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Esqueça o VAR: no México, 'juiz GoPro' leva tecnologia para dentro de campo

O árbitro Jesus Javier Vera começou a gravar seus jogos nas ligas amadoras do México com uma câmera na cabeça, e os profissionais podem aprender uma coisa ou duas com suas experiências...

Gritos que sugerem que o árbitro precisa de óculos são dos mais tranquilos que eles recebem, acredite. Até a implementação do VAR em muitas ligas domésticas e competições internacionais serviu apenas para alimentar o debate e aumentar as críticas aos árbitros.

Mas quantos dos que gritavam os insultos e queixavam-se de marcações teriam simpatia pela tomada de decisões de um árbitro se pudessem ver o que ele vê e ouvir o que ele ouve?

Jesus Javier Vera, arquiteto de 38 anos da cidade costeira de Mazatlan, Sinaloa, no México, quer mudar isso por meio do uso de uma GoPro e seu próprio canal no YouTube: "ARBITROCAM: El ojo del arbitro " ("O olho do árbitro").

Vera queria "ir um pouco mais longe" do que simplesmente filmar os jogos. Então, depois de comprar uma câmera pequena e uma faixa elástica, ele apareceu para gravar seu primeiro jogo nas ligas amadoras de Mazatlan em julho do ano passado, para o choque dos jogadores.

Os resultados foram - e continuam sendo - únicos, oferecendo uma visão do árbitro sobre como é estar no centro da ação. O canal se tornou um sucesso local: possui cerca de 70 vídeos - todos editados por Vera - e quase 70.000 inscritos. Dá vida à cena competitiva do futebol amador do México, que apresenta alguns desafios brutais e confrontos furiosos em campos rurais.

Vera registrou brigas, viu jogadores sofrendo lesões sérias e até uma ambulância levar um atleta diretamente para o hospital. Ele também ficou feliz em publicar suas boas decisões, bem como as ruins, que geralmente recebem respostas interessantes da comunidade local.

Mas o que é realmente fascinante - e bastante viciante - enquanto você assiste aos vídeos, é a interação do árbitro com os jogadores e os muitos e muitos argumentos (que, para falantes de espanhol, podem envolver um pouco de linguagem pesada). Existe até a estranha ameaça velada de "resolver as coisas" após o jogo.

"Acima de tudo, o que chama atenção são as reações ou a comunicação, o diálogo entre jogador, árbitro e torcida", disse Vera à ESPN. "Se você assistiu aos vídeos, sabe que sou um árbitro que responde, bato de frente, certamente tenho uma personalidade forte, e isso aparece nos vídeos". Isso é parte da razão pela qual ele diz que os vídeos levaram a convites para apitar partidas em locais como Cidade do México, Los Angeles e Las Vegas.

Como se pode esperar quando se trata de arbitragem em ligas amadoras, Vera teve vários momentos intimidadores, mas sua primeira experiência de apitar com a câmera na cabeça o convenceu de que ele tinha descoberto algo com sua inovação.

"O primeiro jogo que gravei foi em um campo de terra, em um bairro perigoso", disse ele. "Foi uma jogada difícil, na qual eu marquei pênalti e 95% das pessoas tinham certeza de que não tinha sido. Com o vídeo, mostrei que eles estavam errados."

Os jogadores, segundo Vera, gostam de ser filmados. Ele pergunta a cada capitão da equipe se ele pode gravar antes do jogo e se aparece sem a câmera, os jogadores perguntam por ela.

"Foi bem recebido e não mudou o comportamento deles, eles costumam esquecer que eu tenho a câmera", disse Vera.

E não é apenas ao embate dos jogos masculinos que o "ARBITROCAM" de Vera nos dá acesso irrestrito: um de seus vídeos mais populares (vistos mais de 600.000 vezes) é sobre o jogo de menores de 6 anos em que ele tem que lidar com jogadores chorando depois de terem sofrido falta e pais agressivos falando antes, durante e depois do jogo.

Árbitro há mais de 20 anos, Vera diz que ser capaz de assistir às suas performances o ajudou a melhorar como árbitro. E embora ele aceite que as regras da Fifa signifiquem que, em teoria, um juiz não deveria trazer tecnologia para campo, acha que isso ajudaria a apitar nas ligas profissionais.

"Seria ótimo por dois motivos: para quem gosta muito de futebol, isso nos daria uma perspectiva diferente do jogo", explicou Vera. "E acho que isso acabaria ou reduziria a manipulação de resultados, porque, gostando ou não, você fica com a intimidade do comportamento de árbitros e jogadores, isso acabaria com muitas dúvidas."

Conforme os experimentos, Vera é pioneiro em algo que o mundo do futebol faria bem em levar a sério.