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Machismo, xingamentos e campos barra pesada: Renata Ruel, nova comentarista da ESPN, conta como virou árbitra para mediar conflitos

"Na minha casa, todo mundo é apaixonado por futebol. Meu pai é corintiano, minha mãe é palmeirense, meu irmão é são-paulino e meu padrinho é santista. Eu tinha que ser árbitra para não puxar sardinha para nenhum lado e virar uma mediadora de conflitos".

Foi assim que Renata Ruel Xavier, nova comentarista de arbitragem da ESPN, descobriu sua vocação.

Ela estreia neste domingo (19/05) no programa Futebol na Veia, às 17h50. O programa contará com apresentação de Bruno Vicari e comentários de Celso Unzelte, Claudio Arreguy e Zé Elias.

Desde os 14 anos, Renata costumava ligar sempre para a Federação Paulista de Futebol (FPF) para saber sobre o curso de arbitragem. Mas para realizar seu sonho, ela precisou esperar algum tempo.

Após se formar no ensino médio, ela foi cursar a faculdade de administração de empresas e ainda passou por um intercâmbio no Panamá antes de entrar no mundo do futebol de vez.

“Peguei o meu diploma e fui fazer o curso da FPF em 2004, que foi o ano com mais mulheres em uma sala, éramos em quase 20. Comecei achando que gostaria de ser árbitra central, mas depois mudei de ideia por um questão de perfil e optei por ser assistente”, explicou.

As primeiras partidas que ela trabalhou foram em torneios amadores. Na várzea, enfrentou situações como a falta de vestiários, quando precisava se trocar na casa de vizinhos dos campos e até mesmo em seu próprio carro, além do machismo. Era comum escutar gracinhas, ofensas e até mesmo cantadas por parte de torcedores e jogadores.

"A polícia uma vez nos parou indo para uma partida e não acreditou para onde estávamos indo porque era muito perigoso. É a melhor escola porque não tem segurança e você sofre pressão de verdade não somente da torcida. Quem não aguenta isso, nem consegue ir ao profissional. São poucos que chegam à elite", recordou.

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Tudo isso serviu de casca para que Renata chegasse preparada para o resto da carreira. Ela fez jogos femininos e em categorias de base antes de estrear no futebol profissional masculino.

“Meu primeiro jogo de base foi Osasco contra São Paulo, pelo Paulista Sub-15. Já estreei com time grande (risos). Nós fazíamos também a função de quarto árbitro nas partidas seguintes”, recordou.

Um dos episódios mais emblemáticas da carreira da ex-assistente ocorreu na partida entre Atibaia e Tupã na fase final da Segundona Paulista (equivalente à quarta divisão do estadual) de 2013. Em jogo que valia o acesso para a terceira divisão, ela marcou impedimento em um gol aos 40 minutos do segundo tempo.

Leandro Zanoni, do Tupã, ficou revoltado com a decisão e partiu para cima de Renata. Ele ficou perto da bandeirinha e a encarou como um lutador de MMA. Ela se manteve imóvel. O jogador recebeu apenas o cartão amarelo.

"Ele reclamou bastante e de forma acintosa. Não foi uma titude legal, mas em momento nenhum me ofendeu", garantiu.

Receber cantadas e xingamentos eram uma rotina que a assistente aprendeu a tirar de letra.

“A mulher está em um ambiente muito masculino ainda. Eu tenho várias amizades, mas precisa manter o respeito porque somos profissionais e precisamos trabalhar. Já teve uma gracinha ou outra, mas nada que passasse dos limites. A torcida também costumava falar algumas coisas, mas você entra tão concentrada que fica numa bolha que não dá para escutar. Tem desde as gracinhas que você quer rir até as ofensas mais pesadas. O mais triste é que várias mulheres faziam ofensas machistas”, lamentou.

“Os erros da mulher eram muito mais marcados do que os dos homens. Muitas pessoas lembram do erro que a Ana Paula Oliveira cometeu contra o Botafogo pela Copa do Brasil. Mas e o assistente do triplo impedimento, ninguém sabe o nome do assistente. Fui com a cara e a coragem e não me arrependo nem um minuto de ter virado assistente”, disse.

Sua paixão pela arbitragem a colocava em situações em que precisava superar até mesmo os problemas familiares.

“Um tio meu que morava em casa tinha acabado de falecer e eu estava saindo do velório quando a Federação me ligou: ‘Eu sei que você está saindo do velório do seu tio, mas eu preciso de você em um jogo amanhã’. Eu fui para um jogo que era nada mais, nada menos que Rio Branco e União Barbarense, em Americana”, contou.

“Só que eu não tinha noção do que significava a rivalidade desse dérbi. O União Barbarense chegou faltando 45 minutos para começar o jogo. Deu briga entre os dirigentes porque os dois times queriam jogar de branco. O jogo atrasou uns 45 minutos e foi tenso, mas modéstia à parte eu fui bem nessa partida”, afirmou.

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Em quase 15 anos de profissão, ela trabalhava uma média de 60 jogos por ano e chegou a fazer alguns torneios de base fora do Brasil. Mas uma das partidas que mais marcou a carreira foi a final do Torneio Internacional de São Paulo de futebol feminino.

"Foi muito especial porque o time do Brasil que tinha Marta, Cristiane e Aline, enfrentou o México em um Pacaembu lotado. Eu fiquei arrepiada."

Renata Ruel trabalhou em jogos de grandes equipes como São Paulo, Corinthians, Santos e Palmeiras no Paulistão.

“Eu fiz jogos do Neymar desde a base até o elite. Nós crescemos juntos na profissão e chegamos quase ao mesmo tempo na elite. Também fiz partidas do Lucas (Tottenham) e do Gabriel Jesus (Manchester City), que uma vez tivemos uma discussão, mas depois ficamos amigos”.

Após deixar a profissão de assistente, em 2019, Renata passou a dar cursos para CBF e FPF e palestras sobre arbitragem. Também é pós-graduada em finanças corporativas, pedagoga e fez MBA em gestão do esporte. Em seu currúcilo, agora, ela terá a função de comentarista de arbitragem dos canais ESPN.

“É um novo desafio. Eu acredito que uma das coisa que ajuda muito é que desde 2011 eu venho dando palestras e cursos e explicar as regras. O desafio é maior porque tenho que mostrar q eu a regra diz e explicar. Eu sei o que se passa com o árbitro dentro de campo”, ponderou.

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Um dos maiores desafios de Renata será explicar as mudanças da regra no futebol – que ainda não foram introduzidas em todos os torneios da América do Sul - e o uso do árbitro de vídeo (VAR), algo que ainda gera muitas dúvidas.

“Eu estudo muito mais e me preparo. Leio livros para aprender e busco ouvir os comentaristas para entender o que acontece no jogo. Fiz cursos de treinador, analista de desempenho e de preparador de goleiros para conhecer o ambiente. A gente precisa mostrar muito mais do que os homens”, finalizou.