"Eu surtei, estava cansado e não entendia o que estava acontecendo. Eu pensei: 'Chega, não é isso que eu quero! Quero sumir, não aguento mais'. Eu tomei um monte de remédios para me matar. Eu saí de casa por volta das 18h sem avisar ninguém, meu telefone celular descarregou e eu sumi. Ninguém me achava".
Há menos de um ano, em novembro de 2018, o jovem Mykaell resolveu dar um fim à própria vida. Desempregado e com o coração partido após o fim de um namoro, ele não sabia, mas estava com uma depressão profunda.
O volante, com passagens pelas categorias de base do Vasco da Gama e do São Paulo, só foi encontrado por volta das 10h, inconsciente, no meio de uma rodovia no Distrito Federal.
"Me levaram para o hospital, fiz um monte de exames que detectaram que eu tinha tomado. Eu fui retomando a consciência e vi o que a minha família tinha passado. Fiquei sabendo que a minha irmã de cinco anos ficou a madrugada toda chorando e rezando com a imagem de Nossa Senhora Aparecida na mão. Isso me marcou demais e pensei: 'O que estou fazendo da minha vida? Eu não preciso disso e não quero fazer a minha família sofrer'", disse o jogador ao ESPN.com.br.
Ele começou a fazer um tratamento psicológico e psiquiátrico e passou a tomar remédios controlados.
"Quando eu tive o surto, prometi a mim mesmo e aos meus familiares que nunca mais ia passar por isso. Disse que 2019 seria um ano de coisas boas. Chega de sofrimento", desabafou.
Era hora de lutar para controlar a doença que tinha dado seus primeiros sintomas pouco tempo antes.
Aos 14 anos, Mykaell começou sua trajetória no futebol na base do Vasco, onde jogou com Mateus Vital, Danilo, Andrey e Mosquito. Após dois anos na Colina, ele foi passar férias em casa e, diante da alegria de estar ao lado dos amigos e familiares, resolveu não voltar mais ao Rio de Janeiro.
Após ficar mais de uma temporada e meia parado, ele retomou a carreira. Passou pelo Figueirense e pelo Formosa-DF, no qual disputou o Candangão profissional, antes de chegar ao time sub-20 do São Paulo, em 2017.
Em Cotia, ele foi campeão paulista, da Copa do Brasil e da Copa RS. Comandado pelo técnico André Jardine, o volante era da mesma geração de Walace, Militão, Liziero, Luan, Igor Gomes, que viraram jogadores profissionais.
No final do ano, porém, ele não teve seu contrato renovado com o clube tricolor.
"Houve uma reformulação grande, e o Diego Cabrera, coordenador que havia me levado para a base, foi embora. Eu já apresentava os primeiros sintomas fortes de depressão e não estava muito bem", lembra.
Retomada
Depois de três meses sem clube, ele jogou o Paulista da Série B (na prática a 4ª Divisão) pelo Bandeirante de Birigui, mas não conseguiu o acesso. De volta para casa de sua mãe, em setembro, ele viu seu namoro acabar depois de um processo de desgaste.
"Eu gostava muito dela naquele momento e, para piorar, eu estava desempregado. Eu não saía de casa, ficava o dia tordo no meu quarto e mal tinha vontade de levantar na cama. Não comia e perdi até a alegria em jogar bola, não queria mais saber disso", contou.
Apesar de não passar necessidades, já que havia guardado um pouco de dinheiro, ele estava angustiado por não fazer o que mais amava, jogar futebol. Depois da tentaiva de suicídio, o volante resolveu recomeçar a carreira.
Com a ajuda de um amigo que tinha trabalhado comigo no Bandeirante, eu fui em janeiro ao Aquidauanense-MT. Fiquei três meses sem voltar para casa ou falar com a minha ex-namorada. Consegui esquecer essa situação e me foquei no time. Se não tivesse ido para lá, eu acho que ainda estaria depressivo, até coisas piores poderiam ter acontecido", confessou.
Depois de ter sido vice-campeão estadual, Mykaell foi contratado pelo Marília para jogar o Paulista da Série B outra vez. Desta vez, porém, ele conseguiu jogar e ajudou o time a obter o acesso para a Série A3.
"Fui muito bem recebido por todos. Joguei boa parte do torneio como titular e estou feliz", afirmou.
Logo depois da partida que garantiu a vaga na decisão do torneio, o volante gravou um vídeo - ainda no gramado - contando sua história.
"Foi um momento de desabafo e para mostrar que superei isso. Deixei meu celular com o roupeiro porque tinha convicção de que iríamos subir. Tirei um peso das costas e mostrei que posso chegar aonde eu quero", afirmou.
Depois de deixar 40 equipes para trás no torneio, o desafio será na final contra o Paulista de Jundiaí.
"Consegui me destacar e as portas estão se abrindo. O Marília quis renovar meu contrato, mas estamos focados na final porque o título é o mais importante para a gente". Mykaell sonha em voltar ao futebol de alto nível, mas sabe que, para conseguir isso, terá um longo caminho pela frente.
"Tenho que dar um passo de cada vez. Considero tudo que passei como um renascimento na minha vida e na minha carreira. Tudo que estou vivendo hoje vale a pena. Vivo um dia de cada vez, aproveito cada momento ao máximo e me foco nas coisas boas da vida", contou.
Feliz consigo mesmo, o volante faz um alerta para os colegas de profissão sobre a gravidade de uma doença que muitas vezes é silenciosa.
"A depressão não é brincadeira, tem pessoas que ficam zoando. No esporte muitas pessoas têm vergonha de se expor. Antes de passar por isso, achava que era uma frescura. Mas é algo muito sério e que, se não for cuidado, pode levar até a morte. Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo, é algo surreal".
