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Enderson diz que foi fritado no Santos e explica por que não queria Ronaldinho no Flu

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Enderson Moreira elogia Ronaldinho Gaúcho, mas lembra que jogador 'não queria pagar o preço da dedicação' no Flu (2:08)

Treinador falou sobre a parte física que era necessária para que o jogador pudesse corresponder em campo (2:08)

Uma das histórias que ainda surpreende Enderson Moreira, 47, e com passagem por clubes tradicionais do futebol brasileiro, é a forma como ele foi desligado do Santos em 2015.

Hoje comandante do Ceará, na época ele tinha pouca bagagem em clubes do tamanho do Santos, mas a demissão não ocorreu por falta de resultados. O time ostentava a melhor campanha no Estadual e estava invicto, com cinco vitórias e dois empates.

“Eles me fritaram lá dentro”, diz o treinador, sem hesitar.

O “eles” se refere a diretoria da época, que chegou a divulgar nos bastidores que Enderson não era querido pelo elenco e não gostava de trabalhar com a base.

O treinador ficou chateado. Estava sobrevivendo a um desmanche forçado, com a saída de nomes como Aranha, Arouca, Edu Dracena, Mena, entre outros, por falta de pagamentos.

“O Santos não tinha dinheiro. Todo dia que eu chegava para dar um treino tinha um jogador que tinha conseguido uma liminar na Justiça”, relembra.

A demissão ocorreu após sete meses. Um desgosto quase parecido com o que ele sentiu no Fluminense também em 2015. A missão era ajudar a reerguer um clube que enfrentava tinha dificuldades financeiras. Mas o trabalho durou apenas 118 dias.

Teve uma arrancada inicial, mas coincidentemente a fase mudou após a chegada de Ronaldinho Gaúcho, astro mundial, mas que já estava aquém da melhor forma física.

“Eu não era favorável a vinda do Ronaldinho”, diz, novamente sem titubear.

“Ele é um jogador excepcional. Um dos maiores que eu vi jogar. Um grande ídolo. Mas estava numa fase em que queria continuar jogador, mas não queria pagar o preço por isso”, explica.

As duas histórias são apenas um pouco da longa experiência que Enderson Moreira guarda consigo em mais de 30 anos trabalhando com futebol.

Passou para o futebol profissional. Trabalhou no Fluminense, no Santos, no Grêmio e no Athletico-PR, embora os trabalhos de destaque tenham sido no Goiás e no América-MG.

Hoje no Ceará, ele conseguiu fazer a equipe surpreender o Corinthians, arrancando um empate por 2 a 2 em Itaquera (com direito a gol olímpico), e o Palmeiras, impondo a primeira derrota ao time alviverde após 33 jogos de invencibilidade no Brasileiro.

Atendeu a ESPN antes do confronto com os corintianos em uma conversa que explicou como se preparou profissionalmente, contou bastidores e disse ter evoluído com as frustrações.

Veja a íntegra da entrevista com Enderson

ESPN – Enderson Moreira tentou ser jogador?
Enderson Moreira – Apesar de ter nascido em São Paulo, me mudei cedo para Belo Horizonte. Vim da periferia, com poucas possibilidades. Na época, atuava em equipes pequenas, o Venda Nova e o Santa Tereza. Jogava como volante, mas muitas vezes virava zagueiro pela estatura (1,73 m). Ganhava uma ajuda de custo muito pequena. Por ser o mais velho de quatro irmãos, meu pai era mecânico, minha mãe era e ainda é do lar, em um determinado momento vi que não podia arriscar. A inspiração foi o Ricardo Drubscky, meu treinador no Venda Nova sub-15. Ele tinha uma forma de trabalhar diferente. Em 1986, ele já trabalhava com pequenos jogos, com organização tática. Eu pensei: Se não for jogador, quero ser um treinador assim.

ESPN – Foi aí que decidiu estudar para trabalhar com futebol?
Enderson Moreira – Como eu não fui atleta profissional, me transformei em preparador físico. Coincidentemente, eu comecei a trabalhar no Venda Nova, em 1992. Em 1995, eu fui convidado pelo Ricardo para ir para o América-MG. Trabalhei com ele dois ou três anos. Até que em 1998 eu liguei para ele e falei: ‘Estou pensando em virar treinador’. Eu já fazia a função de auxiliar técnico. Essa chama de ser treinador é muito mais presente na minha vida do que qualquer outra coisa. A preparação física foi um caminho para chegar ao futebol.

ESPN – Você mencionou que não podia arriscar muito. Teve outras profissões?
Enderson Moreira – Tive uma origem humilde, embora nunca tive problema com alimentação. Nunca, nunca! Meu pai era muito ligado nessa questão. Em contrapartida era muito pouco ligado em outras coisas. A nossa casa era muito simples. Questão de roupa, de tênis, qualquer outra coisa, para nós foi muito difícil. Eu sempre fui muito ligado a questão de escola, de estudar. Sempre estudei em escola pública. Nunca fiz um cursinho e passei pela primeira vez no curso de educação física numa federal. Minha mãe, que tem apenas a primeira série do ensino fundamental, foi a maior incentivadora da minha vida.

ESPN – Mas chegou a ter outros trabalhos?
Enderson Moreira – Eu tive alguns outros trabalhos paralelos. Fiz dois cursos no Senai. Sou formado como torneiro mecânico e em usinagem mecânica. Fiz datilografia e trabalhei muito nessa área. E quando era mais novo eu fazia pequenos serviços, não era para poder me alimentar, mas para juntar dinheiro e comprar um uniforme para o time. Carregava compra em feira. Pegava os carrinhos de mão e colocava as compras e levava até a casa da pessoa. Vigiava carros.

ESPN – Quando sentiu que sua carreira ia deslanchar?
Enderson Moreira – A Copa São Paulo de 2007 foi determinante para que eu pudesse me manter no futebol. Sou formado em educação física e havia muita disputa entre o ex-atleta e o cara formado. Rola preconceito de ambas as partes. É uma grande bobagem. São conceitos e atividades diferentes, embora tenham o mesmo pano de fundo. Eu comecei a enfrentar a desconfiança e a partir da conquista da Copinha passei a ser respeitado.

ESPN – Como foi o salto da base para o profissional?
Enderson Moreira – Meu sonho era ser um treinador de base. Só. Nunca tinha expectativa de virar um treinador profissional. Primeiro que eu achava impossível. Segundo que eu queria ajudar na formação de atletas. Eu sou professor por essência. Talvez se eu não tivesse sido mandado embora do Cruzeiro, eu estaria até hoje no sub-20. Me empurraram para isso. Depois da Copa São Paulo e do Brasileiro sub-20, me jogaram para fora. Não tive outro recurso a não ser trabalhar. A coisa foi acontecendo.

VÍDEO ABAIXO! ENDERSON REVELA BASTIDORES DA PASSAGEM PELO SANTOS

ESPN – Quando chegou ao Santos em 2014 e depois vieram críticas, nas quais disseram que você não gostava de trabalhar com base, você...
Enderson Moreira – Na verdade, a questão do Santos foi uma história muito mal contada, principalmente pelas pessoas que participaram efetivamente do momento. Deixei o Grêmio e estava com uma negociação muito adiantada com o Vasco, mas o Vasco não bateu o martelo em algumas coisas e eu receb9 o telefonema do André Zanotta me convidando para ir por Santos. Era após Oswaldo Oliveira e ele era muito querido pelo grupo. Eu cheguei lá sem ter culpa por essa troca. Me trataram de uma forma não muito justa. Eu não tinha culpa de nada. Aí cheguei lá e conseguimos ficar no meio da tabela, se não me engano, nono lugar. Teve uma eleição no final do ano. Foi eleito um outro presidente, um que não tinha me contratado. Que não tinha nenhum tipo de ligação comigo. Na verdade, ele tinha vontade de me mandar embora no primeiro dia. Ele só não mandou porque tinha que pagar a multa. E o Santos não tinha dinheiro. A verdade é essa. E começamos o trabalho. Mas todo o dia que eu chegava ao Santos tinha um jogador que tinha conseguido uma liminar na Justiça e saído.

ESPN – Realmente, os jogadores estavam com salários atrasados e conseguiram rescindir os contratos na Justiça. Saíram muitos líderes e jogadores experientes...?
Enderson Moreira – O Dracena foi praticamente expulso do Santos. Poucas pessoas sabem disso. Eles fizeram o Dracena pedir para ir embora. Saíram o Arouca, o Aranha, o Mena... deixa ver se não estou esquecendo alguém. [Damião?] O Damião também saiu, mas foi diferente. Eu sei que todo dia eu chegava e tinha um jogador saindo. Nós reformulamos o elenco. Trouxemos Vanderlei, Werley, Valencia, Chiquinho. Promovemos a subida do Caju, lateral esquerdo...

VÍDEO ABAIXO! ENDERSON CONTA RELAÇÃO COM BASTIDORES E SAÍDA DO SANTOS

ESPN – Ironicamente, o início do Santos em 2014 foi bom, mas te cobravam para colocar o Gabigol, que ainda era uma promessa.
Enderson Moreira – Eu sei que a gente remontou o Santos. E o Santos começou a ir bem. Começou o Paulista e a gente se manteve invicto. O Gabigol participou da seleção sub-20. Então, ele perdeu toda a preparação. Quando ele chegou, o time tinha dado uma encaixada. O Santos trouxe o Ricardo Oliveira. Já tinha o Robinho. Trouxe o Elano também. Nossa linha de frente, que tinha encaixado muito bem, era Lucas Lima, Geovânio, que vivia ótimo momento, Ricardo Oliveira e Robinho. Esse time estava jogando muito. O Gabigol chegou e eu não tinha quem tirar. O Ricardo Oliveira era um dos mais efetivos do campeonato. Robinho não tinha como. Geovânio era um jogador de velocidade. Ele [Gabigol] participava muito, mas não era o titular. De alguma forma, isso incomodou algumas pessoas, que falaram, de maneira injusta, que eu não gostava de trabalhar com base. Minha origem é a base, onde eu passei foi por base. Agora eu não tenho culpa que o menino foi participar da seleção de base e foi muito mal, a seleção foi muito mal, tomaram pancada para tudo quanto é lado, e ele chega com time já pronto. Naturalmente o Gabigol ia jogar, mas ele tinha de esperar o momento dele. Mas a direção não queria esperar esse momento. Eles foram e me fritaram lá dentro. Chegaram em uma reunião um dia e falaram que eu tinha dado uma entrevista e me mandaram embora. Para justificar minha saída invicta do Paulista, começaram a justificar que eu tinha brigado com jogador, que jogador tinha colocado em grupo de WhatsApp que estava muito feliz por eu ter ido embora.

ESPN – Nada disso aconteceu? Disseram na época que você cobrava os jovens de forma diferente, até mais ríspida.
Enderson Moreira – Ninguém nunca levantou isso até eu sair. Quando fui embora começaram a colocar essas justificativas. Cobrança é claro que tem, eu cobro a todo instante.

VÍDEO ABAIXO! ENDERSON RELEMBRA 'SOBERBA' DO FLUMINENSE COM RONALDINHO

ESPN – Em 2015, quando voltou ao Fluminense, pegou um clube em situação difícil como o Santos, não?
Enderson Moreira – A Unimed saiu um ano antes. É um grande problema quando um clube entrega toda a sua gestão para um patrocinador. Quando ele sai, é terra arrasada. Eu talvez tenha perdido algumas boas oportunidades de estar em outro patamar, mas isso foi tão importante para mim como crescimento que se eu tivesse dado certo do jeito que eu pensava eu seria pouco consistente do que eu sou hoje. Hoje eu tenho a visão ampliada porque como eu tive essas decepções em termos de resultado, não de trabalho, eu corri muito atrás para buscar meu caminho. O América-MG de 2017 foi um grande marco. Foi campeão brasileiro da Série B em cima do Internacional e jogando futebol de alto nível. Tivemos só cinco derrotas. Ficamos 21 jogos sem sofrer gols. É o time que mais finalizava, apesar de não ser o melhor ataque. Me deu muito orgulho e a partir disso os trabalhos foram mais consistentes. No próprio Bahia, no Ceará; eu agradeço muito esses percalços na carreira. Me fizeram crescer. Poderia estar em outro patamar, mas não com a visão que tenho hoje do jogo, com a serenidade que convivo com as decepções. Antigamente me culpava demais. Achava que tinha de mudar tudo.

ESPN – Voltando a pergunta: o Fluminense foi uma frustração?
Enderson Moreira – Em 2015, Fluminense passava por esse momento. E a gente colocou uma meninada para jogar. Tinha o Fred, o Scarpa estava sendo emprestado para o náutico e eu não deixei. O Marcos Júnior estava sendo liberado e eu reintegrei. O Gerson era da base. E a equipe encaixou de uma maneira que a gente começou a ganhar jogos. Estávamos quase brigando pela liderança do campeonato. Quando isso aconteceu, o Fluminense teve soberba. Eu até falei que a gente precisava buscar umas peças no mercado. Naquele momento o Fluminense quis, como se fosse um tapa de luva no patrocinador, trazer o Ronaldinho Gaúcho. Ninguém conseguiu trazer, então nós vamos trazer por conta prórioa. Ele é um jogador excepcional. Um dos maiores que eu vi jogar. Um grande ídolo. Mas ele estava numa fase em que queria continuar jogador, mas não queria pagar o preço. O jogo de futebol tem uma parte muito física. Infelizmente ela não permite que os grandes talentos possam perdurar durante muito tempo se eles não se cuidarem, mais até do que os outros atletas. O Ronaldinho não queria pagar esse preço. Demos essa possibilidade para ele, mas a resposta não foi positiva. Clube começou a cair, começou a ir mal. Não em função dele, mas as coisas não encaixaram bem. Eu não era favorável a vinda do Ronaldinho. Não pelo atleta, que é um baita de um cara, excepcional. Só tenho coisas boas sobre o Ronaldinho. Ronaldinho não atrapalhou em nada. Não tem culpa de nada. Mas eu tinha na minha cabeça uma perspectiva diferente. Tive de refazer isso em função desse desejo da diretoria de contar com ele. Ele foi fundamental na caminhada do Atlético-MG na Libertadores, mas se passaram dois anos. No Fluminense a coisa não funcionou. Acabou o Enderson pagando por isso. Foi uma pena. Um processo que a gente deu uma volta bacana.