O Manchester United já vencia o Blackburn por 1 a 0 quando Kleberson entrou para a história do clube, em 22 de novembro de 2003. O primeiro brasileiro a vestir a camisa do time adicionava ao seu currículo mais um item, ao tornar-se também o primeiro a marcar pelo clube.
A data é inesquecível para o jogador, mas não só por causa da rede balançada.
"Meu filho nasceu bem nesse dia", relembra-se, em entrevista para o ESPN.com.br o pentacampeão mundial com a seleção, em 2002. Foi a conquista na Ásia, aliás, que fez o então volante do Athletico-PR entrar no radar de Sir Alex Ferguson.
"Quando voltei da Copa, havia algumas propostas, Decidimos então, o Sr. Petraglia (presidente) e eu que buscaríamos uma negociação boa para mim e para o clube", conta. "Eu tinha uma ligação muito forte com o Athletico e, mesmo na minha saída, queríamos manter isso", relembra-se.
Newcastle, Leeds, Celtic e Rangers buscaram contratar o jogador. Mas quando o nome do United apareceu enter os pretendentes, a decisão ficou mais fácil. Até porque, o colega de seleção Ronaldinho Gaúcho sempre dizia que um dia jogaria pelo United. E a chance de ser seu companheiro de novo seduziu o meia.
"Só que o Ronaldinho não veio", conta Kleberson, entre risos. Quem chegou ao clube junto com ele foi um outro Ronaldo, um moleque português de 18 anos, então quase anônimo. Hoje, ele atende pelo nome de Cristiano Ronaldo e é mais conhecido que o Papa no mundo todo.
ARREPENDIMENTO
Se pudesse voltar no tempo para 2005, Kleberson, muito possivelmente, não deixaria o Manchester United.
"Ou, ao menos, teria ficado na Inglaterra, emprestado a outro clube, como eles queriam", confessa.
A passagem dele pela gelada e chuvosa Manchester durou duas temporadas, que ele ainda relembra com muito carinho. Mesmo quando se recorda dos momentos mais difíceis na cidade inglesa.
"A minha comunicação com o Ferguson era bem complicada no começo", conta ele, que não falava nada de inglês.
"Ainda bem que o clube ajudava. Eles faziam o que podiam, disponibilizaram casa, carro, escola, médico e intérprete", conta ele, se sentiu acolhido pela cidade - claro, levando-se em conta de que estamos falando de ingleses.
A VAGA DO CHEFE
O uruguaio Diego Forlán e Quinto Fortune, sul-africano que falava espanhol, foram importantes na aclimatação de Kleberson. Clubes de futebol, afinal, são repletos de tradições internas e regras tácitas de conduta. E, assim que pode, o brasileiro fez questão de quebrar uma das mais importantes.
"Um mês depois de chegar ao clube, eu comprei um carro e comecei a ir treinar dirigindo", diz. "Logo no primeiro dia, eu me atrasei e cheguei em cima do horário. A primeira vaga livre que vi era bem na porta do vestiário. Não tive dúvida e estacionei", conta.
O volante diz que estava treinando quando percebeu Alex Ferguson gesticulando muito, conversando com um, com outro, e fazendo perguntas. O técnico queria saber de quem era o carro estacionado em sua vaga exclusiva.
"Quando eu disse que o carro era meu, os caras não paravam de rir, diziam que eu ia ser demitido", conta Kleberson, hoje, rindo muito da situação. "O cara está no clube há 18 anos, você chega e já estaciona na vaga dele? Ele vai te mandar embora!", brincavam os colegas.
"Quando perceberam que era eu, brasileiro, recém-chegado, riram ainda mais, pela falta de noção. No Brasil, eu tava acostumado a deixar o carro até em cima da calçada", diverte-se.
"AINDA BEM QUE EU NÃO ENTENDIA NADA"
Ferguson também foi o protagonista de outra grande história de Kleberson no clube.
O United perdia e o técnico estava cuspindo marimbondos. Gritava com todos que entravam no vestiário. Kleberson também ouviu um monte. Entendeu apenas que o técnico cobrava deles mais agressividade. Mas, como não sabia inglês, ele apenas assentia com a cabeça.
O ex-jogador não se lembra exatamente da partida em questão, apenas que o time venceu e o clima do vestiário no fim do jogo foi bem mais leve.
"Aí, eu fui perguntar para os caras, o que o Ferguson tinha falado no intervalo. 'Cara, ele te fritou, reclamou muito de você', me contaram", conta ele, rindo. "Ainda bem que eu não entendia nada".
OS CLÁSSICOS: CAMPEONATOS À PARTE
O clássico com o Liverpool, conta Kleberson, era mesmo o mais tradicional. Assim como no Brasil, ele começava já ao fim do último jogo antes de sua data e se estendia pela semana inteira.
"A cidade, os jogadores, a torcida, todo mundo só falava disso", diz o ex-volante.
"Normalmente, são dois jogos por temporada com eles. Se você perder em casam, por exemplo, só vai poder ganhar de novo no próximo ano", diz.
Na época em que ele jogou pelos Diabos, porém, o clássico mais acirrado era contra o Arsenal, que era o maior rival do United nas disputas por títulos.
"Teve um jogo (em 21 de setembro de 2003) em que o Van Nilsteroy perdeu um pênalti, jogando para a gente, e todo mundo do Arsenal foi para cima dele", diz. "Ele teve um sangue frio danado. Estavam todos à flor da pele naquele dia", diz.
O jogo terminou 0 a 0.
"É ISSO MESMO QUE VOCÊ QUER?"
A saída de Kleberson de Manchester para o Besiktas foi, em parte, em comum acordo.
"Eu tive muitas chances, mas não tive sequência, por conta de lesões", diz ele. Quando a proposta turca apareceu, Kleberson quer queria sequência, decidiu ir embora.
"Além disso, a concorrência no meu setor era muito grande. Eu vim para o lugar do Verón, mas tinha muita gente boa para a minha posição como Scholes, Fletcher. Isso me dificultou", diz.
"Hoje, acho que teria sido melhor ter ficado pela Inglaterra", diz. "Acabei me precipitando. O presidente do clube (Roy Gardner) se reuniu comigo e perguntou, mais de uma vez: 'É isso mesmo que você quer?'", conta o jogador.
A última conversa com Ferguson foi muito boa, relembra-se o ex-jogador.
"Ele me explicou que, além das lesões, não era falta de qualidade o motivo pelo qual eu não tinha jogado tanto pelo time", conta o brasileiro. "Leva tempo para se adaptar a um novo time e tal, ele me disse. Mas deixou claro que as portas estavam abertas", diz.
Kleberson, porém, não voltou mais a passar por elas. Do Besiktas, veio parar no Flamengo, em 2007. Mas essa é uma outra história da bola...
