"O Diego cruzou, o Elano finalizou de raspão e a bola subiu. Ela ficou rodando e o zagueiro Anderson tentou tirar, mas jogou para o meio da área. Eu estava de costas para o gol naquele momento, e pensei: 'Eu consigo!'. Tinha confiança, peguei ela no alto e finalizei muito forte. Não consegui ver aonde a bola foi, mas sabia que tinha sido um ótimo chute. Quando caí no chão, ouvi a torcida vibrar e o Renato chegou me abraçando: ‘Entrou, que golaço!’ Eu não vi, mas nem precisava ver".
É com riqueza de detalhes que o ex-centroavante Alberto se recorda do gol mais emblemático que fez com a camisa do Santos contra o Corinthians, no estádio do Pacaembu.
O mesmo palco que receberá a segunda partida da semifinal do Campeonato Paulista entre santistas e corintianos, às 20h (de Brasília).
No dia 10 de outubro de 2002, o Santos venceu o Corinthians por 4 a 2 em jogo válido pela 15ª rodada do Brasileiro. Alberto fez dois gols, mas o de meia bicicleta é que entrou para a história do duelo.
"Nos treinos de recreativo as vésperas daquele jogo aconteceu um lance que emendei uma bicicleta, acho que isso ajudou, mas esse lance ninguém viu (risos). Foi algo que aconteceu, mas não esperava fazer isso em um jogo. Talvez por ter treinado uma vez, meu instinto foi maior. A repercussão do lance foi gigante. Fiz matéria depois até montado em bicicletas e tudo mais!", recordou.
Alberto ganhou um jantar como aposta de uma corintiana que duvidou que ele faria um gol na equipe de Parque São Jorge.
"Foi um dos 100 gols mais bonitos da minha carreira (risos). Estou brincando! Foi o mais lindo e o mais importante, não tem como! Até hoje, em eventos com santistas e corintianos todos falam dele", afirmou.
Aquela vitória contra o atual campeão da Copa do Brasil e do Torneio Rio-São Paulo demonstrou que o Santos poderia brigar pelo título do Brasileiro.
"O time que era desacreditado ainda, ninguém sabia se íamos aguentar. Oscilávamos demais, fazíamos jogo fenomenais e perdíamos outros fáceis. Ali foi a confirmação. Aquela história que conto para todos: enfrente o Corinthians era o melhor time do brasil. Deu tudo certo, fiz dois gols, tive uma atuação muito boa e acima da média. Foi um sinal de que éramos muito fortes e poderíamos chegar longe. Era um time que dava espetáculo", elogiou.
Chegada inesperada ao Santos
Após uma passagem pelo Botafogo-SP em 2001, Alberto acertou com o Rio Branco para o Paulista, que não teve os times grandes, do ano seguinte.
"Eu operei da miopia e voltei bem. Fui artilheiro do time e fiz uns 15 gols. O Toninho Carlos, ex-jogador do Santos, me perguntou: ‘Você está bem, não quer ir para o Santos?’ Eu achei que era brincadeira e falei: 'Claro, vamos embora!’ Nisso, vieram vários convites, mas eu recusei para ir ao Santos", contou.
Apesar disso, ele não tinha certeza que permaneceria na Vila Belmiro, mas acabou sendo aprovado pelo técnico Leão, que havia sido recém-contratado. O desacreditado elenco era formado por jovens como Diego, Robinho, Elano, Renato e Alex, mesclado com experientes como Léo, Robert e Fábio Costa.
"Logo nos primeiros treinos senti um desgaste físico nos adutores da coxa e relatei para o médico, que ficou meio bravo: 'Você não aguenta nem corre, como vai jogar?' Fiquei um pouco no DM, descansei e fui me tratando", afirmou.
"Recuperei a parte física e no décimo dia o Leão apareceu lá: 'E aí, centroavante, é você que eu tenho. Vai ou não vai?' Eu fiquei apavorado. Eu respondi que já estava indo para lá. Não sei se era brincadeira, mas ele tinha tentado contratar um atacante e não havia conseguido", contou.
Antes de começar o Brasileiro, Alberto foi titular nos amistosos, mas não tinha certeza de que seria o escolhido porque substituído em todas as partidas. Por isso, passou a trabalhar ainda mais, chegando mais antes e saindo depois do resto do elenco nos treinos.
"Lembro que fiquei sete jogos seguidos sem fazer gol. Imagine a pressão? Eu sempre dava assistências, cruzamentos e fazia jogadas que ajudavam ao time a vencer, mas não fazia gol. Eu me consolidei depois que fiz dois gols contra o Vitória", contou.
Alberto seguiu na equipe principal até o último jogo da fase de classificação, contra o São Caetano no Anacleto Campanella. O Santos foi derrotado pela equipe do ABC Paulista e só se classificou para as quartas de final porque o Coritiba perdeu para o gama, já rebaixado.
"O time perdendo por 3 a 1 e quando eu entrei ficou 3 a 2. Quase fomos desclassificados, e o Leão falou no vestiário: ‘Nesses jogos dá pra ver quem é quem’. A carapuça serviu para mim do lado positivo. Depois, não saí mais do time e ajudei bastante", contou.
Nas quartas de final, o Santos passou pelo São Paulo com duas vitórias: 3 a 1 na Vila Belmiro e 2 a 1 no Morumbi. Contra o Grêmio, na semifinal, a equipe santista fez 3 a 0 em casa e perdeu por 1 a 0 no Olímpico.
"Eu tinha 27 anos e era um dos maios velhos da turma, mas me sentia um menino da Vila também. pude resgatar minha infância, saí muito cedo da minha casa em capo grande e não vivi aquilo. Achava o maior barato. Pude levar meu pai para conhecer a Vila Belmiro, foi algo especial porque ele até pisou no gramado", relatou.
A final foi contra o Corinthians, que jogava por dois empates no Morumbi. Após uma vitória por 2 a 0 no jogo de ida, o time comandado por Leão venceu o rival por 3 a 2, no jogo que ficou famoso pelas pedaladas de Robinho.
"Foi perfeito, precisava que fosse daquele jeito. Vencemos e fomos campeões depois de 18 anos. Era o encontro de fome com a vontade de comer (risos). Eu era torcedor do Santos na infância junto com meu pai. Tinha passado por vários times, mas não tinha me projetado como um jogador de ponta. Era mais um atleta de elenco, não uma referência para ser titular. Mas eu sabia do meu potencial e sempre trabalhei para isso", contou o centrovante, que fez 12 gols em 32 jogos pelo time alvinegro.
Vida atual
Em 2003, Alberto foi para o Dynamo Moscou-RUS, mas teve problemas de saúde e voltou ao Brasil para defender o Corinthians, em 2004, pelo qual fez um gol em 12 jogos.
"Tudo que deu certo no Santos acabou não dando no Corinthians. O treinador era o Tite, que valorizava bastante o fato de o grupo ter tirado o time da zona da degola. Eu cheguei emprestado da Rússia e era uma peça chegando que não era talvez naquele momento desejada. O Tite valoriza muito o grupo e a conquista. Fiquei meio que um corpo estranho lá tentando jogar. Eu revezava com o Marcelo Ramos".
"Contra o Vasco, no Pacaembu, eu rompi meu ligamento cruzado do joelho e fiquei um bom tempo fora dos gramados e sem ter me firmado. Eu oscilei muito na pasagem pelo Corinthuians e não foi como esperava, mas é um grande clube que gostei de ter conhecido", relatou.
O centroavante passou por Rostov-RUS, Atlético Mineiro, Coritiba, Ventforet Kofu-JAP, Grêmio Barueri, Ceará e Grêmio Catanduvense.
"Eu aposentei em 2010, mas nunca saí do futebol. Moro em Jundiaí e tenho uma escolinha de futebol em Rio Preto. Também fiz cursos de gestão, fui empresário de jogadores e fiz cursos de treinador na Federação Paulista. Trabalhei com gestão no Nacional-SP e no Oswaldo Cruz-SP, mas estou parado esperando um convite bacana", relatou.
No duelo entre suas duas ex-equipes, Alberto não tem dúvidas para quem vai torcer.
"Clássico sempre difícil e dá uma nivelada. Quem errar menos, ganha. O Carille é um ótimo treinador, o conheci no Barueri, é um detalhista. Montou um Corinthians vencedor com o grupo na mão. O Santos é um time muito ofensivo, são os opostos no duelo. Para não ficar em cima do muro, acho que o Santos consegue passar. Os santistas foram provocados e com isso o nível de concentração aumenta e podem dar um algo a mais", finalizou.
