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Uma aventura contra o tempo para chegar à fronteira Brasil-Peru em mais um dia na estrada

Pode parecer até roteiro de ficção: um ônibus com 19 torcedores do Flamengo cruzando Rondônia e depois acelerando no Acre para chegar à fronteira com o Peru antes das dezenove horas, antes de ela fechar.

Não é!

A história é real e resume a loucura que encaramos na terça-feira, 19 de novembro, dentro do ônibus Rio de Janeiro-Lima. O adjetivo usado aqui não é exagero. Foi realmente uma loucura que todos nós testemunhamos.

O começo de toda essa história para chegar à fronteira foi o problema com o ar condicionado no dia anterior. O ônibus foi para a manutenção e a viagem acabou sofrendo um atraso de pelo menos seis horas. Isso acontenceu quando estávamos em Vilhena, depois de cruzar a divisa do Mato Grosso.

Durante a noite de segunda e a madrugada de terça cruzamos boa parte do estado de Rondônia, tendo enfrentado uma verdadeira tempestade tropical, o que aumentou a dificuldade em nossa rota. O motorista foi William Guerra e ele teve de conduzir no máximo a 50 km por hora. Estava sem visibilidade e a BR-364 tem muitos buracos.

Chegamos em Candeias do Jamari (RO) por volta das 8h de terça. Foi uma parada de quase 40 minutos para banheiro, banho e café da manhã.

O bate-papo entre os passageiros já refletia a preocupação do dia: "Será que vamos chegar antes de a fronteira fechar?"

Os motoristas foram sinceros ao avisar que tínhamos pelo menos doze horas de viagem até Assis Brasil, cidade brasileira que faz fronteira com o Peru e nosso ponto de passagem. Para quem não conhece o procedimento, o lado brasileiro da alfâdega funciona das 7h às 19h, enquanto o lado peruano nunca fecha.

As doze horas de viagem previstas pelos motoristas não levavam em conta o tempo que gastaríamos na balsa para cruzar o rio Madeira (antes de chegar ao Acre) e as paradas --pelo menos duas, uma para almoçar, outra em Rio Branco para pegar passageiros. Ou seja, era tarefa impossível.

Um passageiro sugeriu: "Se não der tempo, vamos pedir um hotel para a companhia ou vamos prolongar nossas paradas de almoço e jantar". Sugestão prontamente rejeitada pela maior parte dos flamenguistas: "Não, não. Temos reserva em hotel em Lima, tem encontro da torcida em Lima, tem final. Vamo embora!!!"

Assim, deixamos Candeias do Jamari pouco depois das nove da manhã...

Balsa, almoço e pressa

A viagem prosseguiu até cruzarmos a balsa sobre o rio Mamoré/Madeira, perto da divisa com o Acre. Aí que a preocupação aumentou. Os funcionários da companhia de ônibus tentavam contato com a fronteira para saber se era possível abrir uma exceção e permitir a liberação do ônibus após às 19h.

"Avisa eles que vamos ver o Flamengo na Libertadores", sugeriu Reginaldo Alves, o Cachorrão de Duque de Caxias, acredito que a informação teria um peso.

O problema é que estávamos atravessando parte da floresta amazônica e sem qualquer sinal. Nem internet nem linha telefônica. Não tinha nem como receber um "não" da Polícia Federal sobre o cruzamento da fronteira após às 19h.

Um resposta negativa mudaria todo o roteiro do dia. Um sim nos faria acelerar a viagem para chegar.

Às 13h30, fizemos uma parada para almoço em um restaurante de beira de estrada, o Caipirão, em Vista Alegre de Abuña. Tivemos acesso à internet, mas continuamos sem qualquer notícia sobre o funcionamento da fronteira.

"Acho que com reportagem, torcedores e a final próxima, eles vão abrir uma exceção para o ônibus, não?", me perguntou Humberto Rosa, o taxista torcedor do Flamengo.

Difícil saber. Foi interessante notar que ninguém estava desesperançoso. Com o ônibus seis horas atrasado em relação à previsão original, era primordial conseguir a passagem pela fronteira naquele dia. Caso contrário, a viagem acabaria ficando ainda mais longa.

Ao voltar do almoço para o ônibus, os passageiros --até aqueles que não estavam viajando por causa do jogo-- entraram em um acordo: "A partir de agora, sem paradas para banheiro, banho ou comida. Vamos direto até a fronteira!".

A exceção foi a parada obrigatória em Rio Branco para que três novos passageiros entrassem na loucura!

O milagre na fronteira

A viagem prosseguiu por muitas e muitas horas. A rotina era quebrada pelas conversas dentro do ônibus, pelas brincadeiras e pelas provocações entre nós.

Quando nos aproximamos de Rio Branco, capital do Acre, e já havia alguns pessimistas quanto as nossas chances de cruzar a fronteira, surgiu a boa notícia: com autorização da Polícia Federal, os funcionários da fronteira nos aguardariam até o fima da noite de terça para fazer o trâmite de imigração.

Só paramos em Rio Branco para abastecer e para o ingresso dos novos passageiros. Todos flamenguistas --por isso o número de torcedores no ônibus aumentou de 16 para 19. O ônibus prosseguiu pela estrada, com os motoristas mal descansando.

Passamos Brasiléia e Epitaciolândia, duas pequenas cidades no Acre que fazem fronteira com o Peru. Apesar de serem pequenas, nosso ônibus conseguiu se perdeu, o que gerou apreensão nos passageiros. Foram alguns minutos até a rota ser retomada, com muitos buracos na estrada, é bom dizer.

Depois o ônibus prosseguiu até Assis Brasil. Chegamos 0h17, acima da nossa tolerência, mas fomos atendidos. Comemoração geral!

"Vamo, vamo, Mengo!!! Vamo, vamo, Mengo", cantaram os flamenguistas, antes que um representante da alfâdega pedisse silêncio.

Ele explicou que, apesar de estarem nos atendendo, muitos funcionários da alfâdega estavam dormindo e acordariam cedo para trabalhar. Precisavam descansar.

Tudo bem. Um pedido simples para acatar diante do que eles estavam fazendo. Exceções como essa não costumam ser permitidas.

Até Assis Brasil foram percorridos 3.950 km, levando em conta que a minha saída foi da rodoviária do Tietê, em São Paulo, e 4.373 km para quem partiu do Rio de Janeiro. Um total de 92 horas de viagem. Todos estavam "quebrados", famitos, mas felizes. Ao menos, a missão de terça-feira foi concluída.

Por volta de 1h40 de quarta, chegamos ao posto de imigração do lado peruano da fronteira. O atendimento foi rápido e curioso. Os funcionários quiseram tirar fotos com os flamenguistas e com uma bandeira do Brasil. O futebol abriu fronteiras, literamente.

Finalmente, às 3h35 de quarta seguimos viagem rumo à capital do Peru...