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Fagner queria ser Beckham, teimava jogar como meia e só deslanchou após surpreender Corinthians

Um menino bem magro, baixinho, cabelos claros e habilidoso com a bola. Este era Fagner por volta dos 8 anos. E ele gostava de imitar e ser chamado pelo nome de seu maior ídolo no futebol: o inglês David Beckham.

Uma história que apenas que esteve envolvido com o início de Fagner no futebol sabe.

Estamos falando de Leonídio Barbosa Santos, conhecido na "quebrada da bola" como professor Mundinho. Aos 63 anos, ele continua a ajudar garotos das comunidades da zona sul de São Paulo a tentarem melhorar de vida.

Foi assim com o Fagner.

"Ele foi criado no mesmo bairro onde eu moro até hoje: Jardim Capelinha. Ali era e é barra pesada. Ele já jogava na rua quando chegou até mim. Eu dava aulas de futebol em Santo Amaro, na escolinha Joerg Bruder", disse Mundinho.

"Fagner era baixinho, tímido e calado. Gostava de jogar como meia direita e queria ser o Beckham. Teve até uma vez que fez um penteado bem parecido e a molecada ficou chamando ele de Bekcham. Foi uma alegria só".

Fagner foi levado até Mundinho com cerca de nove anos pelos pais. Eles viam o menino bater bola com os amigos na rua e na quadra da escola e queriam ver se o garoto tinha chance de prosperar no futebol.

Mundinho viu habilidade no menino, mas teve trabalho para lapidá-lo.

"Ele queria jogar na meia, mas o porte físico dele não era favorável. Ele perdia no jogo de corpo. Ensinamos a ele como compensar isso, chegando na frente do adversário, sendo mais ágil e insistimos para ele ir para a lateral."

"Ele era muito teimoso. Um dia fomos fazer um amistoso contra a base do Corinthians. Ele estava na meia. E a gente começou perdendo. Decidi mandar o Fagner para a lateral e colocamos o lateral, um menino mais alto. no meio. Deu certo. Viramos e vencemos a partida."

Aquele dia, em que Fagner foi para lateral "na marra", também mudou a vida dele.

"Terminou o jogo, um diretor do Corinthians me disse: 'Pô, Mundinho manda esse lateral pra mim!' Mal sabia ele que o Fagner já tinha feito peneira e estava treinando no Terrão [antigo campo de peneira do clube alvinegro]. Disse isso a ele e deu até uma pequena confusão. Esse diretor chamou o técnico do Corinthians e perguntou: 'Você não viu que esse menino é bom de bola? É um ótimo lateral?'. O técnico respondeu: 'Mas o menino me falou que era meia, não lateral'".

A partir daquele dia Fagner foi encaminhado para o Corinthians até chegar aos profissionais. Pulou até mesmo uma etapa, quase não treinando e jogando pelo sub-20 alvinegro.

Ainda em 2007, ano em que estreou profissionalmente, foi negociado com o PSV, da Holanda.

Depois passou por Vitória, Wolfsburg, da Alemanha, e Vasco até retornar ao Corinthians, em 2014. Foi titular da seleção na Copa da Rússia, tendo contado para isso com as lesões de Daniel Alves (nem foi convocado) e Danilo, é claro.

E MUNDINHO?

O técnico que descobriu e lapidou Fagner continua na periferia trabalhando mais e mais jogadores. Já passaram pelas mãos dele nomes como Anselmo (hoje no time de Fábio Carille na Arábia Saudita), os gêmeos Yuri e Yan, do Santos, entre tantos outros.

Mundinho não enriqueceu como seus pupilos. A vida dele continuou simples. Ainda mora no Jardim Capelinha. Não tem carro próprio. Mas conseguiu criar e dar educação para os filhos.

Aos 63, leva quase duas horas para se deslocar até a Vila da Paz, em Interlagos, onde treina jovens carentes.

"O que eu ganhei com esse trabalho? Eu ganhei satisfação... satisfação daquilo que fiz e que faço até hoje. E está bom. Nada paga o orgulho que tenho ao ver um menino saído de uma favela da sul de São Paulo na Copa do Mundo. Quem sabe o Fagner repete o gesto do Cafu, que saiu do Jardim Irene e foi campeão em 2002", finalizou Mundinho.