<
>

Jornalista argentino se perde no Rio, vai parar na Cidade de Deus e diz que viu homem com metralhadora e um porco

play
Scaloni probó dos cambios y empieza a despejar dudas (1:51)

El DT de Argentina hizo práctica de fútbol con Foyth en el lateral derecho y Acuña como volante derecho, en lugar de Saravia y Lo Celso, respectivamente. (1:51)

Um trajeto previsto para durar apenas nove minutos de carro acabou se tornando uma das viagens mais complicadas e assustadoras para o jornalista argentino Martín Eula, do diário "Olé". Ele relatou em texto publicado na edição online do noticiário que acabou se perdendo ao deixar o hotel (com um táxi de aplicativo) a caminho do centro de treinamento do Fluminense.

O veículo entrou no bairro de Cidade de Deus, onde está uma das maiores comunidades do Rio de Janeiro e também uma das mais perigosas, e os minutos que se passaram até que o destino fosse alcançado provocaram verdadeiro terror.

"Como dizer quando aparece um cara com um revólver, um segundo com uma metralhadora e um porco andando junto com eles? Os caras sentiram sua área invadida, não esperavam visitas, não reconheceram os carros nem os rostos, não estão dispostos a responder perguntas e... vamos cair fora daqui", escreveu em um trecho do texto.

Todo o texto do jornalista (confira mais abaixo) é recheado de impressões negativas sobre o local e também é bem claro o medo que ele afirma ter sentido.

"'A Cidade de Deus tem suas próprias regras, é um país à parte', diz o motorista enquanto as imagens de Zé Pequeno no filme [Cidade de Deus, de Fernando Meirelles] surgem a mil por hora. Porque o carro atravessa a Cidade de Deus por suas entranhas?", escreveu em outra parte da descrição.

Apesar de todo o temor, o jornalista conseguiu chegar ao destino, sem qualquer arranhão, após 27 minutos. Acompanhou a parte final do treino da seleção argentina, com Messi e seus companheiros em campo, e foi embora. Talvez aliviado, sabendo que a Argentina fechará o treino para jornalistas nesta quinta.

A equipe de Albiceleste está no Rio de Janeiro se preparando para enfrentar a Venezuela na próxima sexta-feira, no Maracanã, pelas quartas de final da Copa América.

O CT do Fluminense fica bem próximo da Cidade de Deus, no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste da cidade. Foi inaugurado em junho de 2015 ainda com obras em andamento. Até hoje um dos campos (o terceiro) não foi concluído. Há duas semanas, o clube inaugurou um novo acesso, fechando o anterior.

Para entender, o antigo acesso para carros ficava em uma rua vizinha à comunidade e que oferecia riscos à segurança segundo o próprio policiamento da região. O novo fica a pouco mais de 300 m do antigo. Ainda é precária, de terra, com buracos e sem calçadas. Tem cerca de um quilômetro de extensão e oferece mais segurança.

No futuro deve ser batizado com o nome de um dirigente histórico do Fluminense: Oscar Cox.

Ocorre que esse caminho não é conhecido por todos, pois, como já escrito foi inaugurado há duas semanas. Não consta ainda nem em aplicativos de GPS. Como o antigo foi fechado, o motorista que fez o translado da equipe de jornalistas argentinos provavelmente acabou entrando em um acesso anterior, que atravessa o bairro de Cidade de Deus.

o histórico reforça a sensação de medo. Só para citar alguns exemplos, em 2016, o local foi invadido durante a madrugada por bandidos armados, que roubaram material esportivo. Houve tiroteio bem próximo em 2016, 2017 e 2018. O último obrigou o time a treinar nas Laranjeiras.

Segundo o Fluminense, o motivo foi que a rua que dava acesso ao local foi fechada por causa da operação do BOPE.

Um fisioterapeuta do clube teria sido assaltado ao deixar o CT em 2017. O Fluminense contesta essa versão. Diz que o funcionário entregou camisas após ser abordado por três jovens, que não estavam armados nem foram agressivos.

A maioria das equipes de reportagem da cidade faziam o trajeto ao CT com carro blindado.

VEJA O RELATO DO JORNALISTA DO 'OLÉ'

O motorista do carro escuta o destino e se benze. No Brasil são muito religiosos, mas bastou este sinal (premonitório) para que uma corrida que o GPS indicava durar nove minutos durasse 27, e justificasse o gesto de Rodrigo, a quem praticamente abraçamos quando chegamos ao destino.

A seleção argentina treinou no CT do Fluminense, e o aviso que recebemos no grupo [de whatsapp] da cobertura foi claro:

O aviso que recebemos no grupo [de WhatsApp] da cobertura foi claro: 'Às 11h, vocês vão poder passar pelo portão, assim esperam dentro do clube, porque aregião é brava'. Chamar de 'brava' o bairro da Cidade de Deus é ser, no mínimo, benevolente. E para chegar até ali é preciso acertar o caminho ou que o GPS tome a rota certa: se não, você vai parar na boca do lobo, em ruas nas quais quase não passam carros. Só os locais passam por ali, pelas ruas que tristemente fazem lembrar tantos bairros da Argentina.

'Sabem como ir?', pergunta o motorista do carro aos jornalistas do Olé, do Clarín e do La Nación. Outro sinal nada positivo do que será ratificado em seguida, quando o carro embica numa rua sem saída e um morador com uma camisa regata do Vasco se aproxima a passos rápidos com alguma coisa na mão que não é possível distinguir. Por sorte, rola um diálogo amável com o vascaíno. Ele e seu amigo 'Batata' indicam como seguir.

A segunda parada é quando... Como dizer quando aparece um cara com um revólver, um segundo com uma metralhadora e um porco andando junto com eles? Os caras sentiram sua área invadida, não esperavam visitas, não reconheceram os carros nem os rostos, não estão dispostos a responder perguntas e... vamos cair fora daqui.

'A Cidade de Deus tem suas próprias regras, é um país à parte', diz o motorista enquanto as imagens de Zé Pequeno no filme [Cidade de Deus, de Fernando Meirelles] surgem a mil por hora. Porque o carro atravessa a Cidade de Deus por suas entranhas, por uma rua de movimento fluido, isso sim, mas que ainda nos mantém a cinco minutos do Fluminense.

Há um ano um treino do Flu teve que ser suspenso por causa de um megaoperação policial na vizinhança onde vivem umas 50 mil pessoas (tenta fazer censo ali para ver) na região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Agora há policiais que -- que finalmente indicam o caminho esperado -- mas para escoltar a seleção de Messi, que já passou um portão precário, percorreu 600 metros de terra bagunçada e chegou até o único campo do lugar.

'Já chegamos, nem demoramos tanto', diz o motorista nesta rua de terra, diante do outro portão -nem de longe inexpugnável- e um pequeno espaço poeirento onde umas 150 pessoas (entre repórteres, fotógrafos e cinegrafistas) esperam quase uma hora para entrar e ver como Messi e seus companheiros terminam de treinar. Mas espera aí, no meio de todo esse contexto, foi uma panaceia".