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No 'Jogo da Vida' pós-rebaixamento, o Cruzeiro tem a missão de formar um time para a Série B

Você caiu no buraco: fique uma rodada sem jogar. Você deu azar: volte quatro casas. Desde o segundo semestre de 2019, o Cruzeiro parece perdido em um jogo de tabuleiro que culminou em seu rebaixamento inédito e uma crise política e financeira sem precedentes na história do clube. Em processo de reestruturação, uma nuvem de dúvidas e incertezas ronda o poder celeste. E complexo até mesmo entender a dança de cadeiras. Após a renúncia de Wagner Pires de Sá, o comando do clube está nas mãos do Núcleo Dirigente Transitório até o fim de maio. Depois disso, uma eleição definirá o nome de um presidente-tampão até dezembro - hoje, só o advogado Sérgio Santos Rodrigues é candidato. Em outubro, uma nova eleição para definir o mandatário para o triênio 2021-2023.

Para o torcedor, entretanto, a prioridade é uma só. Bater e voltar para a elite do futebol nacional. Mas se time grande cai, time grande também pode penar na segunda divisão. Entre os clubes mais expressivos de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais que já sofreram com o descenso, ninguém passou mais de uma temporada jogando de terça-feira - dia clássico de rodada na Série B. Para o Cruzeiro não romper com a escrita, o desafio é montar um time minimamente competitivo.

Só que a Raposa foi depenada nos últimos meses e as receitas que entram basicamente são usadas para abater um passivo monstruoso. Até o ano passado, o Cruzeiro tinha a terceira folha salarial mais cara do Brasil, avaliada em R$ 12 milhões mensais. Com um rombo estimado em R$ 1 bilhão, segundo o ex-diretor executivo Vittorio Medioli, o clube chegou a falar abertamente na hipótese de declarar falência e buscar novas soluções jurídicas para sobreviver. Exagero? Tudo depende dos próximos passos.

Desde janeiro, os cortes estão sendo feitos. A folha salarial do elenco teve redução de 81%, o que representou a saída de jogadores como Thiago Neves, Rodriguinho, Fred, Rafael e Egídio. Além disso, mais de cem funcionários foram demitidos, enquanto os cartões corporativos e veículos oficiais de membros das diretorias também foram cortados.

Mas, voltando ao gramado, a situação ainda está longe de ser resolvida. Camisa só entorta varal se houver gente de qualidade para vesti-la. Antes da interrupção das competições por conta da pandemia do coronavírus, o Cruzeiro era 5º colocado do Campeonato Mineiro, o que lhe deixava de fora das semifinais do torneio. No jogo de ida válido pela terceira fase da Copa do Brasil, o time foi derrotado por 2 a 0 para o CRB no Mineirão, colocando em alto risco uma receita de R$ 1,5 milhão, valor que hoje faz muita diferença para a realidade celeste.

E assim que o calendário for reativado, a Série B se apresenta como uma longa e sinuosa estrada para o Cruzeiro enfrentar. Além do retorno do ídolo Marcelo Moreno poucas peças foram mexidas com o potencial de aumentar a esperança da torcida. Entre os mais experientes, o goleiro Fábio, o lateral direito Edílson e o zagueiro Léo decidiram ficar, mas não são capazes de segurar a bronca sozinhos. Somam-se a eles Robinho, que sofreu com lesões na última temporada, e Dedé, liberado para negociar com outro time e também com histórico considerável no departamento médico.

Durante a parada, Enderson Moreira foi anunciado para assumir o lugar de Adilson Batista, que caiu atirando contra diretores, ex-jogadores e... imprensa, claro. O novo treinador dificilmente terá um grupo muito diferente do atual para a disputa da segunda divisão. Isso significa usar diversos jovens que, diante da situação emergencial do clube, precisarão pular diversos estágios de aperfeiçoamento. O mais promissor é Maurício, meia-atacante de 18 anos promovido ao time profissional na reta final de 2019. O zagueiro Cacá, de 20 anos, é outro que já recebe sondagens de clubes de fora. No ataque, ainda há Vinicius Popó e Iván Angulo, colombiano emprestado pelo Palmeiras.

Enderson, curiosamente, era o técnico do Cruzeiro campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2007, único título do clube no torneio, mas deu o recado já no dia de sua apresentação: "O Cruzeiro não pode ter apenas um time de meninos". Se na Série B de 2020 não há concorrentes com o mesmo peso da Raposa, também é verdade que a grave limitação financeira dos mineiros ajudou a nivelar os elencos entre os competidores. Pelo menos hoje, faltam jogadores de destaque que possam suportar a obrigação implícita de conseguir o acesso. Não basta que o torcedor faça sua parte nas arquibancadas. Paixão move, mas não cura todas as feridas abertas. No "Jogo da Vida" pós- rebaixamento, o Cruzeiro mal consegue segurar os dados.