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Do dinheiro da TV ao calendário: por que nem 'boa vontade' da CBF anima líder do Paulistão para 'recuperar' elenco

O Santo André iniciou esta quarta-feira com 11 jogadores a menos em relação aos 28 inscritos no Campeonato Paulista. E vai perder mais oito até sábado. Todos com contratos encerrados. É a equipe do torneio mais afetada até agora pela quarentena. Até por isso a presidência não vê com tanto entusiasmo a possibilidade de a CBF permitir a extensão dos contratos.

Na última terça-feira, em comunicado, a Fifa recomendou que as confederações nacionais ajudem seus clubes a fazerem a extensão contratual com os jogadores como alternativa para concluir as competições interrompidas por causa da pandemia do novo coronavírus.

O Paulistão foi paralisado há três semanas.

A medida ainda não foi repassada pela CBF aos clubes nacionais, pois, segundo apuração da ESPN na terça, a adoção por parte da entidade está em avaliação pela sua Diretoria de Registro e Transferência.

O presidente do Santo André, Sidney Gerson Riquetto, 73, vê boa vontade da CBF, mas não enxerga uma solução prática.

“Acho que para contratos já encerrados, que é o caso do Santo André, ficamos impossibilitados de tomar uma atitude. Para os contratos que estão perto do final fica a dúvida: prorrogar sim, mas até quando?”, disse o presidente para a reportagem.

Até o momento não há previsão de retorno das competições. A Federação Paulista de Futebol (FPF) deu férias aos funcionários até 22 de abril. Mesma ação tomada por clubes que disputam as Séries A e B do Campeonato Brasileiro, previstas para iniciar em maio.

“Vejo que a CBF parece estar disposta a abrir o calendário para permitir que os Estaduais sejam concluídos. Mas ela não pode garantir isso se a quarentena se prolongar por muito mais tempo. Ela vai espremer o Campeonato Brasileiro?”, disse o dirigente.

“Trazendo para a nossa realidade, o Paulista precisa de seis datas, duas para encerrar a primeira fase e quatro para o mata-mata final, certo? Acertamos na reunião com a Federação Paulista pelo menos 15 dias de pré-temporada para os jogadores recuperarem a forma. E não podemos esquecer que há clubes que têm compromissos pela Copa do Brasil, Copa Libertadores ou Copa Sul-Americana. Ficará tudo espremido. Pelo que acompanhamos oficialmente, estamos no pico do coronavírus. Não vejo uma situação favorável até junho”, acrescentou o presidente.

O Santo André tem outra dificuldade para manter o elenco. Alguns jogadores que estão no fim de seus contratos já tinham clubes interessado. Um deles já tem acerto com outra equipe.

O atacante Ronaldo, artilheiro do time no Estadual com cinco gols, assinou um pré-contrato com o Sport, que passará a valer a partir de 11 de abril, um dia depois do fim do vínculo com o Ramalhão.

Já aqueles que estão ou vão ficar desempregados esbarram em um problema legal. A Lei Pelé determina o mínimo de três meses para o acordo contratual entre clubes e jogadores.

Ainda que o Santo André avance até a final do Estadual, os três meses podem ser demasiados ou insuficientes para concluir o campeonato, dependendo da data em que a quarentena acabar. E a questão financeira fala mais alto.

As equipes que não fazem parte da elite do futebol dependem quase 100% da receita obtida pela TV no Estadual. Mas, como o torneio foi suspenso, a TV Globo não repassou para a Federação Paulista a última parecela referente aos direitos de transmissão.

A cota total dos clubes que vieram da Série A2 do Paulista (como Santo André, Inter de Limeira e Água Santa) é de R$ 4,820 milhões. Falta receber o valor bruto de R$ 1,2 milhão pela última parcela.

Para o Santo André, com os descontos de impostos, adiantamentos feitos etc., serão cerca de R$ 600 mil no caixa.

“Contamos com esse pagamento para quitar os salários pendentes. Ainda teríamos uma outra receita, confirmando a classificação para as quartas, pela premiação. O quinto colocado do campeonato tem assegurado um prêmio de R$ 500 mil”, disse o presidente.

“Precisaríamos contar com o apoio da CBF e a boa vontade dos sindicatos para fazer novos contratos menores, menos do que os três meses previstos na Lei, assim que as competições voltassem. A Federação teria de permitir novas inscrições e, provavelmente, os jogadores vão ter que trabalhar com salários mais baixos. A situação exige uma mudança completa”, disse.

A maioria dos contratos do Santo André encerrou na última terça, dia 7, data escolhida por ser a primeira após a conclusão das quartas de final, caso o torneio tivesse prosseguido. Se a equipe avançasse, uma cláusula garantia a prorrogação do vínculo por mais um mês.

O time tinha a melhor campanha do Estadual, com os mesmos 19 pontos do Palmeiras, mas uma vitória a mais.

“O Santo André é favorável a continuidade do Paulista até porque fazíamos uma bela campanha e estávamos próximos de resolver nossas vidas em 2021. Já asseguramos a permanência na A1 em 2021 e buscamos uma vaga na Série D do Brasileiro de 2021 para ter um calendário anual”.

“Essa indefinição afeta e incomoda a todos, mas não podemos ser irresponsáveis. A saúde é mais importante”, completou o presidente.

Ele está seguindo a risca as recomendações. Está isolado em seu apartamento, em Santo André, sozinho. Não vê nem a filha, que leva alimentos para ele, e o neto. Contado os dias para ser livre novamente.