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Goleiro que carregou Pelé nas costas e treinou ídolos do Corinthians realiza sonho de conhecer Cássio

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Aguinaldo formou ídolos para o Corinthians e há quatro anos sonhava em conhecer Cássio (9:36)

Ex-goleiro do Santos de Pelé e antigo preparador de goleiros do Corinthians quer lançar um livro sobre sua carreira (9:36)

Aguinaldo Moreira, 76, tem no currículo quase quinze anos de Corinthians. Os primeiros dez foram preparando e aperfeiçoando goleiros, como o ídolo Ronaldo Giovanelli. Os últimos foram olhando jovens aprovados para base e orientando os profissionais que os treinam.

O veterano de cabelos brancos e dedos tortos, herança dos tempos em que também foi arqueiro, como no Santos de Pelé, alimentou durante os últimos quatro anos um sonho: conhecer Cássio, 32, maior ídolo em atividade do Corinthians.

"Sonhava em encontrar, conversar com ele. Trocar ideia. Talvez até aprender com ele. A gente tanto sabe que não sabe nada", disse Aguinaldo para a reportagem.

Apesar de ambos trabalharam para o Corinthians, o sonho sempre pareceu impossível. Muito pela distância física. Aguinaldo fica dentro do Parque São Jorge desde 2016. Já Cássio só esteve na sede corintiana uma única vez. O dia a dia dele é no centro de treinamento Joaquim Grava.

Aguinaldo aceitou o convite da ESPN Brasil para ir até o Museu do Futebol, dentro do estádio do Pacaembu, no dia do lançamento da biografia do goleiro, intitulada "Cássio, A Trajetória Do Maior Goleiro Da História Do Corinthians" (Universo dos Livros, R$ 39,90), escrita pelo professor e jornalista Celso Unzelte.

Durante o trajeto, revelou histórias incríveis e pouco conhecidas da sua vida no futebol (leia-mais abaixo). E, ao chegar ao local do encontro e se deparar com Cássio, mostrou admiração e principalmente humildade, afinal ele, Aguinaldo, contribuiu e muito para a profissão de goleiro no Brasil. O encontro foi assim:

AGUINALDO - "Você não sabe quem eu sou, mas eu sei quem você é!"

CÁSSIO - "Você é o Aguinaldo... Quem me falou sobre você foi o Ronaldo"

AGUINALDO - "É um prazer estar com você. Sou uma pessoa abençoada. Trabalhei com os melhores goleiros do Brasil e não podia deixar de conhecer o melhor goleiro da atualidade no Brasil"

CÁSSIO - "Agredeço os elogios"

AGUINALDO - "Mas é verdade. Tudo que o corintiano precisa hoje, ou qualquer outro torcedor, é ter um goleiro como você"

CÁSSIO - "Muito obrigado"

AGUINALDO - "Que Deus te abençoe e conserve você humilde, simples e reconhecendo o lado bom e o lado ruim da profissão"

CELSO UNZELTE - "Professor Aguinaldo, esse tem pedigree. Treinou muita gente boa, foi goleiro, inclusive do Santos de Pelé, campeão pelo Vitória, em 1972. E ele disse que se fosse fazer um livro da vida dele uma coisa que faltava para completar a história era te conhecer!"

AGUINALDO - "Estou de volta ao Corinthians tem quatro anos, mas ficava com receio de ir ao CT para te conhecer. Será que vou, será que não? Mas sou tão abençoado que Deus proporcionou a melhor hora para te conhecer"

CÁSSIO - "Receio, não. Então, eu convido o senhor para ir ao CT. Vamos tomar um café, conversar. Será um prazer"

CELSO UNZELTE - "O senhor que treinou tantos grandes goleiros quais as qualidades que mais admira no Cássio?"

AGUINALDO - "O que eu mais gosto em qualquer goleiro é a humildade para reconhecer quando errou. Saber quando tá bem, quando não tá. Passar tranquilidade para os companheiros e admitir quando está mal, apesar de ele quase não ter dias ruins. Isso é importante para o crescimento profissional"

Sorte, desprezo e lealdade

Aguinaldo Moreira viveu de tudo durante sua trajetória no futebol. De terceiro goleiro na Portuguesa, inclusive limitado a ver os jogos da arquibancada, ele virou titular no time infantil em 1958 e nunca mais deixou o gosto pela profissão. Parou de jogar nos anos 70. Em 1985, virou técnico da posição.

E a forma como isso aconteceu foi totalmente inesperada.

"Na época, estava numa firma de aço para construção e meu gerente queria uma camisa Palmeiras. Me convenceu a ir até a sede do clube para ver o treinor e comprar a camisa. Fomos muito cedo, mas o porteiro me barrou. Aí falei pro gerente: ‘Por isso que eu não queria vir. A gente não pode ser barrado’. Nisso um repórter chamado Bosco me viu parado e disse: ‘O Negrão, o que você tá fazendo aí?’. Ele pediu pro porteiro me liberar para entrar: ‘Pô, esse é o Aguinaldo, jogou no Santos do Pelé’", disse.

"Entramos e quando o Fedato me viu --a gente jogou junto-- ele me abraçou, disse que eu sumi, queria saber da minha vida. Aí ele me chamou pra trabalhar com ele... E eu fui comprar uma camisa pro meu gerente! Na hora, não sei, perguntei com o que trabalharia, e ele disse: 'Treinando goleiros'", completou.

Na época, Aguinaldo relembrou que treinavam no Palmeiras Emerson Leão, Zetti, Velloso, Martorelli e Ivan. Aceitou e começou na profissão.

O veterano acabou indo para o Corinthians em 1987, após passagens pelo Nacional-SP e pelo Santo André. Lá treinou nomes como Carlos, Waldir Peres, Wilson Macarrão, Nei, Maurício e principalmente Ronaldo Giovanelli, seu grande amigo do futebol. Até hoje.

Aguinaldo ficou no clube até o segundo semestre de 1997, quando viveu a história mais triste na profissão.

"Os diretores contrataram o Joel Santana e ele queria outro preparador de goleiros, mas não dava para o clube trazer porque o escolhido estava cumprindo contrato em outro lugar. Aí ficaram comigo, mas o treinador não conversava comigo, se afastava, não queria aproximação porque sabia que eu tava indo embora...", disse.

"Até um dia em que eu cheguei ao Corinthians e me brecaram na portaria. Falaram: 'Você não pode mais entrar no vestiário. É pra você ir ao RH. Você está fora'. Fiquei chateado. Não por ser dispensado, mas pela forma como aconteceu. Foi triste", completou.

A vida de Aguinaldo também teve momentos em que a lealdade mostrou-se acima de qualquer outra coisa. Foi o que aconteceu quando jogava pelo Vitória.

"Foi um amigo chamado Joel Mendes, goleiro. Na época que ele chegou ao Vitória eu tive uma fratura no dedo. Ele entrou, entrou bem e ganhou a posição. Quando eu me recuperei, meu contrato estava para terminar. Ele me disse: 'Aguinaldo, eu vou jogar, vou me machucar no jogo e você vai entrar e renovar seu contrato'. Foi o que ele fez".