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Flamengo x River: Ex-atacante Esídio sofreu preconceito no Peru por ser portador do vírus HIV

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'Não sei como vou voltar': Torcedor do Flamengo conta que foi para Lima só com a passagem de ida (1:39)

Repórter Pedro Torre mostra a história do flamenguista na Libertadores (1:39)

No sábado, dia 23 de novembro, a cidade de Lima, no Peru, recebe a primeira final única da Copa Libertadores.

E o gigantesco Estádio Monumental, que sediará a decisão entre Flamengo e River Plate, tem o nome de um brasileiro escrito em sua história.

Em 2 de julho de 2000, a arena foi inaugurada em um superclássico entre Universitário (dono do local) e o rival Sporting Cristal, numa das partidas mais explosivas do país.

Coube ao atacante José Eduardo Esídio colocar os anfitriões na frente, abrindo o placar para a vitória por 2 a 0 de La U.

Aos 4 minutos do primeiro tempo, ele recebeu bom passe no lado direito da grande área e tirou do goleiro com um toque colocado, fazendo a torcida da casa explodir de alegria.

Assista abaixo:

"Ainda tenho esse gol guardado em minha mente. A coisa mais linda foi poder celebrar com a torcida no estádio, que estava lotado. Talvez eles não tenham ideia do barulho que fizeram naquela comemoração. Esse gol me marcou muito, e diversas boas memórias vêm à minha mente quando lembro dele", exaltou Esídio, em uma entrevista dada em 2015, no aniversário de 15 anos do tento.

Mas, apesar dessa marca positiva deixada na história do futebol peruano, o brasileiro teve que lutar contra o preconceito no país.

PORTADOR DO VÍRUS HIV

Nascido em 17 de novembro de 1970, Esídio é primo do também ex-atacante Nílson (o herói do famosos "Gre-Nal do século") e passou apenas por times pequenos no futebol brasileiro.

A parte mais relevante de sua carreira foi efetivamente no futebol peruano, onde defendeu dois gigantes do país: Universitario e Alianza Lima.

No entanto, sua aventura no Peru quase não aconteceu, já que, em 1998, quando ele foi contratado por La U, um exame de sangue detectou que ele era portador do vírus HIV.

O Universitario, então, rescindiu seu contrato, e ele retornou ao Brasil sem sequer ter entrado em campo pelo clube.

Ao voltar ao país natal, porém, ele realizou novos exames e descobriu que era portador assintomático do HIV - ou seja, não tinha Aids.

Com isso, retornou ao Peru e ingressou em uma longa batalha jurídica para ter seu contrato com o Universitario reativado, o que acabaria ocorrendo após meses de brigas nos tribunais.

Esídio jogou quatro temporadas no futebol peruano, sempre tendo que rebater o preconceito de adversários, que ameaçavam se recusar a enfrentar o brasileiro por medo de encostarem em seu sangue.

Também teve que ouvir muitas ofensas de dirigentes e treinadores adversários, que tentaram até proibí-lo de jogar profissionalmente.

No entanto, o jogador respondeu com gols. Muitos gols.

Em sua primeira temporada pelo Universitario, marcou 25 gols (entre eles o da inauguração do Estádio Monumental) e conduziu a equipe ao título da liga nacional.

No segundo ano, foi uma verdadeira avalanche: 37 gols na temporada, recorde absoluto da história do futebol peruano na época (que depois seria batido por Emanuel Herrera, que fez 39 pelo Sporting Cristal, em 2018).

Naquela temporada, aliás, somente o compatriota Jardel, então no Porto, fez mais gols em uma liga nacional no planeta (38).

"Esídio era impressionante, um goleador implacável. A imagem dele sendo carregado pelos companheiros após a conquista do título é uma das mais emblemáticas da história do Universitario", disse à ESPN o diretor de comunicação do clube, Rubén Marruffo.

Na sequência, Esídio trocou La U pelo rival Alianza Lima, pelo qual seguiu sua sina de gols e conquistou mais uma vez o Campeonato Peruano, sendo comandado por Paulo Autuori e tendo Palhinha, ex-São Paulo, como companheiro de ataque.

Depois, Esídio retornaria ao país natal para defender o Paulista de Jundiaí, em 2003. Passou ainda pela Ferroviária-SP antes de encerrar a carreira no União Barbarense, em 2006.

Atualmente, ele mora na cidade em que nasceu, Santa Rita do Passa Quatro, no interior de São Paulo, ao lado de sua esposa, Soraya, e uma filha.

Entrevistado em 2018 pelo repórter Breiller Pires, comentarista da ESPN, para o jornal El País, Esídio prefere não falar do HIV ou do preconceito que sofreu. Sua vontade é apenas aproveitar a aposentadoria e relembrar os melhores momentos que viveu.

"Fiz história e fui muito feliz no Peru. Sou grato ao povo peruano, que me acolheu como se eu tivesse nascido no país".