Embora não seja conhecido por encarar como prioridade as questões de igualdade de gênero, o governo Bolsonaro está olhando com atenção individualizada para o crescente fenômeno do futebol feminino no país.
O Ministério da Cidadania, que engloba a Secretaria do Esporte, nomeou Kleiton Lima para a ocupar uma assessoria especial dentro da Diretoria de Futebol profissional da pasta, há pouco mais de um mês. E um dos focos primordiais dele será o fomento de políticas públicas para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil.
Assim, ele vê com bons olhos por exemplo, a contratação da sueca Pia Sundhage para técnica da seleção feminina. Mas vê até mesmo tal movimento como um reflexo da falta da estruturação da modalidade no País.
Jogadoras à parte, Lima é um dos personagens mais relevantes na história do futebol feminino nacional. Em 1995, com 21 anos, ele fundou a primeira escolinha de futebol voltada para mulheres, na Baixada Santista. Dois anos depois, ele chegaria ao Santos para comandar o início da modalidade na Vila Belmiro, com a criação das "Sereias da Vila", como a equipe ficou conhecida.
Em 2007, chegava à seleção brasileira sub-20. E, um ano depois, tornava-se o comandante da equipe nacional principal, pela qual conquistou a Copa América, o Sul-Americano (que deu vaga na Copa do Mundo de 2011 e na Olimpíada de 2012) e a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara-2011.
Portanto, é com bastante conhecimento de causa que ele afirma: "Ainda há muito para progredir". Mas pondera: "Quando eu comecei, era bem mais difícil".
"A evolução não vai acontecer da noite para o dia. Mas existe hoje um momento de muito respeito e admiração para a modalidade. Percebo que o preconceito caiu por terra", acredita.
Kleiton Lima relembra que, quando começou seu trabalho, mesmo dentro do Santos, era difícil convencer conselheiros mais velhos quanto à relevância da modalidade.
"Quando idealizamos as Sereias, houve muita resistência", relembra-se. Mas nenhuma resistência era mais difícil do que a falta absoluta de estrutura básica.
Já no governo Bolsonaro, Kleiton afirma que não apenas não há resistência ao futebol feminina, mas sim uma ideia clara de que é necessário investir e incentivar o crescimento da modalidade.
"Estamos vinculados ao Ministério da Cidadania, que tem como missão o progresso da sociedade. Não tenho dúvida do interesse do governo em apoiar o crescimento do futebol feminino nesse contexto", diz. "O presidente, por exemplo, fez questão de parabenizar o desempenho da seleção no Mundial", diz.
ANÔNIMAS
O caminho que um garoto que sonha em ser jogador tem de percorrer é mais ou menos claro. De uma escolinha ou mesmo da várzea, o garoto vai normalmente para uma peneira e faz um trajeto que começa no Sub-13 e e segue por etapas definidas até o sub-20, último degrau antes do profissional.
"No feminino, houve casos de eu convocar jogadoras completamente anônimas que, de repente, estavam treinando na Granja Comary, no campo ao lado onde a seleção principal masculina estava treinando, por exemplo", diz.
"Muitas não foram desenvolvendo, ao longo do tempo, uma mentalidade de jogadora profissional. Elas se viram nesse papel, de repente", conta. "E é claro que isso afeta a maneira como elas desenvolveram suas carreiras", diz.
Kleiton Lima acredita que uma das missões do governo é massificar a oportunidade da menina que sonha ser jogadora de futebol.
DIAGNÓSTICO
Atualmente, Kleiton está fazendo um levantamento do que foi feito nos últimos mandatos e quais foram os resultados obtidos. Além disso, vem aos poucos conversando com clubes e federações, inclusive com Walter Feldman, secretário geral da CBF.
Lima pretende organizar câmaras temáticas sazonais de discussão que possam atacar os problemas do futebol como um todo. O próximo grande passo da diretoria de futebol profissional é a criação de um marco regulatório para o futebol brasileiro, incluindo o feminino.
É a partir disso, por exemplo, que o governe pretende garantir que jogadores e jogadoras passem a ter os mesmos direitos. Mesmo coisas básicas, como a obrigatoriedade do registro das jogadoras em carteira de trabalho, ainda precisa ser regulamentado.
O estabelecimento de um calendário que permita às jogadoras planejarem suas carreiras também é visto como fundamental.
"O futebol brasileiro tem a condição única de ser, ao mesmo tempo, um patrimônio cultural e uma ferramenta de inclusão. Olhar para a modalidade com qualquer olhar que não seja esse é fazer um trabalho incompleto", afirma.
Parte dessa trabalho passa também pela formação de profissionais para atuarem em funções extra-campo.
"Não adianta simplesmente migrar os profissionais do masculino para o feminino. O feminino tem suas particularidades e especificidades", afirma.
"Na verdade, o caminho inverso é até mais fácil. Quando você sai do feminino para o masculino, a melhora em termos de estrutura é tão grande que fica até mais fácil se adaptar", relata.
"Já quando o caminho é inverso, é comum que o profissional que venha do futebol masculino estranhe as dificuldades de estrutura no feminino", conta.
Pensando na melhoras das condições, Kleiton não concorda, mas de certo modo comemora a cláusula da Conmebol que obriga os times que jogam a Libertadores a manterem equipes femininas profissionais.
"Não foi do melhor jeito, mas a verdade é que esse medida acabou criando um caminho positivo sem volta".
PIA SUNDHAGE
Como técnico da seleção, Kleiton enfrentou a seleção dos EUA comandada por Pia duas vezes, mas não a venceu.
Como ex-ocupante do cargo, ele vê com bons olhos a contratação da sueca para ser técnica da seleção principal feminina. Mas faz ressalvas.
"Acredito que a Pia seja uma grande treinadora. Tem uma bagagem enorme e não duvido dela. Mas não acho que é nem poderia ser a única opção", diz ele.
"Ela tem boa chance de sucesso, mas é preciso dar tempo a ela", acredita. "Não adianta querer cobrar dela uma medalha imediata em Tóquio, na Olimpíada", pondera.
"Por exemplo, a Emily Lima (atualmente no Santos), teve pouquíssimo tempo à frente da seleção para mostrar trabalho", diz.
