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No 'home office' do futebol, grupo de WhatsApp vira CT e 'kit sofá' é academia

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Troncos de árvore e escadas: Pedrinho, do Corinthians, treina ao som de Anitta e Léo Santana (0:58)

Atacante vendido ao Benfica treina sozinho durante quarentena (0:58)

Cadeiras, mesas e sofás passaram a fazer parte da rotina de treinos dos jogadores durante a quarentena pela pandemia do coronavírus. No “home office da bola” vale usar até os filhos na hora de fazer levantamento de peso. Alguns mais criativos improvisam alteres com engradados de água ou garrafas pet.

Os grupos de WhatsApp estão se convertendo em "centros de treinamento" online, onde há trocas de informações, envio de instruções de treinos, cobranças e recomendações oos membros da comissão técnica para cuidados com a saúde mental e alimentar.

Os quatro grandes clubes de São Paulo entraram nessa realidade desde semana passada e estipularam que os jogadores treinem no máximo uma hora e meia por dia durante os seis dias da semana. Via de regra, aos domingos, eles têm folga.

“O Palmeiras fez um programa de treinos individualizado para atender a necessidade e a disponibilidade de cada jogador. Alguns moram em apartamento, outros em casa. Uns têm quintal, outros não. Enviamos opções de treinamentos em vídeos para eles aplicarem”, explicou Daniel Gonçalves, coordenador científico de futebol do Palmeiras, por telefone.

O clube alviverde vinha em uma maratona de jogos até a paralisação. Foram cinco partidas em 15 dias. Na semana em que se decidiu parar tudo o time teria um jogo na altitude de La Paz pela Copa Libertadores e o clássico com o Corinthians pelo Estadual.

“Todas as atividades e instruções repassadas aos jogadores têm o foco em manter a condição física, o cuidado nutricional e médico do jogador. Ainda assim será importante que a partir do momento da retomada dos campeonatos tenha tempo para recondicionamento”, afirmou Gonçalves.

O Santos e o São Paulo também vinham de uma maratona de partidas pelo Estadual e pela Copa Libertadores.

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Agora, os santistas trabalham em casa em ciclos de três dias. Ao término do primeiro ciclo, voltam a repetir a sequência de treinos.

O clube informou que os exercícios são variados, com foco em trabalho cardiovascular (capacidade aeróbia), utilização de bicicleta, esteira e elíptico (se possível), alongamentos, trabalho abdominal, trabalho de resistência intervalada, corrida, mobilidade geral e atividades de força lateral.

O São Paulo tentou estabelecer diretrizes próximas ao trabalho diário.

“Os atletas receberam, além de recomendações dietéticas, planilhas com sugestões de treinos contemplando as principais variáveis envolvidas na prática do futebol, para que possam desenvolvê-las em ambiente seguro”, disse Luis Fernando Leite de Barros, médico fisiologista do clube.

Único dos grandes clubes com calendário mais “folgado” nesse início de temporada, com jogos apenas pelo Campeonato Paulista para disputar, o Corinthians não relaxou na cobrança aos jogadores.

“Recomendamos que os jogadores façam os exercícios por no máximo uma e meia por dia. São exercícios de resistência e força, que podem ser feitos em qualquer lugar, sem necessidade de equipamento específico”, afirmou Michel Huff, preparador físico do Corinthians.

“Não proibimos a prática de outros exercícios, como natação, uso de academia ou atividade com o personal trainer para os que dispõem desses recursos. Mas reforçamos as medidas de segurança e prevenção ao novo coronavírus”, acrescentou o Huff durante a entrevista.

Treinos técnicos, com ou sem bola, e táticos não estão sendo realizados por razões óbvias. Além de estarem treinando individualmente, os jogadores não têm espaço físico para isso.

A preocupação dos profissionais, contudo, não é com a perda técnica, mas sim com a condição física e a saúde mental. O cenário de incerteza e o temor em relação ao novo coronavírus podem deixar os jogadores desmotivados ou depressivos.

“A saúde não é só questão fisiológica. É mental também. Precisamos deixar os atletas bem predispostos mentalmente. Se o atleta fica deprimido, sem perspectiva, ele tende a encontrar outras recompensas na alimentação. A atuação da nutricionista tem sido fundamental”, disse Gonçalves.

“O ideal seria retomar as atividades em 6 de abril, quando vão se completar 20 dias da nossa paralisação. Creio que a perda física não será tão grande. A situação muda se a paralisação se prolongar. Aí será necessário avaliações e um período maior de readaptação”, disse Huff.

Academia com garrafas pet e escadas

A quarentena também afetou os clubes que não fazem parte dos grandes. Para eles, o WhatsApp e a criatividade viraram os maiores aliados.

“A gente partiu para soluções caseiras que podem auxiliar os jogadores durante os treinos na quarentena. Então é aproveitar o ‘kit casa’, usando o sofá, as cadeiras, a mesa, cabo de vassoura etc. Tudo o que for possível. Teve atleta que improvisou garrafas pet como alteres, colocando água ou areia dentro”, disse Hamilton Faria, preparador físico da Portuguesa, para a ESPN.

A equipe lusitana, que disputa a Série A2 do Paulistão, dividiu os jogadores por posição, criando assim seis grupos (goleiros, laterais, zagueiros, volantes, meias e atacantes). Cada um dos grupos recebe uma planilha com atividades para fazer.

“Quem está cuidado dos goleiros é o preparador de goleiros. Eu cuido do restante. Diariamente vou reajustando as atividades e encaminho à noite para eles fazerem no outro dia”, explicou Hamilton.

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Joana Sanz compartilhou a cena em sua conta oficial | via Instagram @joanasanz

O Botafogo de Ribeirão Preto, que, além da primeira divisão do Estadual, disputa a Série B do Brasileiro, tem usado bastante da criatividade.

“A gente aproveita tudo que o espaço onde eles moram permite. Tem escada? Então, eu faço uma sugestão de treino usando elas. A casa tem sacada? Vamos aproveitar. No geral, o foco dos treinos que passamos é a manutenção da força, com exercícios com ou sem peso, sem necessidade de ter equipamento em casa”, disse Emerson Buck preparador físico do Botafogo-SP.

“Também trabalhamos com treinos de alta intensidade e tempo curto de recuperação. Por exemplo, o atleta faz 20 flexões de braço e descansa dez segundos. Depois repete o ciclo por quatro minutos. E são exercícios variados para eles não se entediarem”, acrescentou Buck.

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O preço da paralisação

O outro exemplo vem do Santo André, equipe que tem a melhor campanha na Série A1 do Paulistão. Diferente de todos os clubes citados na reportagem, a equipe do ABC é a única que adotou o sistema de uma hora de treino durante todos os dias da semana.

A carga não tem gerado reclamação. O preparador físico da equipe, Newton Martins de Carvalho, lida com outra dificuldade.

Como o clube não tem um calendário fixo na temporada, a maioria dos jogadores têm contrato perto do fim. O acordo da maioria vai até o final de abril. Já a comissão técnica tem vínculo até meados de maio.

“Falta calendário para o próximo semestre, mas trabalhamos com a hipótese de que o Paulista vai voltar”, disse.

“O foco não foi perdido. Os jogadores têm se motivado e gravam vídeos para eu ver como eles estão fazendo os treinos, como estão reagindo. O planejamento é minimizar a perda física, mas a paralisação deu uma vantagem para os adversários. Estávamos num bom ritmo”, disse.

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