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Por sonho de ser jogador, Walber passou necessidade e viu pai pegar dinheiro com agiota; hoje, quer vencer no Santa Cruz

Desde os 13 anos, Walber Richard Rosa sabe que o futebol é um caminho muito mais difícil do que imagina os garotos que sonham em ser jogadores profissionais. Criado em Igarassu, Pernambuco, o zagueiro começou em um projeto social e quase viu escapar a chance de ir para um time no Ceará porque não tinha dinheiro para comprar as passagens.

“Fiquei muito chateado pois para mim era minha única oportunidade de realizar meu sonho de jogar futebol. Meu pai sempre quis que eu fosse jogador de futebol também e viu que poderia ser a minha única oportunidade, então ele pegou empréstimo de dinheiro com agiota para conseguir pagar a passagem. Foi um esforço bem grande e perigoso por parte dele. Ele queria muito me ver seguindo o meu sonho e isso, consequentemente, virou um sonho dele também quando viu que eu estava chateado por não conseguir ir”, contou ao ESPN.com.br.

Walber era um pouco mais novo que o restante dos garotos e ficava na reserva porque ainda com condições físicas abaixo.

“Eu ainda era franzino e não tinha espichado. Mas eu entrava em alguns jogos, joguei contra o Ceará e foi algo muito marcante para mim. Não fomos mal no campeonato, caímos nas quartas de final. Mas depois que fomos eliminados as coisas começaram a piorar por lá”, relatou.

Depois da eliminação, Walber conta que o time parou de ser patrocinado pelas lojas pelo governo local.

“A padaria que dava café da manhã para a gente falava que não ia mais dar o lanche e cortaram tudo. Ficamos dependendo do treinador do time na época, ele se encheu de dívidas para nos ajudar e dos pais de alguns atletas que tinham uma condição um pouco melhor mandavam um dinheiro pra gente se ajudar”.

“A gente acordava às 5h para treinar e tomar café da manhã. Era pão seco com água. Às vezes a padaria não nos dava. Não era fácil. Quem tinha um dinheirinho conseguia se virar, mas não era a realidade da maioria”, afirmou.

“Muitas vezes a gente ia treinar com a barriga vazia. Íamos comer algo depois do treino por volta das 21h30, quando conseguíamos jantar. Às vezes também não era nada boa. Cansei de comer pão com mortadela, mas a gente segurou as pontas”.

Para piorar, o garoto escondia a situação dos pais por telefone.

“Eles me ligavam todos os dias e perguntavam se a alimentação estava boa e se eu estava bem, mas eu nunca dizia o que estava acontecendo. Se eu dissesse, eles me mandavam voltar na hora. Na época eu achava que era minha primeira e única oportunidade na vida. Por isso, a gente mantinha em segredo entre nós e procuramos nos ajudar o máximo possível. Quem recebe um dinheirinho dos pais às vezes recebia 50 reais no mês e a gente comprava bolacha pra preencher o estômago”.

Durante os finais de semana, Walber não treinava e tinha que lidar com o tédio e a falta de alimentação.

“Era só café da manhã e o almoço. Poucas vezes a gente conseguia jantar. No domingo era ainda pior, não tinha nem almoço nem janta. Era horrível. A gente passava muito tempo sem comer. Às vezes tentávamos dormir o fim de semana inteiro para poder não sentir fome durante o dia”, contou.

Depois de sete meses, os garotos começaram a deixar o time, mas Walber não tinha condições de voltar para casa.

“Eu sabia do sofrimento que tinha sido para o meu pai conseguir um dinheiro para me levar para lá, não seria fácil conseguir mais para voltar e também não queria desperdiçar o que ele já tinha investido. Fiquei lá até terminar o ano, já que não tinha muita escolha. Era ficar lá ou sair da escola e perder o ano. Então, tive que ficar até o dia 22 de dezembro”, recordar.

De volta para casa, ele se destacou no ano seguinte um torneio de várzea chamado Copa Pernambuco. Descoberto por olheiros, o jovem foi fazer um teste no Santa Cruz no começo de 2019. Caso não desse certo, ele ficaria desempregado.

“O amigo do meu irmão me levou pra fazer um teste em uma segunda-feira de manhã, mas eu fui no dia errado com ele e tive que fazer teste com o sub 20. Se eu me destacasse eles iam me levar direto pra base do Santa Cruz, mas eu não joguei muito bem e pediram para que eu voltasse de novo no dia seguinte para fazer a peneira com o pessoal da minha idade. Eu me destaquei e passei no teste”, afirmou.

Depois de um mês no time de Recife, Walber conseguiu se destacar, virar titular e capitão do time sub-15.

Depois de todas as dificuldades, o garoto de 15 anos espera permanecer no time sub-17 do Santa Cruz. Até chegar ao profissional, ele sabe que terá um longo caminho pela frente.

“Se Deus quiser eu vou conseguir trabalhar bastante com os meninos para poder ser integrado no elenco sub-17. Seria a realização de um sonho”, finalizou