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Conheça o 'primo pobre' de Manchester, criado por frustração com os Glazer no United

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Cerveja, organização e futebol raiz: como é a 7ª divisão da Inglaterra (2:42)

Equipe da ESPN acompanhou F.C United of Manchester x Basford (2:42)

Imagine que seu time de coração um dia foi comprado por donos que você não gostaria nem de ver chegar perto dele. Sua reação de repulsa é tão grande que, em certo momento, você pensa: 'Cansei disso, vou fundar meu próprio clube'.

Parece algo de um extremismo quase irreal, mas aconteceu na Inglaterra!

Em 2005, irritados com a compra do Manchester United pelo bilionário norte-americano Malcolm Glazer, um grupo de torcedores dos Red Devils resolveu criar um novo time.

Nascia assim o FC United of Manchester, uma dissidência que busca lutar contra tudo aquilo que o gigante de Old Trafford se tornou.

Quando foi criado, o "primo pobre" do United foi inscrito na 10ª divisão inglesa, mas experimentou uma rápida onda de sucesso.

Contando com uma torcida apaixonada, o clube conseguiu três acessos em pouco tempo e hoje milita na Northern Premier League, uma das ligas da 7ª divisão.

Na última terça-feira, a ESPN visitou e conheceu o FC United of Manchester, acompanhando o jogo contra o Basford United, no estádio Broadhurst Park.

E a impressão foi das melhores!

'O RICO E O POBRE TÊM O MESMO DIREITO'

Antes da partida, nossa reportagem ganhou um tour guiado pelo Broadhurst Park, estádio para 4,4 mil pessoas que foi fundado em 2015 e erguido inteiramente com dinheiro dos torcedores.

Quem nos acompanhou foi Vinny Thompson, uma das mentes por trás da fundação do FC United of Manchester e que atualmente trabalha fazendo a ligação entre o time e a comunidade.

Thompson explica que a equipe é a mais igualitária da Inglaterra, sendo controlada inteiramente por seus torcedores. Para ser sócio, deve-se pagar apenas 15 libras (R$ 79,87) por ano, mas cada um pode contribuir com quanto quiser.

Ao se associar, porém, cada fã só tem direito a uma ação. Ou seja: não interessa se você paga 15 ou 15 mil libras, já que só possuirá um voto nas reuniões semestrais que determinam os rumos do clube.

"Aqui, o rico e o pobre têm o mesmo direito", salienta Vinny.

Além do direito a voto, qualquer torcedor pode colocar um tema para ser discutido nos encontros. Basta conseguir a assinatura de cinco outros membros e a pauta automaticamente é colocada em votação.

Esse espírito rapidamente uniu a comunidade em torno do FC United of Manchester. Atualmente, a equipe possui ótimos públicos para um time de 7ª divisão, e frequentemente joga com casa cheia, recebendo entre 2,5 mil e 3 mil torcedores.

Isso ocorre ao mesmo tempo em que muitos já não conseguem mais pagar o caro passatempo que é torcer para o Manchester United. Praticamente todos os fãs do United of Manchester seguem apaixonados pelos Red Devils, mas sem frequentar Old Trafford.

"Eu nunca abandonei o Manchester United. Foram eles que me abandonaram", lamenta Thompson.

Hoje, porém, ele está feliz da vida com o que ajudou a construir no United of Manchester.

"Somos uma dissolução contra o futebol moderno. Eu troquei as noites em Barcelona com o Manchester United por jogos em vilarejos de 1 mil habitantes com o United of Manchester, e falo isso com um sorriso no rosto", diverte-se.

Em seu trabalho unindo a equipe e a comunidade, ele luta para atrair cada vez mais jovens para o clube.

"Queremos que a garotada da classe trabalhadora tenha um lugar para ir, e queremos que eles tenham uma voz. Na Premier League, ninguém liga para eles", afirma.

"Somos apenas trabalhadores que cansaram de ser chutados por aí", completa.

'NÃO TEMOS DONOS RICOS'

Assim como ocorre na Premier League, muitas equipes das divisões menores da Inglaterra também possuem donos milionários e bilionários, que conduzem suas equipes de futebol como passatempos de luxo.

No FC United of Manchester, porém, a realidade não poderia ser mais diferente.

"Muitos times da nossa divisão têm donos ricos, mas nós não temos. Vivemos da força da nossa torcida e de nossos patrocinadores", conta Adrian Seddan, presidente da equipe.

"O que a gente pode oferecer de diferente aos nossos jogadores é um estádio moderno, com 3 mil torcedores que vão cantar sem parar, na vitória ou na derrota. Isso eu te garanto que os outros times não têm", exalta.

Seddan também segue torcendo para o Manchester United, mas não vai a Old Trafford desde 2005, quando Malcolm Glazer finalizou a compra dos "Diabos Vermelhos".

De acordo com o cartola, o "primo rico" não quer nem saber do FC United of Manchester.

"Não temos qualquer relação com o Manchester United. Para falar a verdade, eles sequer reconhecem a nossa existência", relata, antes de lembrar que, certa vez, o lendário técnico Alex Ferguson até criticou a decisão de criar a equipe, afirmando que os torcedores dissidentes só queriam "chamar atenção".

Seddan, porém, vê hoje no United of Manchester uma oportunidade de recuperar o que foi perdido no Manchester United.

"Aqui, nossos fãs terminam o jogo dizendo 'hoje nós ganhamos, hoje nós empatamos'. E isso faz sentido! Aqui, você pode chamar o clube de 'nós', porque realmente faz parte dele e é ouvido", explica.

"Nos clubes da Premier League, isso já não é mais a verdade: o verdadeiro torcedor passou a ser ignorado e afastado do estádio, enquanto aqui ele tem direito até a votar em qual será o modelo de uniforme para a próxima temporada", brada.

TÉCNICO É PROFESSOR DE GINÁSIO

Na Inglaterra, a primeira divisão profissional é a League 2, que é o 4º escalão nacional. Ou seja: equipes abaixo disso são semi-amadoras, com muitos atletas e treinadores se dividindo entre suas funções na "vida real" e no mundo do futebol.

No FC United of Manchester, não é diferente.

O técnico Neil Reynolds, por exemplo, é também professor de escola secundária (ginásio) ao mesmo tempo em que treina o clube.

À reportagem, ele confessa que sua escala é apertada e bastante cansativa, mas que adora a "vida dupla".

"Eu trabalho todos os dias para levar esse clube longe. Faço de tudo para não perder um treino sequer, apesar de ter que conciliar as minhas duas atividades", salienta.

"Meu emprego me dá a renda que eu preciso para viver. Mas isso aqui, o United of Manchester, é a minha verdadeira paixão", observa.

E, assim como Reynolds, boa parte dos atletas também é semi-profissional.

No jogo da última terça-feira, foi possível observar boa parte deles chegando ao estádio Broadhurst Park logo depois de saírem do trabalho e encararem o trânsito de Manchester para jogar pela 7ª divisão.

Na partida em si, o FC United of Manchester até saiu na frente logo no início, mas depois acabou levando a virada do Basford United, que é vice-líder da competição.

Apesar do revés, porém, os torcedores da equipe vermelha cantaram sem parar do início ao fim, agitando bandeiras e fazendo um barulho danado. Uma prova de que, no futebol, nem sempre o resultado é o que mais importa...