Contratado pelo Flamengo para comandar o time após a parada para a Copa América, o técnico português Jorge Jesus escolheu um profissional brasileiro para moldar uma "mentalidade vencedora" para a equipe rubro-negra no segundo semestre.
Trata-se do palestrante motivacional Evandro Mota, que já trabalhou com Jesus por quatro temporadas: três no Benfica e uma no Sporting. Ele estava na Arábia Saudita, mas aceitou convite do novo comandante flamenguista e fará parte da comissão técnica.
Mota tem vários trabalhos de destaque na carreira. Ele esteve na delegação tetracampeã do mundo do Brasil em 1994, na do Botafogo campeão brasileiro em 1995, do do Cruzeiro campeão da Libertadores de 1997 e trabalhou ainda ao lado de Abel Braga nas conquistas da Libertadores e do Mundial de Clubes de 2006 no Internacional.
Além disso, trabalhou na seleção brasileira de 1998, que foi vice-campeã mundial na França, na de 2006, que foi às quartas de final na Alemanha, e na de 2010, que também parou nas quartas na África do Sul. Possui ainda diversos livros publicados e ministra cursos de auto-gestão e melhoria de performance fora do esporte.
De acordo com o palestrante, suas primeiras missões no Ninho do Urubu serão formar uma "cultura da excelência" e uma "mentalidade campeã" no Fla, que não vem conseguindo conquistar títulos de destaque nos últimos anos.
"Meu trabalho será ajudar o Jorge Jesus a implementar a formação de uma cultura da excelência, de uma mentalidade campeã. Mostrar aos jogadores onde eles podem chegar e o preço a ser pago. Vamos mostrar depoimentos de atletas que trabalharam com o Jorge, isso é melhor do que qualquer outro discurso. Temos uma abordagem a fazer com uma metodologia de trabalho de aperfeiçoamento de crescimento. Essa será a primeira tarefa", discursou, ao globoesporte.com.
"O torcedor do Flamengo pode esperar o time que gosta de ver em campo: com intensidade, entrega e ataque", completou.
Mota ainda contou como é trabalhar ao lado do técnico luso.
"O Jorge Jesus consegue tirar o melhor de cada jogador. Faz um trabalho minucioso, baseado no conjunto, no qual todos os atletas, titulares ou reservas, precisam entender suas ideias. É um apaixonado por futebol, que vive o trabalho de forma intensa. Tanto que sua equipe técnica precisa estar à disposição as 24 horas do dia. A qualquer momento ele pode ligar para falar sobre uma ideia", revelou.
PHELPS EXEMPLO E FÃ DE DUNGA
Um dos exemplos mais usados por Evandro Mota em suas palestras é o do nadador norte-americano Michael Phelps.
Desacreditado no início da carreira, o atleta acabou tornando-se o maior medalhista individual da história olímpica, com 28 condecorações, sendo 23 de ouro, três de prata e duas de bronze.
A revelação foi feita pelo ex-zagueiro Índio, após uma goleada por 4 a 1 do Internacional sobre o Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro de 2008.
"O Evandro Mota lembrou as palavras do Phelps, que muitas vezes foi desafiado, que ouviu que não conseguiria medalhas, e ele conseguiu tudo isso com o trabalho. Ele se indignou e mostrou que tem capacidade de vencer. Ele disse que, para conquistarmos algo, precisamos acreditar e fortalecer o grupo. É algo que ele sempre passa para nós", afirmou Índio, hoje aposentado.
Mota ainda tem o ex-volante Dunga como um de seus grandes ídolos. Ele trabalhou ao lado do hoje treinador no Mundial de 2010, na África do Sul, mas não conseguiu levar a seleção brasileira à conquista do sonhado Hexa.
Em entrevista à revista Newslet antes da Copa, porém, soltou diversas frases de efeito. Veja as melhores:
"Atuo como um orientador para que a pessoa possa enfrentar tamanha pressão mental. Em uma seleção que vai para uma Copa do Mundo, toda a pressão que os jogadores se acostumaram em seus clubes toma proporção muito maior"
"Em 1994, o Parreira percebeu a importância de levar um grupo de atletas (sete) que já tivessem participado de uma Copa. Isto contribuiu muito para a mobilização conseguida. O Dunga colocou na sua lista de convocados oito que já sabem o que é ter participado de uma Copa. E foi além: no grupo que vai à África, quatro foram campeões em 2002. Se a Comissão Técnica tirar proveito desta situação, estaremos próximos de uma preparação exemplar. Como certa vez disse um general romano: 'Você pode enfrentar qualquer desafio, se souber o desafio que vai enfrentar'"
"Um grande desafio para qualquer comissão técnica de uma seleção brasileira é conseguir fazer com que celebridades, considerados os melhores do mundo em sua atividade e que já alcançaram a estabilidade financeira se proponham a pagar o preço de superar inúmeras dificuldades para conquistar uma Copa"
"Uma das melhores estratégias é fazer com que eles joguem por uma missão. Grandes feitos são conseguidos quando existe uma missão importante envolvida. Uma filosofia perfeita é a de que eles irão jogar e fazer de tudo para vencer, para dar alegria aquelas pessoas que gostam e torcem por eles. As que criticam e não gostam, nunca vão gostar e não merecem atenção deles. É uma missão focada no bem e não em provar nada para ninguém. Tenho certeza que isto vai funcionar muito bem como elemento de mobilização deste grupo"
"Em termos de preparação mental e liderança o Dunga está dando show e isto está passando quase que despercebido para as pessoas. Não se cria um grupo vencedor da noite para o dia. Toda empresa competitiva tem uma cultura que deve ser seguida por seus colaboradores, uma missão e uma visão que devem orientar as decisões"
"No caso da seleção brasileira existe uma filosofia passada aos atletas durante as convocações: se correspondessem dentro de campo seriam mantidos. Por ter um discurso alinhado com a prática, o Dunga se mostra para os seus atletas, como um líder confiável, o que gera comprometimento de seus liderados. O grande líder, além de obter resultados, é modelo para seus seguidores e sabe antecipar cenários. Você aprende mais a respeito de uma estrada ao viajar por ela, do que consultando mapas"
"A primeira coisa é banir a vaidade; se esta for maior do que a vontade de vencer, o fracasso é inevitável"
"Confiança e segurança não surgem como consequência natural de uma boa preparação técnica, tática e física, como muitos acreditam. O atleta, além de estar bem preparado, tem que se sentir bem preparado. A inexistência de uma estratégia coletiva para lidar com determinadas dificuldades levam a “erros mentais” determinantes numa competição curta e de alto nível"
