Simon com 'prestígio internacional' e Belluzzo 'destemperado': a sentença que fez palmeirense indenizar juiz

Na última segunda-feira, o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon admitiu que errou ao anular gol do atacante Obina durante a partida entre Fluminense e Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro de 2009. O equívoco mudou o rumo do torneio, já que fez o "Verdão" perder a liderança e iniciar uma série negativa nas rodadas finais, enquanto o clube das Laranjeiras ganhou impulso para escapar do rebaixamento.

Ainda no dia do jogo, o então presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, concedeu uma entrevista fortíssima ao jornal Lance!, na qual fez duras críticas a Simon, chamando o gaúcho de "vigarista, safado e crápula". No dia seguinte ao polêmico duelo no Rio de Janeiro, ele ainda convocou uma entrevista coletiva na Academia de Futebol e reforçou sua fala.

O cartola acabou processado pelo juiz em seguida por danos morais e materiais. Quatro anos depois, após diversos trâmites judiciais, Belluzzo foi condenado pela Justiça a pagar R$ 60 mil ao ex-árbitro, que se aposentou da função ao final do Campeonato Brasileiro de 2010.

Na sentença que obrigou o ex-cartola a pagar a indenização, o juiz Luiz Augusto Guimarães de Souza, responsável pelo caso, escreveu que as críticas de Belluzzo foram danosas à carreira de Simon, que esperava chamado para representar o Brasil na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul - no fim das contas, ele foi chamado, ao lado dos auxiliares Altemir Hausmann e Roberto Braatz.

Ao mesmo tempo, o magistrado classifica a conduta do presidente palmeirense como "altamente reprovável", além de chamar a entrevista de Belluzzo de "intempestiva e destemperada", tendo feriado a honra de Simon de "maneira vil" e "absolutamente desproporcional".

"A conduta do codemandado Luiz Gonzaga é altamente reprovável, na condição de dirigente esportivo, presidente de uma agremiação esportiva das mais tradicionais no cenário nacional, com enorme número de simpatizantes (torcedores) o que acirra ainda mais os ânimos, cujas ofensas foram proferidas através de microfones de várias emissoras além da imprensa escrita, tomando dimensões indefinidas com divulgação por todo o território nacional", escreveu Luiz Augusto Guimarães de Souza.

"Enquanto que, de outro lado, a vítima, conceituado árbitro de futebol, várias vezes reconhecido como o número um da arbitragem no Brasil, sendo o árbitro brasileiro que mais participou de Copas do Mundo, numa inequívoca manifestação de prestígio nacional e internacional, forjado ao longo de vários anos de carreira como profissional da arbitragem, vê, de repente, através de intempestiva e destemperada entrevista de um dirigente esportivo, sua honra e boa fama agravadas de maneira vil, absolutamente desproporcional aos fatos, pois ainda que inconformado com a atuação da arbitragem, independente a existência ou não do erro, a reação atingiu o ofendido muito além do que era razoável para a circunstâncias do caso", completou.

No fim das contas, Belluzzo foi obrigado a pagar R$ 40 mil como indenização por danos morais, mas escapou da indenização por danos materiais. O valor, acrescido de honorários advocatícios e corrigido pelo IGMP (além dos juros), acabou totalizando R$ 60 mil.

BELLUZZO VAI À JUSTIÇA PARA SER RESSARCIDO

Em participação no programa "Bate Bola Na Veia", da ESPN Brasil, na última terça-feira, Belluzzo prometeu acionar a Justiça contra Carlos Eugênio Simon para pedir ressarcimento do valor gasto com o processo impetrado na época.

“Vou entrar em um processo contra ele. Já conversei com meus advogados que são muito bons. Fiz um empréstimo para pagar (os R$ 60 mil). Paguei, mas vou pedir um ressarcimento agora. Achei a decisão dos juízes precária (na época)”, explicou.

O ex-cartola ainda falou sobre o que o erro de Simon representou para o "Verdão" nas rodadas finais daquele Brasileiro.

“O Palmeiras era líder quando jogou com o Fluminense. Se ganha o jogo, teria avançado mais três pontos. Quem esteve no meio do futebol sabe que certos eventos não podem ser avaliados como se fossem um teste econométrico, porque eles têm efeitos emocionais”, ressaltou Belluzzo, que prosseguiu.

“No jogo contra o Sport, desci no vestiário e não só o Muricy estava chateado, como os jogadores estavam muito inconformados. Isso causou um dano emocional, psicológico. Quem viveu o mundo do futebol sabe que isso é muito importante, porque os jogadores se sentem desamparados”, concluiu.