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Ele odeia futebol, mas, de Gabigol a Cássio, 'manda' no prato e na forma de 130 jogadores

Ex-carateca, ele odeia futebol - e enche a boca para dizer. Muito, ele confessa, é pelo fato de seu apelido na infância ter sido "Rauen Pé Torto".

Ironicamente, hoje, aproximadamente 130 jogadores profissionais confiam seus corpos, ou seja, suas ferramentas de trabalho, ao médico Eduardo Rauen.

O médico do esporte, anestesiologista e nutrólogo de 41 anos é responsável pela dieta da nata do futebol nascida no Brasil.

De Gabigol ao goleiro Cássio, passando por Dudu, Bruno Henrique (Palmeiras), Tiago Volpi, Willian Bigode, Jean (Cruzeiro) Pablo (São Paulo), Alexandre Pato, Alan Kardec, Willian (Chelsea), Lucas Moura, David Braz, Gabriel Martinelli...

Se você pensar em um jogador brasileiro "em forma", são grandes as chances de ele ser paciente de Eduardo.

Em seu currículo, constam também três títulos brasileiros. Rauen era membro fixo da comissão técnica do Corinthians, em 2015, tinha muitos clientes no Palmeiras de 2018 e no Flamengo de 2019.

"Os jogadores me mandam os vídeos dos gols deles, porque sabem que eu não assisto aos jogos", comentou ele em entrevista ao ESPN.com.br.

No futebol, tudo começou com Ganso, no São Paulo, em 2014 - antes, ele trabalhara com Lyoto Machida, ex-campeão mundial meio-pesado do UFC.

Eduardo foi indicado à esposa do jogador do Fluminense por um outro médico. Ela então falou sobre ele para o meia. E, assim, sua fama se disseminou.

"Eu cheguei a ir a Sevilha, quando ele foi negociado", conta.

Rauen não se faz de rogado sobre a dificuldade de seu trabalho: "Emagrecer um gordinho e fácil, mas e pra tirar gordura de alguém que já tem corpo de atleta?", indaga.

Se não é fácil para o médico, imagine para os atletas. Eduardo regula tudo que os jogadores vão comer, todos os dias. Não há uma mordida que não tenha anuência do médico.

E para convencer os boleiros?

"A gente se convence ao perceber o resultado", conta Tiago Volpi.

O goleiro do São Paulo é um dos casos de maior sucesso do profissional. Do início deste ano até agora, o arqueiro derrubou de 12% para 6% seu índice de gordura corporal - um recorde, segundo o médico.

"Depois de um mês, eu tinha direito a um passe livre na alimentação, o 'dia do lixo', como a gente chama. Mas eu preferi segurar por mais um mês", revelou Volpi.

Gabigol também não brinca com as recomendações:

"Nas férias, ele me mandou foto comendo salada na praia", conta, entre risos, o médico.

"Cada metabolismo é de um jeito. O Cássio, por exemplo, ganha peso muito fácil", exemplifica.

Outro que abraçou as recomendações de Eduardo foi Alexandre Pato, que diminuiu 6% do índice de gordura corporal.

"Com isso, a velocidade final dele em um pique saltou de 29,2 Km/h para 33,9 Km/h", revelou o médico.

Após fazer dois gols contra o Oeste, em 22 de fevereiro, Pato mandou uma mensagem perguntando se não podia comer uma "feijoadinha" como prêmio, na festa de aniversário da namorada Rebecca Abravanel.

"Mas era brincadeira. Porque eles sabem que um dia de deslize joga por terra o trabalho de 15, 20 dias", diz Rauen.

"Estou perdido!"

Alan Kardec que o diga. O atacante do Chongquing Lifan, porém, tem uma outra questão: a dificuldade de ganhar massa magra - em outras palavras, músculos.

"Os músculos que ele conquista em seis meses, perde em 15 dias de férias", revela.

Sabendo disso, o atacante não se descuida. No Brasil, devido à crise do coronavírus, Kardec mandou entregar em em casa uma academia de musculação completa.

"Se eu ficar 15 dias aqui sem fazer um trabalho de força junto com a dieta, estou perdido!", disse Kardec à reportagem. "Eu perco de 2kg a 3kg num jogo", conta. "Muito é líquido, mas muito é massa magra".

Um dos primeiros clientes de Rauen, entre 2014 e 2015, Kardec mudou-se para a China pouco tempo depois de ter iniciado o trabalho.

"Foi uma experiência nova para ele e para mim. A alimentação natural é o carro-chefe do método e eu não sabia onde achar os vegetais", conta o atacante.

"Por isso, começamos com suplementos personalizados, com a quantidade necessárias de BCAA, aminoácidos creatina, proteina. Sempre que alguém ia do Brasil para lá, levava os sachês para mim", conta.

"Agora já tá ok. Depois de quatro anos, já sei onde encontrar os legumes. Mas o começo foi duro".

Defensor dos jogadores

Nem mesmo a proximidade com tantos jogadores fez de Rauen um fã de futebol, conforme dito no início desse texto. Muito menos o ajudou a escolher um time.

"Eu acabo torcendo para eles se darem bem. Nos pênaltis de Palmeiras x Corinthians (Campeonato Paulista de 2018), praticamente todos os batedores eram pacientes", conta. "Ali, ficou difícil".

Se por um lado não lhe deu apreço pelo esporte em si, circular entre os boleiros trouxe a ele um grande carinho pela classe profissional.

"Eu me tornei um defensor (de jogadores)", diz.

"O pessoal pensa 'ah, mas eles nadam em grana'. Mas tem um outro lado que pressiona o jogador como pessoa mesmo, por desempenho, forma física, distância da família e um auge muito curto, em termos de tempo", diz.

"Fora que eles mesmos não conseguem sempre serem amigos entre eles. Não dá tempo, quase, porque eles estão sempre se cruzando em ambiente competitivo", diz.

Ao menos, Rauen consegue ajudá-los a competir melhor.