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Campeão brasileiro pelo Flamengo revela como é trabalhar com Jorge Jesus: 'Quer gracinha? Vai para praia!'

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Jorge Jesus é o melhor técnico do Brasil? Zé Elias opina (2:55)

Técnico português já caiu nas graças da torcida do Flamengo (2:55)

Comandante do Flamengo, líder do Campeonato Brasileiro e que está na semifinal da Libertadores, Jorge Jesus caiu nas graças de torcedores e jogadores rubro-negros. O "mister" fez uma longa carreira no futebol português - em clubes como Benfica e Braga - antes de se aventurar pelo Brasil.

O ex-zagueiro Gélson Baresi, revelado pelo clube da Gávea e campeão brasileiro em 1992 conhece bem o treinador. Eles trabalharam juntos por uma temporada no Vitória de Setúbal (2000/2001) e ficaram na segunda posição da Segunda Liga de Portugal, conquistando o acesso para a elite.

O brasileiro contou em entrevista exclusiva à ESPN suas melhores passagens com o técnico português, que hoje comandará o time rubro negro contra o Atlético-MG.

Fama de durão

Eu ainda não tinha informações sobre ele antes de trabalharmos juntos. Ele tinha uma fama de treinador durão, disciplinador e que trabalha forte. Os jogadores portugueses passavam isso para a gente. O Jesus chegou na sexta rodada do torneio e passamos a conhecê-lo no dia a dia.

Ele trabalhava o jogador no limite em todos os treinos, até mesmo na parte física e tática. Muitos jogadores não compreendiam isso, levando para o lado pessoal e se ofendendo.

O Jesus é um treinador que vive o futebol 24 horas por dia e transmite muita emoção. Tem horas que ele até extrapola. Mas quando você passa a conhecê-lo, entende que ele faz isso para melhorar a equipe. O jogador precisa entender a maneira dele lidar com o grupo.

Não era um cara de bajular. Os técnicos brasileiros têm um lado paternalista em função da carência dos jogadores. Treinador aqui precisa ser pai, terapeuta, administrador... Na Europa não tem isso. Lá, todos são profissionais, incluindo os jogadores. Depois que termina os treinos, cada um vai para a sua casa. É um lado mais frio mesmo.

Ele tinha 45 anos naquela época e corria com os jogadores. Claro, que era malandro, ia pela parte de dentro do campo para correr menos (risos). Ele incentivava os atletas correndo e gritando (risos).

'Aqui não é praia'

O João Pedro era um atacante brasileiro muito técnico e habilidoso. Jogava pelas pontas como um extremo. Em um dos treinos ele passou pelo lateral-esquerdo e chegou até a linha de fundo. O Jesus queria que o jogador fosse objetivo e cruzasse a bola na área para os atacantes. Só que ele esperou o lateral se recompor e tentou dar um corte de letra. Naquele momento, o 'mister' parou e disse: 'João Pedro, aqui não é beach soccer! Quer fazer gracinha? Vai para a praia!' Naqueles tempos, a seleção brasileira de beach soccer fazia muitos lances de efeito em jogos de exibição.

Eu conversava bastante com o Jorge, que me falava: 'Você é um zagueiro muito técnico e inteligente. Se fosse mais veloz poderia ser considerado um dos melhores'. Eu brincava: ''Mister', se eu fosse rápido eu não seria zagueiro. Eu seria atacante porque os defensores recebem bem menos (risos)'.

Ele no campo se transformava. Depois dos treinos tinha um comportamento muito agradável, batia papo conosco.

Bafômetro de Jorge Jesus

Ele não deixava levar os telefones celulares para o refeitório. Você só levanta da mesa quando o último terminar a sua refeição. Ou seja, ninguém comia rápido para ir se trancar no quarto. Ele usava esse momento das refeições para conversar com os jogadores. Não sei se ele faz isso hoje em dia, ainda mais hoje com a tecnologia.

'Jogador que sabe correr de costas é o diferencial'. O que é isso? É dar um ou dois passes para trás e dar opções de jogadas para os colegas de time. Os jogadores vão estar te vendo. Quando o atleta não sabia correr de costas, o Jesus mandava o cara dar uma volta correndo de costas pelas linhas do campo.

Nos jogos dos finais de semana não tinham concentrações. Ele ficava parado no túnel que dava acesso ao campo todo sábado esperando todos os jogadores para os treinos de manhã cedo. Você era obrigado a apertar a mão dele e a dar bom dia em alto e bom som. Com isso, ele conseguia ver se você tinha ido para a noitada. Ele olhava para a sua cara e conseguia sentir se você tinha consumido álcool na madrugada (risos). Dava para perceber se estava virado ou não.

'Do pescoço para baixo são todos iguais'

Ele dava uma ênfase muito grande na parte tática. Ele costumava dizer: 'Do pescoço para baixo, os jogadores são todos iguais. A diferença está do pescoço para cima. O que diferencia o bom do excelente é a cabeça'.

O Jesus colocava estacas em campo para cada posição e ia explicando o que cada um deveria fazer. O trabalho tático dele durava até duas horas. Tínhamos um lateral-direito que era bem alto. Se no jogo o adversário estava com dois atacantes dentro da área, o lateral virava um terceiro zagueiro. Ele dava um comando com alguma palavra e a gente mudava no jogo sem trocar peças.

Nós tínhamos o Eliseu, um zagueiro canhoto e muito alto como é o Pablo Mari. O Jesus o mandava para o ataque quando precisávamos do resultado e já tínhamos tudo planejado durante a semana de como iríamos fazer.

É um dos treinadores que mais aprendi taticamente, é um fenômeno. Eu evoluí muito como jogador e passei a aprender mais. Ele mudava todo o sistema de jogo sem trocar uma peça em campo, sem substituir ninguém.

'Espero que ele me reconheça'

Jesus sempre gostou de jogadores brasileiros. Eu achei que ele poderia ter problemas para se adaptar à cultura do futebol brasileiro aos 66 anos. Mas ele é muito inteligente e conseguiu entender como funcionam as coisas aqui e ter um elenco com muita experiência na Europa o ajudou demais. Os atletas mais experientes auxiliam os mais novos. Senão, poderia ter problemas no ambiente de trabalho. O Flamengo dá o apoio e credibilidade para que ele possa exercer o trabalho. Nosso lado paternalista atrapalha o amadurecimento dos jogadores brasileiros.

Agora que ele está morando no Rio de Janeiro eu quero reencontrá-lo. Nunca mais nos vimos. Estou com os cabelos mais brancos e ficando careca, mas espero que ele me reconheça (risos). A gente conversava bastante e tínhamos afinidade. É um cara que tem muito para ensinar. Ele sempre tinha umas tiradas que se você analisa depois dá razão ao 'mister'.