Atualmente sem equipe depois de deixar a Roma, José Mourinho deu as caras nesse domingo (24) na MotoGP, na etapa de Portimão. No evento, o técnico chegou a falar sobre seu futuro e se tem alguma preferência quanto ao seu próximo clube. Entretanto, é possível fazer o movimento contrário e lembrar do passado do treinador, basta manter-se no país natal dele e caminhar ao norte.
A imagem dele é vista com facilidade dentro e fora do estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria. Banners gigantes com a foto do técnico exaltam o orgulho da cidade e da União de Leiria em fazer parte de forma determinante da história de um dos treinadores mais vitoriosos de todos os tempos. Mourinho, atualmente com 61 anos, viveu no centro de Portugal uma experiência breve, mas fundamental para o salto rumo aos altos escalões do futebol mundial.
Quando foi escolhido para comandar a União de Leiria, na temporada 2001/02, Mourinho tinha curta experiência como técnico. Havia dirigido o Benfica por 11 partidas na temporada anterior, antes de sair em dezembro por desacordos com a nova direção do clube. A escolha foi vista com surpresa entre os unionistas, como admite Micael Pedrosa, o Micas, um dos integrantes daquele elenco.
"Vínhamos de um quinto lugar, melhor classificação da história do clube, com um técnico conceituado como Manuel José", lembrou o ex-lateral-esquerdo em entrevista exclusiva à ESPN feita pela reportagem em viagem a Portugal, no fim de janeiro deste ano, para a cobertura das semifinais e final da Taça da Liga (o Braga, que eliminou o Sporting, acabou campeão após bater o Estoril, que derrubou o Benfica, nos pênaltis).
"Ficamos admirados com a decisão do clube em não continuar com ele e contratar Mourinho. Não diria que era um desconhecido, mas como técnico principal era um ponto de interrogação. Tinha trabalhos como auxiliar, um relativo sucesso no Benfica, mas não como efetivo. Ficamos curiosos em saber o que nos esperava", acrescentou Micas.
O ceticismo de Micas, porém, logo foi substituído por uma ótima impressão: "Ele nos conquistou através do trabalho. Revolucionou a nossa forma de trabalhar, a dinâmica de treinos. Percebemos que havia algo diferente ali. Antes, havia uma distância muito grande entre jogadores e comissões técnicas e percebemos nele alguém muito próximo. Parecia um de nós, já nos conhecia. Chegava bem preparado, sabia sobre a carreira de cada um, sobre nossa vida pessoal. Era algo completamente diferente".
O detalhismo de Mourinho chegava até aos jogadores que retornavam de empréstimo, como era o caso do lateral, formado no clube: "Como tive uma lesão grave, fui emprestado para poder jogar. No primeiro dia, durante os exames médicos, ele me procurou para falar sobre o que eu tinha feito na temporada. Ele já tinha ido se informar. Eu estava numa equipe de terceira divisão (Portomosense), e ele tinha se interessado em saber. Aquilo foi um alerta", detalhou.
Hoje com 43 anos, Micas trabalha como técnico dos juniores do Sport Clube Leiria e Marrazes, clube formador que revelou Rui Patrício, goleiro titular de Portugal na conquista da Euro 2016 e que foi comandado por Mourinho na Roma. Ele conta que a maior inspiração de Mourinho para seu trabalho não é na metodologia de treinos, mas na forma de lidar com seus atletas.
"Mourinho sempre foi muito frontal. Ele vai te dizer na cara se você for a segunda opção, sem rodeios. Foi o que ele fez comigo. O titular era o Nuno Valente, e Mourinho francamente disse que eu jogaria quando ele não estivesse em condições ou caísse de rendimento", afirmou. "E minha estreia na primeira divisão foi justamente por uma lesão do Nuno".
Depois de entrar no segundo tempo da vitória por 3 a 0 sobre o Belenenses, em novembro de 2001, Micas foi sorteado para o exame antidoping, onde uma surpresa o aguardava.
"Quando você ia para o antidoping, te pegavam pelo braço e te levavam direto para uma sala, sem passar pelo vestiário", explicou. "Ninguém podia entrar. Então, alguém começa a bater na porta, e o médico respondendo que ninguém podia entrar. Ele abre a porta, coloca a cabeça para dentro e diz: 'só quero cumprimentar meu jogador!'. E assim, com a porta meio fechada, meio aberta, vem e me dá um abraço pela minha estreia. Tinha preocupação em demonstrar afeto e mostrar que estava contente por mim. Quem o conhece sabe que foi genuíno", contou o ex-lateral.
Por que, então, muitas vezes a imagem passada por Mourinho durante as aparições públicas é tão diferente? "É sua forma de lidar com o mundo exterior. No ambiente interno, é de trato fácil, tem um senso de humor fantástico. É exigente, como é óbvio que seja. Quando precisava chamar a atenção de forma dura, também o fazia. Até hoje me perguntam sobre sua forma arrogante, mas o que posso dizer é que se trata de um homem preocupado com seus jogadores e com seu grupo de trabalho".
O jogo da estreia de Micas – que seria também sua única partida de campeonato sob o comando de Mourinho – marcou o início de uma arrancada da União de Leiria para as zonas altas da tabela. Em dezembro, uma goleada de 7 a 0 sobre o Salgueiros, com quatro gols de Derlei, abriria uma sequência de cinco vitórias consecutivas. No dia 20 de janeiro, ao empatar por 1 a 1 com o Santa Clara, o time chegou a oito partidas sem perder. Seria também a última vez que Mourinho dirigiria o time. No mesmo dia, o Porto perdeu para o Boavista e ele foi procurado para assumir o comando dos Dragões.
Para Micas, um misto de sentimentos: "Estávamos confortáveis com os processos de jogo, confiantes, sentíamos que poderíamos fazer qualquer coisa. Estávamos a três ou quatro pontos do Sporting de Jardel e João Pinto, que seria campeão. Pensávamos que poderíamos melhorar ainda mais a classificação do ano anterior. Fiquei feliz por ver meu treinador ir para um grande clube, mas triste porque estávamos indo muito bem e aquilo ia terminar".
A União de Leiria teve outros dois técnicos – Mário Reis e Vítor Pontes – até o fim daquela temporada, terminando em sétimo lugar. Derlei e Nuno Valente sairiam para se juntar a Mourinho no Porto, no qual fariam parte de um time histórico, campeão da Copa da Uefa (atual Europa League) em 2002/03 e da Uefa Champions League em 2003/04.
Micas, que passou o restante da carreira em equipes mais modestas, ainda tem dúvida sobre o que poderia ter sido, mas sobretudo com a honra de fazer parte da história de um profissional lendário.
"Não sou portista, mas ali já comecei a torcer muito pelas vitórias de Mourinho. Aquele era um grupo especial, ainda troco mensagens com muitos colegas, nos encontramos no estádio para ver nosso time e falar um pouco do que foi aquele ano. Meu sentimento é de gratidão. Se olharmos para tudo que ele conquistou, é um marco na minha vida e na minha carreira. Brinco que há grandes jogadores do topo europeu que não tiveram o prazer de trabalhar com ele. Eu, que tive uma carreira que não foi muito além, tive. Isso conta muito e é por isso que eu sou Mourinho Futebol Clube".
