte que a gente não acredita que o Governo vá fazer porque tem outras prioridades ou a entrada de algum grande jogador, patrocinador na pessoa física para salvar - e estamos falando de centenas de milhões de reais, não é fácil achar que quem queira fazer isso numa injeção de tão curto prazo. A gente não entende como é isso vai sair do outro lado. Esses clubes realmente vão ter dificuldade e aí voltando à sua pergunta original: a gente acredita realmente que isso vai separadas ainda mais a distinção entre os bons gestores que se prepararam para esse inverno - ninguém achava que ia ser tão longo e profundo, mas foi, faz parte do jogo - e aqueles que não se prepararam e que agora num mundo normal, dentro das condições normais de negócio não têm realmente como seguir operando.

Quais seriam as medidas restritivas para um clube seguir e ao mesmo tempo sobreviver nessa balança?

AR: Não existe nesse cenário nenhuma empresa que esteja afetada diretamente pela pandemia e não esteja tomando medidas importantes. Ela está segurando pagamento a fornecedores, às vezes as empresas têm dinheiro, mas não sabe quanto tempo isso vai durar. Então a prioridade é realmente você pagar os empregados. Então às vezes você tem de renegociar com fornecedores a postergação de pagamentos, no futebol renegociar pagamentos de atletas, de direitos federativos que você comprou e você tem que postergar no tempo. Esse é um grande gasto dos clubes. Certamente a gente vai passar pelas medidas de reajuste salarial, como já estão autorizadas em geral e as próprias outras empresas do mercado estão adotando ajuste salarial com redução de jornada. É pouco provável que o futebol consiga resistir a esse ajuste. Mesmo depois que voltar a operar durante algum tempo acho que vão ser necessárias essas medidas. Se a gente pensar a folha de futebol de um clube mais o pagamento de direitos federativos isso representa mais de 60%, 70% da despesa. Alguma área você vai ter de focar e vai ser ali. Existem outras ações que você vai ter de fazer, certamente, em alguns clubes que permitam isso para reduzir custos em outras áreas. Então, infelizmente e certamente, a gente já está vendo e isso vai ser ampliado: redução de investimento e gastos com esportes olímpicos. Claro que você já tem algumas receitas garantidas, que são de projetos incentivados, mas existem muitos clubes são deficitários e se espera que tenha uma redução ali. A própria operação de clube social a gente entende que vai demorar um bom tempo para abrir uma piscina, uma quadra. O que é o grande risco que a gente tem de tentar evitar e já está vendo no mercado é a abordagem em clubes brasileiros a partir de clubes da Ásia, já que existe uma perspectiva de que a Ásia vai voltar antes, tentando negociar a aquisição de direitos e passes de jogadores brasileiros. É uma ação oportunista, nessa hora cada um defende o seu. Mas o nosso lado, que a gente tem de fazer, é dar soluções para que os clubes no mínimo consigam manter os seus jogadores e não numa situação de desespero tenham de vender os últimos ativos que tenham para financiar pelo menos o pagamento dos salários daqueles que vão permanecer no elenco. Já que a nossa legislação também é bastante restritiva no caso dos atletas de você fazer negociações específicas de redução de salário. É um problema que a gente enfrenta que os outros países não tem.

Nos últimos dias o Flamengo contraiu um empréstimo de R$ 40 milhões. Muita gente questionou o que está acontendo. É um movimento natural um clube buscar esse tipo de ação?

AR: Isso vale seja no futebol, na sua padaria ou na sua grande multinacional. Numa crise dessas onde você tem incerteza quanto a duração e profundidade da queda de receita a primeira coisa que você tem de fazer é proteger o seu caixa. E a proteção do caixa tem como principal foco proteger os seus empregados, que são os seus talentos. Então ações que qualquer clube ou empresa deveria fazer - ou já deveria ter feito imediatamente - é renegociar rapidamente os principais pagamentos. É fundamental. Todo mundo está fazendo isso, o futebol não pode ser diferente. Existem formas certas e erradas de fazer isso. A gente aconselha que faça da forma certa, negociada, com bom senso porque todo mundo é credor e devedor ao mesmo tempo. Se você faz algo ruim isso vai voltar contra você no mercado. Outra questão super importante no futebol para aqueles poucos que têm crédito no mercado tentarem usar linhas de crédito que tinham até antes da covid. Certamente são linhas de crédito com juros muito mais baixos do que novas linhas se eles forem hoje ao mercado financeiro, até pelo risco. Usar essas linhas de crédito mesmo que tenham caixa. Adicionem mais caixa porque, de novo, precisam ter gordura para atravessar o inverno que não sabem se vai durar um, dois, cinco meses. Qual a profundidade. Então tudo que você pode fazer para gerar caixa ou atrair caixa nesse momento é fundamental. No futebol não tem muito milagre. Existem poucas maneiras de você levantar dinheiro. Ou você se financia da torcida, a partir dos seus atletas, de patrocinadores ou do Governo. Da torcida dificilmente vai acontecer agora porque todo mundo está sob risco de perda de emprego, redução de receita. Então sócio torcedor, bilheteria é impossível. Patrocinadores de tv a gente tem uma postergação de campeonato que no mínimo você vai conseguir manter aquilo que você tem ou receber mais para frente. Então se você não conseguir levantar caixa no mercado financeiro você vai sobrar com as opções terríveis de sempre, que são financiar com Governo ou atletas. Como um clube se financia com Governo ou atletas? Deixando de pagar, não recolhendo a folha, pedindo empréstimos subsidiados. São alternativas que são ruins. Alternativas que ninguém quer fazer. Mas às vezes empresas são obrigadas a isso. No nosso futebol não existe possibilidade de concordata, pedir recuperação judicial junto com credores. A margem de manobra é pequena. Se você tem a possibilildade de recompor o seu caixa junto com o mercado financeiro normal, o ideal. Se você não tem vai ter de passar por um momento de redução de custos agressiva dentro do que a legislação permite para se enquadrar. Mas você tem outras situações nos clubes brasileiros hoje de infelizmente você já estar passando por esses problemas de atrasar salários, não pagar impostos e uma série de receitas suas empenhadas pela Justiça mesmo antes desse problema. E isso só vai se agravar. Para esses outros a margem de manobra é ainda menor. Um dia tudo vai sair, os campeonatos vão voltar a acontecer e as receitas vão entrar. Mas o tamanho, a profundidade do buraco que esses cavaram talvez seja uma profundidade que você não tenha mais como sair com soluções normais de mercado. Sempre é possível chegar alguém, milionário russo e injetar alguns bilhões e salvar grandes marcas no Brasil. Mas a gente sempre fala que é difícil você não estar preparado para uma crise dessas, passar por isso sem estar preparado e lá na frente se reeguer organicamente, com suas próprias forças, sua própria capacidade de geração de receitas. Não acontece em nenhuma indústria, não vai ser no futebol que isso vai acontecer. Então a gente olha com bastante preocupação o cenário. Tem gente que se preparou, tem gente que não se preparou. Ninguém esperava o que está acontecendo, mas faz parte do mundo de negócios crises que acontecem e se você não se preparou um dia uma crise dessas vai te pegar e levar para o fundo do mar. E não vai voltar mais.

Como se encaixa neste cenário um clube que já está em dificuldade e caiu no meio dessa pandemia, como o Cruzeiro, por exemplo?

AR: A gente criou um termo que a gente chama de falência esportiva para distinguir uma falência normal. Um clube não vai à falência, é uma entidade que tem uma outra estrutura societária. Mas o que é uma falência esportiva? Não vou nem usar o exemplo do Cruzeiro. Talvez a Portuguesa paulista seja o melhor exemplo. Um clube que estava na Série A, aconteceu um fato extraordinário, ali foi o covid-19 deles, entre algumas aspas. O que acontece quando você chega à falência esportivamente? Você tem dívidas tão grandes, custos tão altos e perda tão rápida de receita que você simplesmente não cai para a Série B e fica indo e voltando. A questão do clube vaga-lume. Você cai até o ponto mais baixo onde um clube pode cair. Você realmente do ponto de vista esportivo deixa de ter capacidade financeira de ser relevante esportivamente. De ter times competitivos até mesmo para séries intermediárias. Esse é um cenário. O grande problema de um clube grande quando ele cai nesse novo modelo, age antes do covid, onde não existe mais aquela garantia, daquela cota de guarda-chuva, ele cai com um peso muito grande. Vai ser muito mais difícil não só ele voltar, inclusive ele deve descer outros passos. Temos exemplos de clubes do Nordeste que caíram, foram para Série C, depois para D e hoje depois de muito tempo estão se reorganizando e voltando. O risco para esses clubes de maior peso de camisa, de maior história que por trás dele tem dívidas mais altas, que têm custos mais elevados numa situação dessas a queda ser muito mais profundo e levar a esse cenário de falência esportiva, que no fundo é a irrelevância esportiva no cenário nacional. É uma possibilidade que a gente vê real. Quando a gente fala de economia procura olhar pelo lado mais técnico do que histórico e emocional do esporte, que é sempre importante. Mas existem empresas grandes que diminuem e desaparecem. Outras entram. Se você olhar hoje na Série B existem vários clube, empresa ou tradicionais, muito organizados, querendo mostrar seu trabalho. Faz parte do mundo econômico ter empresas ou agora clubes que vão deixar de existir - ou deixar de uma forma muito menor - e outros que vão ocupar espaço. Abrindo espaço para clubes do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sul. Essa descentralização do futebol brasileiro se ela for acelerada pelo Covid-19 não deixa de ser uma coisa boa. Infelizmente para aqueles clubes que não vão estar entre nós - e certamente alguns não vão estar entre nós em breve - vai ser muito ruim. Mas vão ser histórias que vão ficar como outras histórias de outros clubes que a gente conheceu na nossa adolescência, eu e você, sou um pouco mais velho do que você, mas você se lembra. Clubes que já disputaram Campeonatos Brasileiros e hoje disputam Série C, Série B, não são mais clubes de grande massa, com torcida nacional. Isso é parte do jogo. Como o Athletico-PR era um clube que não era nada. Era talvez o terceiro, quarto clube do Paraná na década de 80 e hoje talvez esteja entre os cinco, seis melhores clubes do Brasil. Isso é parte de um processo normal a boa gestão leva ao sucesso e a má gestão leva ao fracasso.

É essencial para o futebol brasileiro ter um campeonato de pontos corridos por 38 rodadas?

AR: Sim, é essencial. Por quê? Vamos só comparar a Copa do Brasil, que é o mata-mata, com o Campeonato Brasileiro para a gente notar a diferença. Um campeonato paga aos clubes no total algo na casa de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões e o Campeonato Brasileiro paga R$ 2 bilhões. Por que o Campeonato Brasileiro vale cinco vezes mais do que a Copa do Brasil? É por que ele é muito melhor tecnicamente ou em termos de interesse? Não. É porque um campeonato de pontos corridos vale muito mais para os patrocinadores, para a televisão, para o streaming. Vale mais para todo mundo que está envolvido. Se a gente até olhar historicamente o crescimento econômico que o futebol brasileiro teve nos últimos dez, 15 anos, que foi acima de dois dígitos num país onde o crescimento econômico sempre fica ali entre de 1%, 2% na melhor das hipóteses - o futebol brasileiro tem crescido em termos de valor econômico acima de 10%, 12% ao ano nos últimos 10, 15 anos. Muito disso veio por conta da transformação do Campeonato Brasileiro de mata-mata ou playoffs em pontos corridos. Se a gente esse ano não tiver um campeonato de 38 rodadas e por conseguinte e de forma muito até justa até a tv reduzir os seus pagamentos porque vai estar com um produto menor, eu acredito que todos os problemas que a gente elencou nas partes anteriores da nossa discussão vão ser ainda muito mais exarcebados. E também vão afetar ainda mais os clubes grandes, mas de maneira muito mais dramática aqueles clubes pequenos que, principalmente nesse modelo novo de distribuição de tv, tirando pay-per-view, eles recebem uma visão muito próxima dos clubes grandes. Eles contam com isso. Sem essa receita seria uma tragédia bastante grande. Digo que é essencial. Você tem outros lugares no calendário que você poderia fazer esse ajuste. Talvez Copa do Brasil. Os Estaduais certamente seriam a primeira a opção, mas eles contam com alguma salvaguarda porque se alguma coisa voltar no futebol certamente vai voltar com uma limitação muito grande de viagens interestaduais. Então você vai acabar até encaixando o Estadual por uma necessidade de quase usar ele como um grande teste da volta dos campeonatos nacionais. Então por isso que acredito até que vão permanecer nesse começo, mas seriam algo a cortar. O cenário que a gente mais acredita é que os campeonatos vão tentar ser mantidos na maioria dos casos. Mesmo que avancem até janeiro e fevereiro. Existe uma discussão que pode ser feita em alguns torneio de formato Copa, como a Copa do Brasil, na questão de ida e volta. Por que existe a ida e volta? Para aproveitar o mando de campo, mas se você tiver portões fechados talvez perca sentido. Então você abriria possibilidade de datas. Acho que a última opção vai ser um Brasileiro de menos de 38 rodadas. Salvo se tiver um agravamento tão grande e prolongado da crise com restrições de viagens e hotel que tornem a logística do campeonato impossível. Aí você teria de pensar numa outra forma que seja palátavel até para televisão e para o streaming de como fazer o campeonato com menos rodadas, mas de forma mais simplificada. Não digo aquela coisa de jogar em São Paulo, que era uma fake news, mas uma coisa mais regionalizada, simplificada. Mas eu duvido que se tente como primeiras opções de não se manter o Brasileiro mesmo que ele se alongue até 2021.

Você falava em uma perda de 30% da receita do futebol brasileiro. Em números mais claro seriam quantos bilhões, qual o exato baque financeiro?

AR: Eu vi esse cálculo, acho que foi feito pelo Rodrigo Capelo e pelo César Grafietti. Alguma coisa na casa de R$ 500 milhões a R$ 2 bilhões. Por que essa variação tão grande? Porque depende muito do cenário de volta, se vai ser em agosto, final de julho, setembro, com ou sem Brasileiro. Mas se a gente pensar que futebol brasileiro hoje tem uma receita, vamos pensar em Série A, mais fácil. Na Série A 20% da receita dos clubes, dados públicos, mais ou menos é o matchday, com bilheteria, sócio-torcedor, receita de estádio para aqueles que têm, camarote. Isso aí praticamente perdido. Menos sócio-torcedor que não vai ser todo perdido, mas vai ser afetado. Certamente você vai ter algo que vá afetar num primeiro momento patrocinadores, como a gente já está vendo. E do outro lado mesmo que a gente mantenha num cenário os campeonatos com as mesmas rodadas, ou seja, as tvs vão pagar os mesmo valores que foram combinados, algo possível. Mesmo assim os campeonatos não vão caber, dependendo da volta, dentro de 2020. Então alguns desses pagamentos vão ser não mais em 2020, vão ser em 2021. Como falei, esses 30% ali dentro têm receitas que são recuperáveis em outros anos e têm receitas como bilheteria e sócio-torcedor que não são mais recuperáveis. Mas estamos falando ali de um impacto em torno de R$ 1 bilhão, distribuído para todos os clubes. R$ 1 bilhão com aquilo que vai se impactar no meio da economia é uma gota no oceano. Mas para nós que estamos nessa indústria que vive sempre uma situação financeira no limite, salvo pouquíssimas exceções, qualquer dinheiro a gente sabe que deixa de cair e é algo que dificilmente vai ter uma solução simples nas finanças de cada clube.

O Flamengo, por exemplo, vinha num caminho de buscar a contratação de nomes como Balotelli, comprou Gabigol da Inter por 16,5 milhões de euros. Isso vai ser mais difícil a partir de agora para os clubes que estão em cima, investidas mais altas serão mais difíceis?

AR: Não dá para dizer que vai ser mais difícil porque tudo nesse cenário depende de uma relação de poder econômico. A gente sempre parte do pressuposto de que os clubes europeus em geral são mais ricos do que os clubes brasileiros. Mas a coisa também não é tão simples assim. O que a gente está vendo inclusive nas discussões seja na Itália, seja na La Liga, seja na Liga Francesa, na Premier League é que existem, fora os clubes do topo, os clubes que estão na fixa intermediária para baixo estão passando por situações financeiras extremamente graves. Até um desses presidentes de liga até usou que 'olha, tirando daqui esses três, quatro clubes daqui de cima, o restante é tudo da mão para boca'. É até um termo que a gente usa em português. São clubes que não têm muita margem de manobra financeira para sobreviver a esse problema. Se a gente olhar para o outro lado é o que acontece no Brasil. Você tem talvez uma elite de clubes de boas gestão, não necessariamente todos do mesmo tamanho financeiro, mas que têm margem de manobra. E outros que não têm margem de manobra nenhuma. Sem individualizar no caso do Flamengo, mas olhando até a maneira mais ampla. Eu acredito, voltando àquilo que a gente falou: os grandes clubes que estão bem organizados, se fizerem boas manobras de gestão, e que a maioria tem feito pelo que vemos aqui e lá fora, eles vão sair dessa crise menos chamuscados. E outros vão sair bem afetados. Esses que saírem menos chamuscados num mercado onde um jogador X valia eventualmente 100 milhões de euros e vá passar a valer 30 milhões, pode ser que esse clube até tenha vantagem. Pode ser que aquele jogador europeu que custava 16 ou 20 vá achar o cara numa Premier League, na Itália, numa oferta por cinco. Se os clubes mais organizados aqui vão ter condições de fazer vai depender muito do tempo da volta dos campeonatos. Quanto antes eles voltarem melhor estruturados a gente vai estar. A gente não sabe como vai ser essa comparação entre Europa e Brasil. A mesma pressão que tem aqui de volta dos campeonatos eles estão tendo lá. E a Ásia está voltando mais cedo. Todo mundo está preocupado e essa é uma discussão que tem andado pouco, mas nos bastidores do futebol isso tem sido muito preemente para se tentar que o mundo do futebol não volte muito diferente entre si nos momentos. Aí você vai criar até um desequilíbrio muito grande, onde países vão ficar extremamente fragilizados sob o ponto de vista de manter seus jogadores em relação a outros. É um pouco da discussão que está acontecendo agora entre Europa e América do Sul com a Ásia. Então essa preocupação de não tentar descasar demais se for possível, em que respeitar a situação da pandemia em cada país, mas se for possível todo mundo vai tentar entrar com um menos de diferença entre sí por conta desse problema. Aí, sim, você criaria um desequilíbrio. Acredito que isso não vai afetar tanto os grandes clubes. Agora o que vai acontecer? Todo mundo vai renegociar aquilo que tinha de pagar e por conseguinte vai receber menos, os jogadores vão valer menos, os passes vão cair, os salários vão diminuir num primeiro momento. Então se fala muito dessa bolha do custo no futebol, ela vai dar uma estourada agora. E a tendência é que em algum tempo no futuro, se vai ser um ano, dois anos ou não, isso volte a padrões mais normais. Até porque, de novo, o futebol e o esporte em geral vão ser uma das alternativas de entretenimento mais interessantes desse mundo. Que a gente está chamando de novo mundo, o novo normal, onde as pessoas querem uma economia menos touch, né? Com mais distanciamento social, menos multidões, uma coisa mais intimista. Isso tem também alguns atrativos a longo prazo para o esporte e aqui para o Brasil, no caso, para o futebol.

Acredita que essa mudança impacta na negociação de direitos de transmissão no futuro? A TV aberta com menos força, o streaming vai crescer?

AR: A gente acha que vai ter espaço para todos. A TV aberta por um tempo vai ter ainda. Ela afeta um grupo do público e tem uma penetração de massa como a gente está vendo agora na academia. Ela tem uma capitalização muito maior do que o streaming, muito maior do que o cabo. Então não dá para se pensar em abrir mão de tv aberta nos próximos 10, 15 anos talvez.. Difícil fazer previsões de tecnologia porque todo muda muito rápido, mas é o cenário atual. Agora é fato o seguinte: direitos esportivos já estavam e vão acelerar cada vez mais em termos do seu valor. As pessoas vão dar muito mais valor aos direitos esportivos do que antes. Como as grandes empresas hoje entram aqui no Brasil, buscando conteúdo de streaming. Streaming como o cabo, mas muito mais do que o cabo, não tem limitações de quantos canais, de quanto conteúdo você pode divulgar. Você ter um produto, se tiver bem arrumado como o Campeonato Brasileiro, ele vai ter espaço internacional. Vamos pensar agora com esse processo que foi feito agora da venda iminente do Brasileiro para o exterior. As pessoas vão estar ávidas por conteúdo, as pessoas vão estar saindo menos, vão estar se entretendo mais em casa. A chance delas se interessarem por um conteúdo novo, exótico como o Campeonato Brasileiro, ela é bem interessante. Então é um momento bom para você divulgar o produto. E isso vai trazer uma atração maior no futuro, seja internacional. E, de novo, nacional também. A gente está vendo aí um novo contrato em 2024 para a Série A. Essas negociações acontecem muito antes. Em 2021 ou 2022 elas vão estar andando ou finalizadas. Acredito que certamente tudo depende da forma como seja negociado. É um conteúdo extremamente atraente e essa pandemia só vai reforçar a importância do streaming e da televisão como forma de divulgação. Por outro lado os clubes têm um conteúdo que valem muito dinheiro e vai ter de ser muito monetizado na próxima negociação. Essa nossa recomendação aos clubes: valorizem o que você têm que vale muito dinheiro.

Nesse estudo pedido pela CBF para vocês elas demonstra uma preocupação com o futuro diante da pandemia. É um momento de ruptura no cenário do futebol brasileiro?

AR: Eu não digo ruptura. Acredito mais em uma aceleração de tendências. A ruptura pressupõe um tempo de você mudar de um modelo para o outro um momento de desorganização. A gente já está num momento grande de desorganização por outros motivos, motivos econômicos. Acho que a tendência dentro do futebol é com esses atores convergindo no momento até por uma estratégia de voltar a uma nova normalidade e aprofundar discussões no futuro. Hoje o futebol mundial passa por uma discussão muito grande entre Fifa e Uefa, que é pública, né? Sobre qual o papel da própria Fifa regulando todo um processo novo do futebol internacional, a Fifa buscando a globalização do futebol, a globalização dos grandes clubes, uma resistência um pouco da Uefa em relação a isso. Aqui no Brasil uma migração do interesse do clube do interesse dos campeonatos estaduais para os campeonatos nacionais. Quer dizer, todo mundo olhando para o futebol de maneira mais global, gradativamente global. Questionamentos na Europa sobre papel dos campeonatos nacionais frente à Champions League, interesse cada vez maior pela Champions e menor pelos nacionais. É um pouco do paralelo que a gente faz aqui entre estadual e nacional no Brasil. Então a gente não acredita que isso vai mudar radicalmente nos próximos três, quatro anos. A gente acredita que essa crise vai extremar ainda mais a situação. E a necessidade de você buscar para o futebol dinheiro e receitas. E, de novo, você que trabalha na tv sabe que pode tentar vender qualquer produto, mas só consegue vender na prática aquilo que a audiência quer. O que a audiência hoje ela quer são campeonatos relevantes, campeonatos globais, quer estrelas, bons jogos, espetáculos, entretenimento. E isso o futebol tem que dar cada vez mais. Acho que ano passado foi um ano muito bom em termos da discussão da qualidade do Campeonato Brasileiro. E isso não vai parar quando retomar. O público vai querer cada vez mais um futebol brasileiro com astros, qualidade, futebol ofensivo. Todo mundo ganhou muito dinheiro com isso no ano passado. Tivemos recorde de bilheteria, de sócio-torcedor, independente dos clubes que ganharam ou não campeonato a maioria teve um ano financeiramente melhor em relação ao anterior. Alguns que tiveram melhor gestão aproveitaram melhor isso, outros não. E isso é uma tendência que vai continuar. Não tem mais volta atrás. Agora ruptura a gente acha muito pouco provável porque uma ruptura agora seria botar mais uma interrogação em cima de várias interrogações que temos hoje. Talvez não seja o melhor caminho neste momento.