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Visão de Maestro: o time de futebol de cegos do pentacampeão mundial Ricardinho

O que um pentacampeão mundial de futebol pode esperar da vida depois de ter conquistado, além de títulos, dinheiro, fama e prestígio? Esta é a pergunta que a família Pozzi Rodrigues pôs na mesa após a aposentadoria do filho mais famoso, Ricardinho.

A resposta do ídolo do Corinthians, craque da seleção brasileira e de outros tantos times, foi reunir a família e sair a campo, mas de outra forma. Com a intenção de devolver à sociedade um pouco do que ganhou durante boa parte da vida com o esporte, ele chamou dona Roseli, sua mãe, e Renata, sua irmã, e juntos resolverão pôr as mãos à obra.

Para colocar em prática o projeto social, Ricardinho contou com a sabedoria e a experiência da mãe, professora aposentada da rede pública, e da irmã, administradora de empresas, com forte vocação para o desenvolvimento de trabalhos no terceiro setor.

Assim começou a Associação Maestro da Bola há um ano e meio, com apenas um núcleo, atendendo 60 crianças. No entanto, o sucesso veio rápido, como um dos lançamentos, dribles ou gols do craque Ricardinho nos velhos tempos.

Hoje, o projeto se espalhou pelo subúrbio da capital paranaense, atendendo cerca de 1.220 crianças em 13 sedes. Além das atividades esportivas e culturais, as crianças de 7 a 14 anos recebem lanches e uniformes do projeto.

Para que a Maestro possa andar com as próprias pernas, Ricardinho é peça-fundamental na busca de parceiros e empresários que ajudam a sustentar as atividades.

Com sua imagem e credibilidade, o ex-jogador e hoje comentarista também conseguiu fechar parcerias importantes com o poder público, como a Prefeitura de Curitiba. Além de ceder as quadras e os espaços para a prática esportiva, o órgão também colocou à disposição dezenas de professores de educação física da rede pública de ensino.

No primeiro episódio da reportagem, você conhece os detalhes desse projeto fantástico, que promete mudar a cara da periferia de Curitiba e ser referência de um trabalho onde educação e esporte caminham juntos, transformando crianças e adolescentes de famílias de baixa renda.

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A @smeljcuritiba publicou uma matéria muito bacana na página da @curitiba_pmc . Acompanhe o link completo no Facebook! A equipe de Futebol de 5 treina todas as segundas, e quartas-feiras, das 17h30 às 19h, no Centro de Esporte e Lazer da Praça Oswaldo Cruz, no Centro. A equipe é mantida por meio de uma parceria entre a @curitiba_pmc , a @smeljcuritiba e o @projetomaestrodabolaricardinho. O ginásio da praça Oswaldo Cruz está sempre aberto nos dias de treinos para quem quiser conhecer esta modalidade do padesporto e acompanhar a dedicação dos atletas. Em Curitiba tem esporte para todo mundo! #VivaEsporte #VivaCuritiba #inclusaosocial #fut5 #pracegover: fotos dos treinos e da equipe de fut5 na Praça Oswaldo Cruz. https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/curitiba-volta-a-ter-equipe-de-rendimento-no-futebol-de-cegos/52109

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Diário de um repórter que está perdendo a visão

O convite para a pauta veio por intermédio do jornalista Rubens Pozzi Jr., que por coincidência é primo-irmão de Ricardo e Renata. Pozzi já havia visto de perto, em visita à família em Curitiba, o tamanho e a importância do projeto de inclusão.

Sabedor do problema visual que venho enfrentando desde 2008, quando foi descoberta a doença que causava a minha queda de visão, ele disse: “Marcelo, tem um projeto maravilhoso, tocado pelo Ricardinho e pela família dele, que resgatou um time de futebol de cegos que não existia há mais de 7 anos em Curitiba. Você se anima em fazer a matéria? Tem cada história lá...”.

Sem titubear, disse sim e perguntei: “Quando viajo”?

A princípio sabia que teria pela frente um farto e rico material em mãos, cheio de histórias fantásticas de vida, dramas e muita superação. Sabia também que a missão jornalística não seria tão fácil de exercer e assimilar, pois faz 11 anos que vivo o drama da perda gradativa da visão. Nos dois últimos anos a situação vem se complicando, pois, até então, eu tinha total autonomia para andar sozinho pelas ruas, costumes que aos poucos venho perdendo por causa da limitação visual.

Trabalhando como repórter nos canais ESPN, sempre consegui viajar sozinho, como todos fazem normalmente, mas nessa viagem até Curitiba, logo de cara tive que enfrentar uma situação jamais vivida antes.

Hoje, enxergando com um olho só e apenas 10% de longe e 30% de perto, já que perdi o esquerdo há uns 8 anos, a verdade é que não dá mais para andar sozinho, ainda mais em lugares onde não estou acostumado a frequentar diariamente, como um aeroporto movimentadíssimo, como o de Congonhas, por exemplo. O problema é que, além de correr o risco de trombar, machucar alguém ou me machucar, os números dos voos nos painéis já não são mais decifrados pelo meu único olho.

Como a equipe de gravação que trabalharia comigo já estava na capital paranaense, minha aventura de um “semideficiente” começou no embarque no aeroporto de Congonhas, o mais movimentado do Brasil. Fora a tensão do início, o resto foi fichinha. Logo cedo, minha esposa Eleane me levou até o balcão para fazer o check-in. Ali mesmo, a funcionária da companhia aérea chamou uma outra pessoa, que me acompanhou até uma sala especial, já no embarque.

Assim, ela atravessou comigo pelo saguão, pegamos o elevador, passamos pelo raio-X até me deixar esperando em uma sala reservada para passageiros com necessidades especiais.

Ali, meio deslocado, meio sem saber o que fazer ou o que falar com os novos amigos, permaneci quieto, só observando a atitude de cada um.

Por alguns momentos refleti: “Como sou besta. Aqui todo mundo age de forma normal, ou será que deveria ser diferente? Sei lá, melhor eu ir me acostumando e aprendendo com um novo mundo”.

Ali vi que todos eram alegres, altivos, otimistas, enfim, “normais”. Mais uma vez pensei como sou besta e preconceituoso. Ali vi que a vergonha ou a depressão passavam longe de cada um, mesmo com aqueles que necessitam de cadeiras de rodas, aparentemente sem chances de voltar a andar.

Pensei várias vezes: “Não dá para se entregar, muito menos reclamar, pois estamos vivos”. E não é mesmo?

Não demorou muito e veio um outro rapaz chamando o meu nome. Confesso que, nessa mudança recente, às vezes me incomodo com o jeito que a pessoa se oferece para ajudar.

Alguns vem fazendo cara de coitado para a gente. Muitos, mesmo cheios de boa vontade, não têm a mínima ideia de como conduzir uma pessoa cega ou com baixa visão.

E, como eu ainda enxergo um pouco e ainda estou me acostumando com isso, geralmente sempre coloco a mão no ombro da pessoa, no caso o condutor, e saio andando ao lado.

No início, mais uma vez preconceituoso como a maioria das pessoas, ficava preocupado de alguém achar que estava andando abraçado com um namorado, no caso de um homem, ou com uma amante, no caso de uma mulher desconhecida.

Que besta quadrada eu fui!

O rapaz que me conduziu até a aeronave, a exemplo da menina, acredito que faziam parte do programa “Menor Aprendiz”, ambos educadíssimos e muito generosos comigo. Se tivesse que dar uma nota para esse serviço das empresas aéreas que eu não conhecia, seria nota 10, ou melhor, 1.000.

Já acomodado na aeronave, a orientação do comissário era para que, na chegada em Curitiba, eu esperasse todos os passageiros descerem para ser conduzido por um outro funcionário da companhia até o portão de desembarque.

Dito e feito. Depois de 45 minutos de viagem, lá estava um outro condutor. Ele me levou de encontro com o cinegrafista que me esperava na porta de saída do aeroporto.

Foi uma bela experiência, que recomendo a todos que tem algum receio de viajar sozinho.

Já na capital paranaense, segui com a equipe para a primeira parte das gravações. Fomos ao núcleo do Projeto Maestro, no Centro de Esportes e Lazer do Bairro Novo. Lá conheci a irmã de Ricardinho, Renata Rodrigues Neves, que é a alma, o coração e provavelmente os braços da Associação, presidida pela mãe Roseli.

Passamos umas três horas gravando as crianças e fizemos a nossa primeira entrevista com a Renata. Foi aí que entendi, mais uma vez, o significado, na essência, da palavra superação. Renata tem 36 anos, é casada e mãe de duas filhas. Acontece que, no ano passado ela foi diagnosticada com câncer. A verdade é que nem reparamos que ela estava com os cabelos curtos, tudo por causa dos terríveis efeitos colaterais dos tratamentos de quimioterapia e radioterapia.

Mesmo se recuperando da doença, Renata se apresenta como uma leoa à frente, tanto do projeto social com as crianças carentes do subúrbio, quanto com o espetacular time de futebol de 5, resgatado pelo irmão, Ricardinho.


Conheça mais sobre o futebol de cinco e os desafios de quem começa a praticá-lo


Em vez de deficientes, eficientes

À noite, finalmente encontramos o time do futebol de 5, formado por 12 cegos. Eles estavam fazendo o último treino antes da viagem para São Paulo, local do Torneio Sul-Sudeste. A ambição deles era subir da Série C para a Série B da categoria.

Da arquibancada do ginásio assisti à gravação das imagens. De lá, acompanhei cenas jamais imaginadas nos meus 20 anos de ESPN e quase 30 de carreira como jornalista esportivo.

A noção de espaço dos caras em quadra lembra muito a dos jogadores do futsal convencional. Mas, para que tudo funcione perfeitamente sem que haja um encontrão ou uma trombada mais grave, é preciso silêncio para que os jogadores possam se locomover, driblar, carregar a bola e chutar com segurança ao gol.

Da arquibancada, vi os atletas da Maestro, todos completamente cegos, se exercitando e treinando o futebol de 5 como se fosse um time profissional de futsal. De lá, avistei um tal de Dudu, bem gordinho para os “padrões ditos normais do esporte”, chutando um foguete atrás do outro em direção ao goleiro Oliver que, sinceramente, mesmo sabendo que ele enxergava, fiquei com pena do cidadão bombardeado o tempo todo.

Foram três dias de gravações, visitando os jogadores em suas casas em Curitiba, e outros três dias convivendo com o time durante os jogos em São Paulo, durante o campeonato que eles disputaram no Centro Paraolímpico de alto rendimento na capital paulista, um verdadeiro oásis do paradesporto brasileiro, com instalações incríveis para o desenvolvimento de todos os esportes paraolímpicos.

Durante as partidas, entendemos a grande diferença dos treinos e dos jogos, disputadíssimos. Os adversários da Maestro são formados por jogadores experientes de times que fazem parte da elite, ou seja, disputam a Série A da modalidade.

Foi nesse torneio que conhecemos o primeiro professor de educação física cego do país.

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O sonho de muita gente é conhecer o seu ídolo de futebol! ⚽ E isso não é exclusividade das crianças! Pois Jonatas, nosso atleta de futebol de 5 (modalidade destinada a deficientes visuais) teve esta oportunidade! Visitando a sede da ESPN Brasil, o atleta e a coordenação do @projetomaestrodabolaricardinho estiveram nas gravações do canal e foi emoção pura ao conhecer o ídolo do São Paulo, Hernanes (@hernanesoj). Agradecemos a @espn por possibilitar este momento único e ao craque pelo carinho. #muitomaisquefutebol #smelj #zinzane #velhomadalosso #idaza #fut5 #realizandosonhos #pracegover: Jonatas, da seleção Curitiba/Maestro de Fut5 conhece seu ídolo, Hernanes, do São Paulo, durante visita à ESPN.

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O professor Mário Sérgio Fontes é o maior exemplo de que é possível fazer, estudar e lecionar esporte. Já formou centenas de profissionais da educação física e é o maior responsável do desenvolvimento do futebol para deficientes visuais no Brasil.

Mário tem 62 anos. Ficou cego quando ainda era criança, aos 3 anos, quando estava com os pais em um parque, assistindo à um evento de aeromodelismo. O acidente com ele ocorreu quando um aviãozinho perdeu as duas hélices, que encontraram exatamente os seus dois olhos em terra. Hoje, o professor Mário costuma brincar com o drama ocorrido há quase 60 anos, e brinca: ”Rapaz, se fosse um jogo da Mega-Sena acumulada eu teria ganho duas vezes, né?”, diverte-se Mário.

A seguir, a entrevista completa e exclusiva com o mentor de tantos professores da educação física, com uma revelação incrível do desbravador do futebol para deficientes visuais do estado do Paraná. Acreditem, aos finais de semana, Mário se diverte nas praias do litoral pilotando barco e, agora, com um novo brinquedo que ele acaba de adquirir: um Jet ski.


Conheça a história do professor Mário Sérgio Fontes


Audiodescrição nos canais ESPN

Aproveitando a estreia da série “Visão de Maestro, jogando ao lado da sociedade”, os canais ESPN lançam uma novidade para o imenso universo de brasileiros deficientes visuais, um novo recurso de acessibilidade: a audiodescrição.

Será a primeira vez que a emissora exibirá, no Brasil, uma série de reportagens especiais com audiodescrição. Serão três capítulos, exibidos no SportsCenter a partir de 10 a 12 de setembro, sempre às 17h (de Brasília).

Para que o recurso possa ser apreciado por um deficiente visual, basta que alguém o auxilie acionando a tecla SAP. Ou o ajuste de áudio, na maioria das vezes, um botão verde do controle remoto da operadora de TV por assinatura. Com esse recurso, o deficiente visual consegue ter uma leitura mais ampla da reportagem, obtendo muito mais informação.

A audiodescritora Lívia Motta é o maior nome desse tipo de recurso no país. Ela fez doutorado em Linguística Aplicada, Estudos da Linguagem, pela PUC-SP, em 2004, sobre o ensino e a aprendizagem em inglês para alunos cegos e com baixa visão. Parte do doutorado foi feito na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, onde conheceu a audiodrescrição.

“A ferramenta tem como objetivo complementar o entendimento de quem está assistindo, mas não está vendo as cenas e as imagens que estão na reportagem. Nosso trabalho busca o tempo todo transformar as imagens em palavras”, define a profissional, que também participou da reportagem na visita da equipe da Maestro ao Museu do Futebol no Pacaembu.


O barulhinho é o sinal para o deficiente visual que o conteúdo que será exibido terá o recurso da audiodescrição


Visão de Maestro, quando a reportagem ensina

Quer conhecer as fantásticas histórias e as incríveis jogadas dessa turma boa de bola? Então vale repetir: fique ligado no SportScenter entre os dias 10 e 12 de setembro, sempre às 17h, ou acesse o WatchESPN e confira, com exclusividade, os três episódios da série com o recurso da audiodescrição. Avise os amigos com ou sem deficiência visual e entenda como essa nova ferramenta funciona na prática.

Ah, em relação à minha experiência com os “eficientes" jogadores do futebol de 5 da Maestro, o que posso dizer é que, como jornalista, eu deveria pagar e não receber salário para estar com eles.

Com os atletas, aprendi a dar valor ao que sobrou e não ao que caiu do meu corpo. Aprendi a valorizar o que tenho e não o que perdi. Por vezes, relutei quando alguns deles me aconselharam a pensar em usar muleta para quem tem baixa visão. Com eles, aprendi que há vida, com ou sem visão. Com eles abri minha cabeça, me preparando para novos desafios, com ou sem visão.

Com os jogadores da Maestro, enxerguei muito além dos meus olhos, cansados de procurar um ledo milagre ou uma esperançosa solução. Com o Keno, o filhinho do atacante Jonatas, cego de nascença e apenas 2 aninhos de idade, aprendi a enxergar Deus e a luz nas pequenas coisas.

Que belíssima e inesquecível reportagem foi essa!

Vida longa aos Maestros da Vida!