Pouco tempo atrás, Júnior Santos era caixa de um supermercado na cidade de Conceição do Jacuípe, na Bahia. Conciliava a rotina pesada de trabalho com o futebol amador - ganhando até R$ 400 por partida - para ajudar no sustento de sua família.
Após fazer vários testes em clubes do Nordeste e ter sofrido algumas desilusões, o atacante - que estava com 22 anos - já havia desistido de ser profissional e estava conformado com a vida de artilheiro da várzea.
Talvez nem em seus melhores sonhos ele poderia imaginar que sua vida sofreria uma grande reviravolta. Em apenas dois anos, Júnior Santos saiu do amadorismo, passou pela 4ª Divisão do Paulista e jogou por Ituano e Ponte Preta antes de chegar à Série A do Brasileiro.
Mais do que isso, virou o principal artilheiro do Fortaleza - comandado pelo técnico Rogério Ceni - em 2019, com 10 gols.
Agora, o matador terá a chance de mostrar seu faro de gol contra o Palmeiras no Allianz Parque, neste domingo, às 19h (de Brasília), na estreia do Brasileirão.
Veja a entrevista com Júnior Santos na íntegra:
Como foi sua vida até virar jogador? Quais trabalhos você fez fora do futebol antes de virar profissional?
Eu sonhava em ser jogador de futebol, mas as coisas nem sempre saem como a gente espera. Vim de família humilde, então tive que trabalhar de servente de pedreiro, caixa de supermercado... Depois, no futebol amador, dava para ganhar almoço e uns trocados (risos). A realidade do futebol brasileiro é difícil, mas graças a Deus, ao meu empresário, Edvaldo Ferraz, à minha família, as coisas acabaram dando certo. Eu já havia desistido de ser profissional, sem expectativa, mas jogava futebol amador para dar sustento à minha família.
Como era jogar na várzea? Era muito requisitado? Jogava quantos jogos por semana e quanto te pagavam?
Sempre joguei futebol de várzea. Na várzea, tem uns campeonatos que o pagamento é um almoço, um lanche... Quando eu comecei a jogar o futebol de alto nível da várzea, com pagamento em dinheiro, jogava duas vezes por semana, aos fins de semana, e pegava 300, 400 reais por jogo. Era um dinheiro só para me virar. Joguei lá só por dois anos, mas já conseguia me destacar, fazia bastante gols na várzea (risos).
Quais times você fez testes e não deu certo? Chegou a fazer base em algum lugar? Faça um resumo da sua carreira até chegar ao profissional...
Eu fiz várias peneiras para vários times. Fiz no Bahia, Vitória, Bahia de Feira... Bahia de Feira foi o que mais fiquei próximo de fazer a base, eles gostaram, pediram meus documentos, mas na hora H acabaram não ficando comigo. Não sei o que aconteceu. O Fluminense de Feira também... Eles gostaram, pediram meus documentos, mas também não foi pra frente, só queriam que eu treinasse. Como não pagavam dinheiro da passagem, acabei não ficando. Claro que isso me desmotivou... eu tinha 17 anos, mas já não tinha mais expectativa que poderia ser jogador de futebol.
Você virou profissional só em 2017 pela quarta divisão do Paulista pelo Osvaldo Cruz? Como foi jogar nessa divisão, quais as maiores dificuldades?
Eu jogava futebol amador até os 22 anos, sem qualquer expectativa. No começo, foi muito difícil e o Osvaldo Cruz que me deu oportunidade em São Paulo. Então conheci meu empresário, o Edvaldo Ferraz, que viu um potencial diferente em mim e qualidade, mesmo eu tendo uma idade avançada. Ele fez de tudo por mim, me deu e dá estrutura até hoje para só pensar em jogar futebol. Daí ele me levou para o Ituano, convencendo um clube da Série A do Paulistão a dar oportunidade a um Jogador da Segunda Divisão. Chegando lá, fui muito bem no Campeonato Paulista, fiz quatro gols e fui evoluindo.
Fale sobre as passagens por Ponte Preta e Ituano? Quais melhores momentos que viveu?
No Ituano foi algo mágico. Eu fui pra lá, assinei meu primeiro contrato, agradeço a Deus e ao meu empresário por essa oportunidade... mas a verdade é que não tinha expectativa de que poderia dar tão certo. E depois eu assumi a camisa 9, virei artilheiro... Até então, não tinha jogado em outro lugar, não havia mostrado meu futebol para ninguém, a não ser para aqueles que acreditaram em mim. Eu treinei bastante, era o primeiro a chegar e o último a sair, sempre treinando finalizações. O Ronaldo machucou contra o São Paulo, então pude jogar e quase fiz um gol. Depois, joguei os três jogos seguintes e fiz três gols. Foi um momento muito mágico.
Na Ponte Preta, não estávamos tão bem, sofríamos algumas críticas, mas o Kleina acabou chegando e as coisas mudaram. Era o Péricles Chamusca, um cara muito bom, gente boa, com boas ideias, mas acabou não encaixando. Com o Kleina, acabamos tendo uma grande sequência de vitórias, pude fazer gols, dar assistências, e quase subimos à Série A, com chance até a última rodada. Infelizmente não conseguimos, mas foi muito marcante aquela campanha.
Como foi a chegada ao Fortaleza?
A minha chegada ao Fortaleza já me trouxe grandes expectativas. Cheguei muito motivado, pelo fato de o clube ter me comprado. Isso me deixou motivado para poder retribuir essa aposta que fizeram em mim. Foi o único clube que comprou meus direitos. Eles acreditaram em mim, então cheguei muito motivado e com muita fome de vencer e ter sucesso. Sabia que eu chegaria para substituir o Gustagol, que havia feito muitos gols aqui, mas cheguei valorizado e reconhecido pelo clube, então isso foi muito importante. Com isso, eu coloquei a cabeça no lugar para aproveitar todas as oportunidades. A torcida me abraçou desde o começo, sempre me mandam mensagens. Algo que prometi quando cheguei foi conquistar títulos, e já consegui conquistar o estadual... Isso me deixa muito feliz.
Como é trabalhar com o Ceni? Qual a importância dele na sua fase?
É um ícone do futebol mundial e serve de exemplo para todos os jogadores do elenco. É um treinador que quando vê potencial, ele cobra muito, exige e pensa muito em prol do jogador e de sua evolução. Sinto que estou podendo evoluir muito com ele. O Rogério tem sido muito importante e sabe dosar bem as cobranças com o lado mais paizão, que também é fundamental no dia a dia com o grupo.
Será sua primeira vez na Série A do Brasileiro? Pensa nisso, como será?
Será a realização de um sonho, com certeza. Tenho muita expectativa de poder fazer um bom campeonato, de poder ajudar a equipe. Esperamos conquistar grandes coisas. O grupo está bastante motivado após a conquista do estadual. Vamos buscar levar o Fortaleza o mais longe possível. Eu quero contribuir todo o apoio com assistências e gols. Esperamos poder fazer uma grande Série A.
Quais seus sonhos na carreira? Como se imagina daqui 5 anos?
Todo atacante tem o pensamento de fazer gols e decidir jogos. Estou muito feliz no Fortaleza, vivo a minha melhor fase da carreira e a torcida é fantástica. Eles têm me apoiado, me abraçaram em campo e tenho ainda contrato de três anos. Como disse, foi o primeiro clube que me comprou, me deu uma grande moral e só quero poder retribuir tudo. Quero conquistar mais títulos e fazer história. O futuro eu deixo na mão do meu empresário, para que ele resolva, pois o foco tem que ser sempre dentro de campo e estou pensando nas competições nesse restante de temporada.
