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Bicampeão brasileiro com Corinthians parou aos 28; hoje, fatura com intercâmbio para os EUA

Bruno Octávio surgiu como uma promessa do "terrão" do Corinthians junto com uma geração que venceu duas vezes a Copa São Paulo de futebol júnior (2004 e 2005). Viveu grandes alegrias no Parque São Jorge, sendo bicampeão brasileiro, e algumas tristezas com o rebaixamento para a Série B, em 2007. Por causa das lesões, resolveu pendurar as chuteiras muito cedo e virou empresário.

Morador de Santo André, ele começou no clube Aramaçan antes de fazer um teste no "Timão", aos 12 anos.

"Eu amava jogar futebol, mas não pensava nisso porque não era um torcedor. Fui passando nas peneiras contra meninos dois anos mais velhos do que eu. Fui aprovado no infantil como meia-atacante", disse, ao ESPN.com.br.

O garoto virou volante pouco tempo depois, mas sofreu com as dificuldades para se adaptar à nova realidade. Após quase ser mandado embora, Bruno se destacou em um torneio e se firmou de vez.

Ele faturou vários títulos na base e passou a treinar com os profissionais, estreando na equipe, em 2004. Depois de quase cair no Paulista, o time enfrentou uma grave crise também no Brasileiro.

"A nossa galera acabou salvando o Corinthians do rebaixamento para a Série B daquele ano com o Tite. O primeiro jogo que fiz como titular que me marcou foi contra o Santos de Diego, Robinho e Elano, no Pacaembu. Eles foram campeões naquele ano. A gente perdeu por 3 a 2, mas fui elogiado", contou.

Com a chegada da empresa internacional MSI (Media Sports Investmentes), o Corinthians viveu sua "era galáctica". Foram contratados nomes como Carlitos Tévez, Javier Mascherano, Carlos Alberto, Roger Flores e Nilmar e Sebá.

"Quando você é garoto só pensa em jogar, não tinha imprensa nem nada... Quando eles chegaram tudo mudou para nós. No começo a gente não acreditava que esses caras iam chegar, mas eles vieram. Além disso, queriam mudar toda estrutura do clube, algo que só aconteceu depois com a vinda do Ronaldo".

"Nós da base ainda ganhávamos salários baixos e éramos titulares. Achávamos que a nossa situação iria melhorar, mas foi uma decepção. A MSI investiu nos caras de nome, que foram tomando as posições e a gente não teve salário mudado (risos)".

Mesmo assim, o jovem foi peça fundamental na conquista do Brasileiro de 2005, que foi marcado pela polêmica dos 11 jogos remarcados por causa do escândalo Edílson Pereira de Carvalho. O árbitro foi acusado de tentar manipular resultados para um grupo de apostadores.

"A gente sempre ouvia dos outros que éramos privilegiados pela arbitragem. Se ganhássemos era porque o juiz ajudou e se perdêssemos é porque não ele não tinha nos ajudado. Não tínhamos mérito (risos). Ele tinha vários esquemas e também nos prejudicou", afirmou

"Nós ouvíamos que dentro das federações aconteciam apostas. Eu não sei se tinha a ver com esse caso, mas o futebol sempre teve essa parte fora de campo. Não me surpreendeu esse caso".

O clube alvinegro foi campeão mesmo com a derrota para o Goiás no Serra Dourada, pois o Internacional também tropeçou na última rodada.

"O sistema de som não anunciava nada ao nosso favor. Era o pessoal do banco que nos contava. Estávamos muito cansados e eles jogaram bem, o que valorizou mais o nosso título".

Lesão e volta por cima

No ano seguinte, o Corinthians vivia a obsessão pela conquista da inédita Copa Libertadores da América. A equipe alvinegra acabou eliminada no Pacaembu para o River Plate nas oitavas de final, o que desencadeou outra grande crise.

Pouco tempo depois, o técnico Émerson Leão foi contratado e vários astros deixaram a equipe.

"A partir dessa época, as coisas começaram a dar errado e terminaram com o rebaixamento para a Série B, em 2007. Tivemos muitas mudanças de elenco e treinadores em pouco tempo, o que nos prejudicou bastante. Nós, que éramos vindos da base, fomos um pouco poupados. Eles queriam os caras mais velhos e jogadores como Zelão e o Fábio Ferreira", admitiu.

"Mesmo assim, os caras descobriram o endereço de todos os jogadores e ligavam para ameaçar a família de jogadores. Soltavam rojões na casa".

Com a vinda de Mano Menezes no ano seguinte, Bruno Octávio viveu a melhor fase tecnicamente da carreira.

"Ele falou para eu mudar de posição porque era o cara que mais corria e menos pegava na bola. Parei de correr atrás dos meias adversários como um cão de guarda e jogava mais recuado. Passei a articular todas as jogadas. No começo, achei que ia pegar menos ainda na bola, mas depois tudo aconteceu como o Mano falou", contou.

"Em 2008, eu virei titular absoluto. Tinha o maior número de bolas roubadas e passes certos. Nossa defesa era a menos vazada", afirmou.

A fase foi encerrada em um clássico contra o Palmeiras, após uma dura entrada do meia Valdívia. Bruno sofreu um rompimento dos ligamentos do joelho.

"Eu tinha roubado a bola e ia sair jogando, quando ele deu um carrinho de lado. Eu estava virando o corpo, mas minha perna ficou presa no chão e escutei o estalo. Eu senti uma dor aguda e passou, ficou adormecido. Fui tentar voltar para o jogo, mas minha perna falseou", lamentou.

"Depois, o Mano e os meus empresários me contaram que eu estava praticamente vendido ao Bolton, da Inglaterra. A lesão atrapalhou tudo".

O volante voltou depois de seis meses aos gramados, mas perdeu espaço na equipe e acabou emprestado ao Figueirense para ter mais minutos em campo. Depois de quatro meses, porém, ele sofre uma nova lesão e voltou ao Corinthians.

Após passar por mais duas cirurgias, ele foi ao Bahia, que subiu para a Série A do Brasileiro, em 2010. Porém, o fantasma da lesões continuou e Bruno sofreu sua quarta operação no joelho.

Em 2011, ele viveu a última grande alegria como jogador do Corinthians.

"Eu não estava nos planos para o Brasileiro, mas pedi para treinar com o grupo para ter ritmo até arrumar outro time. Os auxiliares do Tite gostaram do meu desempenho nos treinos e me reintegraram ao elenco. Não fui emprestado e permaneci", disse.

"No segundo turno eu fui para todos os jogos. Fui cortado de uns oito e fiquei no banco dos outros dez. Estive no time que venceu o Brasileiro de 2011, mas não atuei nenhuma vez", contou.

Aposentadoria

Em 2012, Bruno Octávio jogou o Estadual emprestado ao Paulista de Jundiaí. Assim que encerrou seu contrato com o Corinthians, no fim da competição, ele foi para o CSKA Sofia, da Bulgária.

"O problema é que mudou a direção e ficou um impasse. Nisso, o clube entrou em falência. Fiquei um mês na Europa e quando voltei ao Brasil o mercado já estava encerrado. Fiquei treinado por conta até o começo de 2013, quando fui jogar o Mineiro pelo Araxá."

Aos 28 anos e com quatro cirurgias, ele acertou com o último time carreira, o Marcílio Dias para jogar o Catarinense de 2014.

"Tinha um preparador físico que gostaria que eu jogasse bem abaixo do meu peso. Fazia treinos com metodologia bem antiga e os meus joelhos doíam muito. Eu era titularem toda preparação, mas o treinador falou para a diretoria que não iria me utilizar. Ele não falou comigo em nenhum momento. Queriam que jogasse como cão de guarda de camisa 10, mas eu já não atuava mais assim desde 2008. Meu futebol rendia muito mais posicionado como o Mano fez", explicou.

"O futebol não estava mais pagando as minhas contas e também não era mais saudável para o meu corpo. Passei a ver que não valia mais a pena. Os clubes não pagavam mais em dia e um salário muito menor do que antes. Sem contar que precisava morar três meses em cada lugar. Vi qual era a realidade da maioria dos jogadores do Brasil", contou.

Após resolver pendurar as chuteiras, Bruno passou a ver o que faria logo em seguida.

"Estava em um churrasco e o primo da minha esposa me falou sobre o programa que trabalhava. Eles preparavam meninos e meninas com treinamento esportivo, aulas de inglês e acompanhamento escolar para tentarem bolsas de estudos nos Estados Unidos. Por meio dos esportes poderem estudar em universidades norte-americanas".

Em 2014, o ex-volante virou sócio de uma empresa de intercâmbio esportivo, que é sediada em Jundiaí. Os jovens vão para a escolas e depois tentam vagas nas universidades norte-americanas.

"Já mandamos uns 100 jovens para lá. Esse ano mandaremos uns 30 e fazendo a transferência de uns 20 que estão por la. Eles estão se formando por lá e preferiram seguir a carreira no mercado de trabalho, não optaram pela carreira esportiva. As escolas lá têm uma estrutura melhor que muitos times da Série A do Brasileiro".