Técnico campeão brasileiro em 2017 pelo Corinthians, Fábio Luiz Carille de Araújo demorou mais de 24 anos para conhecer o sucesso no futebol. Antes disso, trabalhou em outras funções, foi um jogador profissional que rodou por várias equipes menores do Brasil - e até da China - e passou muitos anos como auxiliar técnico.
Natural de São Paulo, Carille se mudou junto com a família aos 12 anos para Sertãozinho, cidade no interior de São Paulo, após seu pai ficar desempregado. Pouco tempo depois, arrumou seu primeiro trabalho como office boy no comércio local.
"Eu saía nas ruas com uma maletinha cheia de dinheiro. É algo que não dá para fazer nos dias de hoje por causa da violência [risos]. Fazia pagamentos e cobranças para os estabelecimentos", disse o treinador, ao ESPN.com.br.
Após ficar dois anos nessa função, o jovem entrou no Senai de Ribeirão Preto para estudar Mecânica Geral.
"Aos 14 anos, fiz o curso e fiquei trabalhado na Usina São Martinho na inspeção de qualidade. Todas as peças que entravam e saíam da fábrica passavam pelo nosso setor. Como mecânico, ajustagem ou tornearia nunca trabalhei, mas sou formado", contou.
Além disso, jogava futsal à noite como diversão. Apesar de quase não ter experiência no futebol de campo, Carille foi chamado para fazer um teste nos juniores do Sertãozinho, em fevereiro de 1993.
"O técnico era o Galdino Machado [ex-goleiro do Botafogo-SP], que me aprovou. Nisso veio a dúvida familiar. Minha mãe não queria que eu fosse porque eu ajudava em casa. Eu tinha carteira assinada e ganhava naquela época dois salários mínimos na usina", relatou.
"Meu pai falava: 'Vai, vai'. O Sertãozinho me ofereceu meio salário mínimo. Foram dois ou três dias pensando bastante e dormindo bem pouco [risos]. Ainda não sabia o que fazer. Meu pai ficou em cima de mim e falou: 'Tenta o futebol, meu filho'".
Com o incentivo de Joaquim Pereira de Araújo, Carille (que ainda usava o nome Fábio) virou lateral-esquerdo do "Touro dos Canaviais", no qual ficou apenas quatro meses. Logo em seguida, foi negociado aos profissionais do XV de Jaú e viu surgir dois garotos que fariam sucesso no futebol.
"O Edmílson e o França são dois anos mais jovens do que eu e ainda eram juniores naquela época. Eles treinavam com a gente nos profissionais, mas ainda não jogavam", recordou.
PRIMEIRA PASSAGEM PELO CORINTHIANS
Carille se destacou no “Galo da Comarca”, que ficou na segunda posição da Série A 2 do Campeonato Paulista, conquistando o acesso para a elite do Estadual ao lado de Botafogo-SP (terceiro colocado) e Mogi Mirim (campeão).
"O Corinthians tinha um observador técnico chamado Pupo Gimenez, que ficou andando pelo interior de São Paulo atrás de jogadores. Ele viu alguns jogos e me indicou. Era uma época que eu não tinha empresário nem nada. Foi tudo bem rápido”.
Carille foi contratado ao lado de jogadores que se destacaram no Estadual em equipes menores como Luciano (Taubaté), Carlos Roberto (União São João), Maizena, Leônidas, Clóvis e Serginho. A ideia da comissão técnica da equipe alvinegra era utilizá-los somente no primeiro semestre de 1996, quando o time alvinegro jogaria Paulista, Libertadores e Copa do Brasil.
“Foi a minha passagem mais especial como jogador mesmo não tendo jogado. Quando cheguei ao Barueri em 2006 eu era o Fábio que jogou no Corinthians. Ficou muito marcante virou um rótulo para a vida toda. É um clube muito grande que faz acontecer isso”.
"No final daquele ano o técnico Eduardo Amorim pediu para eu continuar, mas o XV e o Corinthians não chegaram a um acordo", contou.
Ele mal imaginava que sua história no Parque São Jorge teria capítulos ainda melhores no futuro.
DE JOGADOR A TÉCNICO DO CORINTHIANS
Após sair do Parque São Jorge, Fábio Carille voltou ao XV de Jaú e logo em seguida foi vendido ao Paraná Clube. Depois, passou por Guangzhou (China), Coritiba, Servette (Suíça), XV de Piracicaba e Santo André.
“O Santo André foi o último time no qual joguei como lateral esquerdo porque depois virei zagueiro. Ainda passei por Juventus, Botafogo-SP, Gama-DF, Ulbra-RS, Araxá-MG e Monte Azul”, afirmou.
Mesmo tendo atuando em equipes menores, ele nunca ficou sem receber salários ou desempregado.
“Eu sempre passei por equipes que pagavam em dia. Eu sempre buscava informações porque se soubesse que o clube tinha problemas para pagar eu não ia. Preferia ganhar menos e certo. A gente escuta de vários colegas como é sofrido e procurava tomar cuidado”, garantiu.
“Nunca fiquei desempregado como jogador porque durante seis anos meu passe foi do Iraty-PR. Sempre voltava para lá quando estava sem time e nunca deixei de receber”, afirmou.
Em 2006, Carille chegou ao Grêmio Barueri e participou da reta final da ascensão meteórica do clube, que saiu da Série B3 do Paulista – sexta divisão - para a Série A1.
“O time já tinha o Pedrão e o Thiago Humberto e conseguimos o acesso para Série A1 do Paulista e para a Série B do Brasileiro. Eu parei de jogar em maio de 2007”.
Aos 34 anos, ele pendurou as chuteiras e logo em seguida começou na carreira fora das quatro linhas. Como já havia feito cursos, começou como auxiliar técnico no próprio Barueri.
Após alguns estágios, ele foi chamado para integrar a comissão técnica do Corinthians, em 2009.
Foram oito anos, com rápidas passagens como técnico interino do clube, até Carille assumir o time efetivamente como técnico. Após superar a desconfiança no começo de seu trabalho, faturou os títulos do Paulista e do Brasileiro de 2017.
“Eu só cheguei ao Corinthians porque fiz um Paulista brilhante. Foram 42 jogos que fui muito bem. Quando eu saí do Corinthians não imaginava que um dia poderia voltar como jogador porque sabia das minhas limitações. E voltar como treinador ou em outra função? Menos ainda. Pelos profissionais e tudo que o Corinthians tem. Por isso, eu falo que sou um cara abençoado e as coisas foram acontecendo naturalmente”, finalizou.
