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Com dívidas e elenco em formação, Vasco tem difícil luta para impedir novo abalo em sua história

Série: Os assuntos mais urgentes dos clubes brasileiros em meio à parada forçada

Vasco da Gama, a tua fama assim se fez. Um dos versos do lindo hino do clube é hoje um alerta às avessas. A realidade do Cruz-Maltino não é nada boa. Há tempos. O presidente Alexandre Campello admitiu no fim do ano passado que a dívida, até então na casa dos R$ 700 milhões, ainda causava transtornos no planejamento.

O problema é que de lá para cá, o cenário não evoluiu como se esperava. A diretoria planejava uma série de operações financeiras para quitar vários destes passivos, entre salários, ações trabalhistas e tributos, e ter um respiro no fim do primeiro semestre de 2020. Mas aí surgiu o coronavírus, os impactos nas receitas, e o Vasco agora já fala até mesmo em redução do elenco (e não de salário, como o Atlético-MG, por exemplo) para enfrentar a crise financeira.

Há, sim, campanhas bem-sucedidas, ainda que não finalizadas. O Vasco entrou na terceira fase de arrecadação de recursos para a construção de seu novo centro de treinamento, na zona oeste do Rio de Janeiro. A partir de um programa de financiamento coletivo, a torcida transformou paixão em doação, e o clube já tem R$ 4,5 milhões.

O Vasco está na terceira fase de arrecadação para a construção do CT, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, voltado ao futebol profissional. Até agora, o clube já arrecadou mais de R$ 4,5 milhões dos R$ 7,5 milhões previstos no custo inicial do projeto.

Só que dentro de campo, o cenário ainda é desolador. O último respiro de empolgação foi no segundo semestre da temporada passada, quando Vanderlei Luxemburgo, então técnico, conseguiu uma sequência de bons resultados, tirando o time da lanterna e fechando a campanha numa honesta 12ª posição. Mas é o Vasco da Gama, um time cuja história não permite naturalizar como meta principal escapar do rebaixamento.

Ainda no fim de 2019, Abel Braga foi contratado. Na coletiva, disse que o presidente já havia avisado para não esperar salários em dia. Não era piada, e o treinador pediu demissão em março, depois de 14 jogos e um aproveitamento de apenas 40%, insuficiente até mesmo para levar a equipe às semifinais da Taça Guanabara.

Durante a parada forçada, o Vasco anunciou Ramon Menezes, naquela velha e boa tentativa em transformar ídolos do passado em técnicos de sucesso. Chegaram também Antônio Lopes como coordenador técnico e Carlos Germano como preparador de goleiros. Sim, os ecos da Libertadores de 1998 ainda ecoam por São Januário.

Vai dar certo? Tudo depende da régua de expectativas do clube e do torcedor. Classificado à segunda fase da Copa Sul-Americana e derrotado em casa para o Goiás na partida de ida pela terceira fase da Copa do Brasil, o Vasco precisaria de uma conjunção improvável de fatores para sorrir até o fim do ano. Mas, ainda que com dificuldade de se reforçar no mercado, Ramon terá a principio um elenco razoável para ao menos ser competitivo no Campeonato Brasileiro - leia-se, as dez primeiras posições da tabela.

Germán Cano, Talles Magno, Fredy Guarín, Yago Pikachu são os diferencias técnicos. O meia-atacante Martín Benítez, vindo do Independiente por empréstimo, ainda não estreou. E há também os líderes veteranos, como o zagueiro Leandro Castan e o goleiro Fernando Miguel. O grupo ainda é recheado por bons valores vindos das categorias de base. Além do próprio Talles Magno, recuperado de lesão, o Vasco conta com Tiago Reis, Marrony, Juninho, Vinicius, Andrey, entre outros.

Mas é ainda um time bastante desequilibrado, dono de uma marca preocupante: apesar da boa fase do recém-chegado Germán Cano, foram apenas 8 gols em 14 jogos na temporada, o pior retrospecto entre os clubes da Série A. Além disso, derrota para Flamengo, Botafogo e Fluminense nos clássicos do Campeonato Carioca. E o meio de campo sente a falta de bons articuladores, o que ficou ainda mais evidente na curta passagem de Abel Braga.

Ao torcedor cruz-maltino, resta acreditar que este time ainda em formação possa dar liga e superar os bastidores frágeis. Um mês antes de o coronavírus interromper o calendário do futebol, os jogadores pararam de conceder entrevista como forma de protesto pelos atrasados de salários. Para a estrela voltar a brilhar na terra, o Vasco terá que contrariar a lógica de um clube que viu suas pretensões dentro de campo minguarem na última década.