Técnicos brasileiros, em especial os mais renomados, ficam ainda mais em baixa na temporada 2024

Vamos começar falando de Tite, que para muita gente é o melhor treinador brasileiro da década passada, embora tenha ido mal em duas Copas do Mundo à frente da seleção brasileira. Muito respeitado pelo que fez no Corinthians, o gaúcho de fala bem característica assumiu o Flamengo ainda no fim de 2023 (contrariando o que prometera em entrevista, é bom sempre lembrar), o que seria uma forma de preparar bem a temporada de 2024.

Ele teve todas as condições favoráveis, montando pré-temporada no exterior, recebendo uma série de reforços que pediu, contando com quase toda a comissão técnica que era da seleção e podendo se dar ao luxo de poupar o time durante a disputa do Estadual no começo do ano.

Tite naufragou nas principais competições da temporada, poupando atletas em momentos que não eram apropriados e tendo seu melhor momento durante o período da Copa América, quando teve vários desfalques. Sem conseguir se aproximar do coração do exigente torcedor rubro-negro, que quer qualidade de jogo além de resultados, ele demorou até a cair.

Procurado pelo Grêmio neste final de ano para suceder a Renato Gaúcho, Tite respondeu que prefere agora trabalhar na Europa ou em alguma seleção que dispute a Copa do Mundo (ele já tinha esse plano após deixar a seleção brasileira, mas não chamou a atenção dos principais clubes do Velho Continente nem de seleções top).

Já que citei Renato Gaúcho, passo a falar de um dos mais folclóricos treinadores do nosso futebol. Estátua viva do Grêmio, ele saiu aos prantos do clube onde se formou após uma temporada sofrível, que de boa só teve mesmo a conquista do hepta no Gauchão (o sonhado octacampeonato pode ser conquistado em 2025 por outro técnico).

Usando a tragédia no Rio Grande do Sul como fator para explicar a performance de seu time em 2024, Renato parece esquecer que o rival Inter deslanchou no segundo turno e foi para a Libertadores e que o humilde Juventude escapou do rebaixamento com os mesmos 45 pontos do Grêmio.

Se em algum momento do passado, sobretudo em 2017, o tricolor gaúcho praticava o melhor futebol do Brasil, desta vez foi um arremedo de time. E Renato, que controla o departamento de futebol quando está à frente do Grêmio, não soube extrair muita coisa de seu grupo. Chegou a lutar contra o descenso e saiu cedo da Copa do Brasil.

Alguns anos atrás Renato estava cotado para assumir a seleção brasileira, mas, depois que não vingou no comando do poderoso Flamengo, sua carreira recuou e agora não se sabe quem irá tirá-lo um pouquinho da praia.

Como a CBF não conseguiu acertar com Carlo Ancelotti e como a entidade máxima do futebol brasileiro não teve a coragem e a lucidez de apostar em Guardiola, Dorival Júnior chegou à seleção brasileira e é lá que ele está patinando sem sair do lugar. Após dois bons amistosos na Europa contra Inglaterra e Espanha (as finalistas da Euro-2024), a equipe nacional involuiu e fez uma sofrível Copa América.

Nas eliminatórias, além de resultados insatisfatórios, um desempenho nada animador colocou em dúvida a capacidade de Dorival de cumprir sua promessa de levar o Brasil à final da Copa do Mundo de 2026. Mesmo com vários jogadores brasileiros vivendo boa fase na Europa, quase ninguém conseguiu se destacar vestindo a camisa amarelinha.

Talvez apenas Raphinha, que mudou de posição no Barcelona e cresceu de produção (mérito do alemão Hansi Flick), esteja brilhando neste momento na seleção pentacampeã mundial. Dorival não tem conseguido aproveitar bem nem Vinícius Jr., que bateu na trave para ganhar a Bola de Ouro neste 2024 (melhorou nas mãos do italiano Ancelotti, não com treinadores brasileiros da seleção).

O melhor momento da carreira de Dorival aconteceu entre 2022 e 2023, quando ganhou seus títulos de maior expressão (uma Libertadores e duas Copas do Brasil, por Flamengo e São Paulo), mas seu 2024 é mais do mesmo. Trabalho mediano para quem defende tanto a valorização do treinador brasileiro nos dias atuais e corneta a decisão de vários clubes do país de buscar um técnico no exterior.

Fernando Diniz começou o ano logo sendo demitido pela CBF. Não emplacou na seleção como interino e saiu atirando por ter sido sacaneado. Ficou então apenas no seu Fluminense e o colocou na dura briga contra o rebaixamento. Mesmo tendo sido o treinador que deu ao tricolor carioca seu título mais importante (a Libertadores de 2023), Diniz sucumbiu com seu grupo cheio de jogadores veteranos. Sua tática parece cada vez mais manjada, e os adversários souberam aproveitar muitas vezes as ousadas “saidinhas” do Dinizismo.

Demitido do Flu, achou espaço no Cruzeiro, onde custou a conseguir a primeira vitória. Com muita dificuldade e pouco futebol, chegou à final da Copa Sul-Americana, porém foi engolido pelo Racing de Gustavo Costas.

Após o Brasileiro, falou-se da possível saída dele do clube, uma vez que teve apenas três vitórias em 15 jogos (aproveitamento de apenas 33,3% dos pontos disputados). A diretoria então o manteve no cargo, mas parece não ter tanta convicção sobre o sucesso dele em 2025. Aliás o próprio Fernando Diniz reconheceu que teve um ano péssimo, o pior de sua carreira, não obtendo os resultados que imaginava.

Ele, que tem formação de psicólogo, deverá agora refletir sobre o que deu tanto errado.

Talvez muitos tenham esquecido, mas o veterano Luiz Felipe Scolari foi demitido do Atlético-MG em março. Um dos mais vitoriosos treinadores da história, Felipão mais uma vez fez um trabalho que desagradou pela pequena qualidade de jogo.

Isso mesmo tendo um elenco cheio de boas opções como o que vimos no Atlético-MG de 2024, vice-campeão da Libertadores e da Copa do Brasil. O Grêmio se decepcionou com Felipão na última vez que ele dirigiu o time na beirada do campo, tanto que agora quer seu ídolo como coordenador técnico “apenas”.

Quem talvez assuma o tricolor gaúcho como treinador é Fabio Carille, que conquistou a Serie B com o Santos, mas mais uma vez sai do clube sem ter agradado a torcida com seu jogo mais pragmático e reativo. Se o ano de Carille tivesse sido mesmo bom, o Santos continuaria com ele em 2025.

Assim como Felipão, Tiago Nunes também foi dispensado logo no início do ano. Ele tinha nas mãos simplesmente o Botafogo, melhor time brasileiro neste ano. Não preciso dizer que veio outro treinador português (Artur Jorge) para colocar o Glorioso nos trilhos. Mano Menezes foi sacado do Corinthians no início da temporada e também foi substituído por um gringo que foi capaz de melhorar a equipe.

Mano acabou o ano lutando contra o descenso no Fluminense (escapou na última rodada). Outro técnico renomado do país que teve um ano insosso foi Cuca, que viveu alguns meses à frente do Athletico e deixou o clube (é especialidade dele deixar os times) que viria a ser rebaixado no ano de seu centenário.

Passaram pelo Atlético-GO, rebaixado com antecedência, Jair Ventura, Vagner Mancini e Umberto Louzer. O filho de Jairzinho também dirigiu o Juventude, mas caiu do clube de Caxias do Sul em outubro. O Criciúma optou por não trocar de treinador e confiou em Cláudio Tencati. Acabou na Série B também. Não dá para dizer, no final das contas, que o trabalho dele foi bom.

O Vasco não lutou contra o rebaixamento neste ano, melhorou durante um período com Rafael Paiva, mas o trabalho do técnico também não se sustentou, tanto que o Gigante da Colina terminou com Felipe “Maestro” quebrando o galho como treinador. Léo Condé não emplacou no Vitória, que conseguiu se manter na Série A nas mãos do jovem Thiago Carpini, que, por sua vez, saiu do São Paulo após o Campeonato Paulista (nem mesmo o título da Supercopa do Brasil em cima do Palmeiras e a quebra do tabu contra o Corinthians em Itaquera serviram para segurar Carpini no Morumbi).

O ano dele, portanto, foi de altos e baixos, algo que pode ser visto como normal para quem inicia a carreira. Quem também teve uma temporada irregular foi Rogério Ceni, ainda o comandante do Bahia.

Ele foi mal nas copas, inclusive no Estadual em que era claramente o favorito. Apoiado pelo Grupo City, sobreviveu à frente do tricolor baiano mesmo oscilando muito no Brasileiro. Terminou em festa com a última vaga brasileira na Libertadores, mas essa poderia ter sido conquistada com antecedência. O Bahia esteve muito tempo no G6, praticou muitas vezes um bom futebol, mas seus resultados nem sempre foram bons.

Qual técnico brasileiro pode dizer que teve um ano bom então? Eu diria sem medo de errar que Filipe Luís é quem mais pode celebrar. Após triunfar rapidamente na base do Flamengo, inclusive ganhando um Mundial sub-20, ele virou o sucessor Tite, como a torcida rubro-negra tanto queria, e não frustrou as expectativas mais altas que colocaram nele.

O Flamengo conquistou a Copa do Brasil com autoridade vencendo bem os dois jogos da final contra o Atlético-MG, que era o favorito para muita gente. Ainda apostou na decisão em Gabigol e lidou bem com essa tarefa árdua de fechar um ciclo vitorioso de um grande ídolo. Filipe Luís comprovou ter se preparado bem para o novo posto, dentro e fora de campo.

Passa a ser um dos nomes mais promissores dentre os técnicos brasileiros, podendo um dia trabalhar na Europa (onde aprendeu muito com treinadores) ou até mesmo na seleção, que defendeu também muitas vezes. Ele tem uma pinta de técnico europeu, mas sem ser engessado, adora um jogo mais vertical, direto, ofensivo, mais agradável para a maioria dos torcedores brasileiros.

Não é à toa que muitos flamenguistas o chamam carinhosamente de Filipe Jesus, uma clara referência o treinador português que encantou no Mengão. Outro treinador do país que se destacou em 2024 foi Roger Machado, primeiro no Juventude e depois no Internacional. Ele não conquistou nem o Estadual nem o Brasileiro, mas deixou boa impressão, mais especialmente no segundo turno do campeonato nacional.

Quem sabe em 2025 ele não consiga algum título de grande expressão, algo que o Colorado busca há mais de uma década, e que ele mesmo tenta desde o início da carreira de técnico. Impedir o octacampeonato gaúcho do Grêmio já é uma pressão para ele, que tentará acabar com a fila colorada no Brasileiro (vem desde 1979).

Outro dia fiz um post destacando que os técnicos portugueses têm tido mais sucesso do que os argentinos aqui no Brasil, sobretudo na conquista de títulos. Agora voltei o foco para a prancheta nacional, que vive um momento ruim. Isso é fato. Os treinadores brasileiros precisam melhorar seu nível para competir com os estrangeiros que chegam cada vez mais em número maior.

Tite não disputa mais aqui com Celso Roth ou Joel Santana, não temos mais aquela ciranda de técnicos em que os demitidos em um clube achavam logo uma vaga em outro time do país. Os clubes estão mais endinheirados e mais exigentes, por isso buscam no exterior melhores profissionais.

Da mesma forma que a Premier League está repleta de grandes técnicos que não ingleses. Torço para que os melhores de qualquer área estejam aqui no nosso futebol, independentemente da nacionalidade. E isso inclui também uma torcida para que tenhamos técnicos brasileiros se desenvolvendo, apresentando bons trabalhos e brilhando aqui e, talvez, no exterior também.