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De Felipe Melo a Dudu, o Palmeiras de Luxemburgo ainda é um quebra-cabeça em aberto

Série: Os assuntos mais urgentes dos clubes brasileiros em meio à parada forçada

O projeto teve que esperar. Após três meses de trabalho em seu terceiro retorno ao Palmeiras, o treinador Vanderlei Luxemburgo se preparava para começar a definir questões cruciais do time para o restante da temporada. Mesmo próximo da classificação para as quartas de final do Campeonato Paulista e largando bem na Copa Libertadores - 2 vitórias em 2 jogos -, algumas incertezas ainda povoavam a região da Pompeia.

As dúvidas são mais conceituais do que de nomes em si. Afinal, aquele Palmeiras predador do mercado da bola não existe mais. Ou melhor, adormeceu assim que o Flamengo roubou para si o protagonismo nas janelas de transferência. Desta forma, os poucos reforços que chegaram, logo vestiram a camisa titular, caso do lateral uruguaio Matias Vinã e do atacante Rony.

A primeira grande mudança veio justamente com um jogador consolidado na equipe principal. O até então volante Felipe Melo virou zagueiro nas mãos de Luxemburgo e só voltou a habitar o meio de campo em casos de necessidade durante a partida. A baixa qualidade da maioria dos times no Estadual não permite uma conclusão definitiva sobre sua nova função. O que parece claro é que o treinador criou um novo espaço para Melo não perder sua titularidade e liderança no grupo. De quebra, montou um meio de campo mais veloz e repleto de jovens.

Sim, você não leu errado. Depois de anos negligenciado suas categorias de base, o Palmeiras se rendeu aos bons valores criados em casa e que se acostumaram a levantar troféus - foram 31 títulos nas categorias amadoras só em 2019. O torcedor sorriu ao ver meninos como Patrick de Paula, Gabriel Menino, Alan e Wesley ganhando mais minutos com a camisa alviverde. Gabriel Verón, que subiu no fim do ano passado, também passou a ser relacionado com frequência.

Mas, para um clube que sempre trata a Libertadores como obsessão, os jovens ainda precisarão ralar muito para dividir o espaço com os mais experientes. E aí chegamos ao jogador crucial do esquema de Luxemburgo: Dudu, líder técnico e maior ídolo da torcida no elenco atual.

No começo da temporada Luxa descartou improvisar o camisa 7 no meio de campo, onde historicamente não rende. Mas o problema é que as pontas foram ocupadas. Recém-chegado, Rony foi escalado justamente na posição que Dudu tradicionalmente é dono. Do outro lado, estava Willian, um dos jogadores mais voluntariosos deste elenco. Então, Vanderlei decidiu testar um novo esquema, fechando o quarteto ofensivo com Luiz Adriano centralizado e Dudu na criação de jogadas.

Até agora, não convenceu. Seja por cacoete ou porque o jogo exige, Dudu volta a cair pela direita, embolando as ações ofensivas. No meio de campo, não tem o espaço necessário para investir nos dribles e nas jogadas em velocidade, suas duas principais características. Rony, apesar do nervosismo inicial e de várias chances de gol desperdiçadas em seus primeiros jogos, exerce função tática importante, quebrando a marcação adversária como Keno, lá em 2017. Luiz Adriano e Willian vivem boa fase e parecem distantes do banco de reservas. Sobrou para Luxemburgo decidir após a parada.

O quebra-cabeça traz ainda um sinal inequívoco: o Palmeiras não tem hoje um maestro para chamar de seu. Gustavo Scarpa quase foi embora para a Espanha, ficou, mas perdeu espaço no elenco. Lucas Lima oscila entre boas apresentações e outras que levam as arquibancadas ao desespero. Zé Rafael e Raphael Veiga são bons valores, mas que não demonstram a confiança necessária para ganhar a posição. O laboratório de Luxemburgo é também um efeito colateral de uma carência dentro do elenco.

"Não sou contrário à modernidade. Eu preciso saber o que ela presta para a gente", disse o treinador ao ser apresentado em dezembro passado, para assumir o lugar de Mano Menezes. Para um técnico que costuma creditar a si próprio várias inovações no futebol brasileiro, ainda há um longo caminho a trilhar diante das enormes ambições do Palmeiras e de sua insaciável torcida. O que se viu até março ainda é inconclusivo, mas está longe de apontar para o céu.